Morreu o premiado compositor Pete Rugolo, que tocou com lendas do jazz e criou temas inesquecíveis de séries de TV. Ele faleceu de causas naturais num lar para idosos em Los Angeles, aos 96 anos de idade.
Rugolo nasceu na Sicília, Itália, e emigrou com sua família para os EUA nos anos 1920. Seu pai tocava trombone e ele foi criado em ambiente musical. Estudou música na universidade e, logo após a formatura, foi contratado como arranjador e compositor pelo bandleader Johnny Richards.
Detalhe da capa de um de seus discos
Durante a 2ª Guerra Mundial, participou de uma big band do exército americano ao lado do gênio do saxofone Paul Desmond, levando swing para os recrutas. Logo em seguida, passou a trabalhar com seu ídolo Stan Kenton, que comandava uma das big bangs mais “progressivas” da época. Foi neste período que começou a testar os limites entre o jazz, o pop e a música erudita, vencendo a votação da prestigiosa revista de jazz DownBeat como melhor arranjador de 1947 – a primeira de cinco vitórias que teria até 1954.
Nos últimos anos do som das big bands, Rugolo se dedicou a arranjar as gravações da cantora da orquestra de jazz de Kenton, June Christy, atraindo com seus discos a atenção da indústria. Ele ainda conduziu a Metronome All-Stars, uma big band cujos integrantes eram votados pelos leitores da revista Metronome e que, em 1949. o colocou a frente de um dream team formado por, entre outros, Charlie Parker, Dizzy Gillespie, Miles Davis – precisa continuar?
Conduzindo o dream team do jazz, a Metronome All-Stars de 1949
Naquele ano, já premiado e reconhecido no showbusiness, ele se tornou o diretor musical da gravadora Capitol Records em New York, para quem contratou vários players da era bebop, entre eles Miles Davis, além de cantores como Peggy Lee e Mel Tormé.
Seu talento o tornou requisitado em estúdio, o que o levou a arranjar gravações de cantores tão variados e importantes quanto Ernestine Anderson, Harry Belafonte, Nat King Cole, Billy Eckstine, The Four Freshmen, Peggy Lee, Patti Page, Mel Tormé e Kitty White.
Gravando Nat King Cole
Ele também produziu as lendárias sessões do disco/marco “Birth of the Cool”, de Miles Davis e Gil Evans, que influenciou os rumos do jazz a partir de 1957, além de desenvolver sua própria carreira fonográfica – numa discografia de nomes exóticos para a geração hi-fi, como “Adventures in Rhythm”, “Rugolomania”, “Reeds in Hi-Fi” e “Music for Hi-Fi Bugs”.
No início dos anos 1950, ainda arranjou e compôs partituras de diversos filmes da MGM, como “Eva na Marinha” (1952) e “Fácil de Amar” (1953), ambos com Esther Williams, “Meu Amor Brasileiro” (1953), com Lana Turner, e “A Jovem que Tinha Tudo” (1953), estrelado por Elizabeth Taylor. Mas foi na televisão que desenvolveu algumas de suas músicas mais famosas.
Filmagens do set de The Thin Man, com Peter Lawford
Após a trilha inovadora de “Peter Gunn” (1958), de Henry Mancini, abrir as ouvidos dos telespectadores para o jazz orquestral, vários produtores de séries de temática noir buscaram replicar aquele apelo sonoro, fomentando um dos períodos mais criativos das trilhas televisivas.
Rugolo se tornou literalmente instrumental para esse fase. Ele compôs alguns dos temas mais famosos da TV, como a música da série baseada em “A Ceia dos Acusados”, “The Thin Man” (1958), com Peter Lawford (“Onze Homens e um Segredo”), a abertura jazzista de “Richard Diamond: Private Detective” (1958), a trilha de “Thriller” (1960), antologia de suspense apresentada por Boris Karloff (“Frankenstein”), e a icônica partitura de “O Fugitivo”, uma das séries mais influentes de todos os tempos, gravada por uma orquestra de 55 instrumentos.
David Janssen, em cena da série clássica O Fugitivo
Pelo trabalho na trilha de “Run for Your Life”, estrelada por Ben Gazzara (“Crônica de um Amor Louco”), foi indicado três vezes ao prêmio Emmy. O troféu da televisão veio em 1970, pelo telefilme “The Challengers”, e em 1972 pela música da série “The Lawyers”. Ele também compôs para episódios de “The Alfred Hitchcock Hour”, “Havaí 5-0″, “Police Woman” e “M*A*S*H”, entre muitas outras produções.
Sua música era contagiante e vanguardista. No filme “Bastam Dois para Amar” (1960), uma banda experimental interpretava várias de suas composições para ilustrar a sonoridade beatnik. Levado a definir aquele som, o lider da banda, vivido pelo ator Frank Gorshin (o Charada da série “Batman”) numa imitação de Rugolo, emplacou uma descrição antológica: “jazz dialético”.
Frank Gorshin imitando Rugolo em Bastam Dois para Amar, ao lado de Connie Francis

































