Para atores, A Novela das 8 não passaria na TV

Parte dos filmes brasileiros costuma irritar os críticos por não explorar o potencial da linguagem cinematográfica e ficar presa ao limitado padrão do formato televisivo. O resultado, muitas vezes, lembra mais uma novela, interessado apenas nos rostos dos atores e com pouca audácia nos temas. Pois o longa-metragem de estreia do diretor Odilon Rocha ironiza essa situação já no próprio título: “A Novela das 8”.

Estrelado por Claudia Ohana (“Desenrola”), Mateus Solano (“Linha de Passe”) e Vanessa Giácomo (“Jean Charles”), o filme se passa em 1978, quando a luta pela democracia começava a ganhar força no Brasil. “Gostei muito do roteiro, fala de um período de mudanças não só do nosso país, mas também das pessoas que, naquela ocasião, passaram a assumir seus desejos então reprimidos pela ditadura militar”, comentou Solano. Cláudia Ohana, que interpreta uma ex-jornalista que foi torturada, concorda. “É um filme que tem ação, mas não é de ação; é um filme que tem política, mas que não é político; é divertido sem ser comédia; e é de amor sem ser de amor. São seres humanos que se entrelaçam. É um filme ousado.”

Uma das grandes ousadias de “A Novela das 8” está em trazer um apaixonado beijo entre dois homens – justamente um tabu das telenovelas de qualquer horário. Quem vive a cena é Mateus Solano. Ele interpreta um diplomata casado que acaba se envolvendo com um rapaz mais novo e descobre (ou aceita) sua homossexualidade.

Solano, que já havia feito um personagem homossexual e beijado outro ator tanto no teatro, na peça “Pedro e o Lobo”, quanto na minissérie “Um Só Coração” (cuja cena foi excluída), diz não ter encontrado qualquer dificuldade durante as gravações – pelo contrário. “O bacana de ser ator é isso, poder viver situações que jamais poderia viver na vida real. Quando é que eu poderia beijar outro homem?”, se perguntou aos risos.

Ao assumir sua orientação sexual, o personagem João Paulo precisa enfrentar a repressão da ditadura vigente e o preconceito tanto da sociedade quanto de sua própria família. Mas ator global que é, sabe que os costumes não mudaram tanto quando se trata de homossexualidade na TV: apesar de um telejornal como um Jornal Nacional poder noticiar e transmitir a Parada Gay em horário nobre, por exemplo, as novelas do canal carioca jamais mostraram dois homens se beijando – limitando-se a deixar subtendida a relação afetiva. Para Solano, o conservadorismo está na sociedade e não na emissora televisiva. “As novelas brindam o telespectador com o que ele quer assistir. Nesse caso, acho que o público não tem o desejo de ver dois homens se beijando”, declarou.

Para o ator, o público de cinema é um pouco mais liberal sobre o assunto, mas ele acredita que mesmo o mais conservador irá apreciar a cena do beijo de seu personagem. “Gostei muito do resultado, mostra um tesão, um desejo que se vê em qualquer casal. Tem até uma masculinidade, uma pegada, são dois machos se pegando. É muito bonita”, disse.

Mas Solano não é o único a ter momentos quentes no filme. Vanessa Giácomo interpreta Amanda, uma garota de programa que atende clientes em seu apartamento – e a atriz não nega um desconforto durante as cenas de sexo. “Esse tipo de sequência nunca é um trabalho em que você fica à vontade. É sempre incômodo, dizer que ficamos tranquilos é mentira”, revelou. Sua personagem adora novelas e foge da realidade curtindo o sucesso de Gilberto Braga “Dancin’ Days” – a tal “novela das 8” do título.

Apesar dos conhecidos tabus, como o próprio caso do beijo gay, a atriz acredita que os folhetins vão além do entretenimento e cumprem a função de informar o público sobre sua realidade, tratando de assuntos do cotidiano nacional. “A pessoa trabalha o dia inteiro, chega em casa cansada e não tem a possibilidade nem tempo de ver muitas coisas, de ler jornais. Ela se atualiza com a novela. Em uma hora a gente está lá para milhões de pessoas, isso é um meio de comunicação muito poderoso.”

Na trama, a prostituta Amanda enxerga a possibilidade de realizar o seu sonho e conhecer a danceteria carioca que inspirou o autor Gilberto Braga, quando decide ir para o Rio de Janeiro com sua empregada Dora – interpretada por Claudia Ohana. A atriz, curiosamente, gostou de viver uma doméstica. “Sempre vivi personagens muito ímpares na minha carreira. Fiz vaqueira, cangaceira, uma vampira. Não tenho um histórico de personagens como uma mulher comum, uma mãe como a Dora. Foi um desafio bacana”, comemorou Ohana.

Dora, na verdade, nem é tão comum assim, pois estava em São Paulo trabalhando disfarçada como empregada doméstica. Ela era, na verdade, uma fugitiva política, e Cláudia até frequentou o grupo Tortura Nunca Mais para conhecer os dramas vividos por quem enfrentou a ditadura. A personagem também é mãe de Caio (Paulo Lontra), o rapaz por quem o personagem de Solano, um diplomata que trabalha a favor dos militares, se apaixona. Como se vê, o roteiro de Odilon Rocha, premiado no Festival do Rio em 2011, é uma verdadeira novela.

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Leia também a crítica:

>A Novela das 8 presta homenagem aos frenéticos dancin’ days

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+ Leonardo Vinicius Jorge

Leonardo Vinícius Jorge é jornalista, crítico de cinema e autor do livro “12 de Setembro: O Cinema Hollywoodiano Após os Atentados Terroristas que Mudaram o Mundo”.

1 Comentário

  • toni Guimaraes Identicon Icon toni Guimaraes
    27 de dezembro de 2012 | Permalink | Responder

    PAULO LONTRA (CAIO) MATEUS SOLANO (JOÃO PAULO) PARABÉNS PELA CORAGEM E BELA INTERPRETAÇÃO. O PAULO LONTRA MERECE TODO DESTAQUE, FABULOSO -
    ATOR E MUITO CORAJOSO.

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