RECIFE A competição de longas do Cine PE está bastante musical neste ano. Depois de Roberto Carlos no primeiro dia (“À Beira do Caminho”, filme de Breno Silveira) e música eletrônica no segundo (“Paraísos Artificiais”, de Marcos Prado), a noite de sábado trouxe ao Cine Teatro Guararapes o ritmo multiculturalista e dançante de “Jorge Mautner – O Filho do Holocausto”.
Dirigido pelo jornalista Pedro Bial e pelo músico Heitor D?’Alincourt, o documentário mescla biografismo e crônica a respeito do compositor e cantor nascido no Rio de Janeiro em 1941, filho de imigrantes judeus fugidos do nazismo no começo da 2ª Guerra Mundial.
A questão do extermínio judaico é central especialmente na primeira parte do longa-metragem. Em depoimento, o próprio Mautner diz que toda a sua obra tentou lidar com elementos relativos à morte de parentes nos campos de concentração.
Bial completa que parte do interesse em abordar esse aspecto da vida de Mautner foi estimulado pela experiência de ele ter trabalhado como repórter nas Olimpíadas de Pequim, na China, em 2008.”Vi o mundo todo aplaudindo aquela abertura que usava uma estética e organização fascista e percebi como isso está mais perto do que a gente imagina”, comentou, em conversa com jornalistas no Recife. Não à toa, o filme abre com imagens de arquivo das tropas nazistas lideradas por Adolf Hitler entrando na Áustria mescladas a uma interpretação contemporânea de Mautner para sua composição “Lágrimas Negras”.
“O Filho do Holocausto” se sustenta em sequências maravilhosas de Mautner cantando ao som de uma banda de incrível talento, dirigida pelo multi-instrumentista Kassin. São 36 canções, intercaladas por depoimentos, declamações, imagens do passado e uma memorável conversa entre o músico e sua filha, Amora Mautner. “A gente reconhece que esta é a melhor sequência do filme”, assumiu Bial. “O diálogo dos dois não é só entre o artista Mautner e a diretora (da Rede Globo) Amora, mas essencialmente entre um pai e uma filha”.
A faceta de Pedro Bial como apresentador do “Fantástico” e do “Big Brother Brasil” evidentemente se sobrepõe ao seu lado de cineasta. Até porque, antes de “Jorge Mautner – O Filho do Holocausto”, ele dirigira apenas a ficção “Outras Estórias” (1999), adaptação de contos do escritor Guimarães Rosa.
“Fiquei muito endividado com esse filme e precisei trabalhar anos para pagar todas as contas que ele me deixou. Isso se tornou um trauma que me afastou de qualquer vontade de voltar ao cinema”, confessou ontem. O projeto em torno de Mautner o estimulou a retornar, também como produtor. “Eu não devo ganhar dinheiro, mas pelo menos não vou perder”.
Questionado se o reality-show da Globo era sua forma de “ganhar dinheiro”, Bial disse: “Estou sujeito às leis do mercado. Fui chamado para apresentar o ‘?Big Brother’?, deu certo e virei o ?senhor BBB?. Não tenho a mínima vergonha de estar à frente de uma atração que me permite dialogar com todas as camadas sociais”.
O projeto do novo filme surgiu do contato de Heitor D’?Alincourt com Jorge Mautner. Ambos tocaram juntos nos anos 1990, e o primeiro se tornou razoavelmente próximo do segundo. Ao conhecer Pedro Bial por uma paixão em comum (o time do Fluminense), D?’Alincourt apresentou a ideia de um registro audiovisual da obra de Mautner.
“O que tenho a dizer sobre esse filme é que ele precisava ser feito. E fizemos”, disse o jornalista. Ele e o parceiro trabalharam com orçamento pequeno e filmaram tudo em apenas quatro dias – incluindo participações importantes de Caetano Veloso e Gilberto Gil, entre outros.
































