Desde que despontaram em 2009 com “Rumo”, o primeiro longa-metragem brasileiro rodado inteiramente num celular, os irmãos Luiz e Ricardo Pretti, e seu coletivo Alumbramento, se tornaram sucesso nos circuitos de festivais mundo afora.
A proposta de não utilizar qualquer dinheiro advindo de editais – algo impensável no atual esquema de produção brasileiro – ou grandes produtoras, e trabalhar o filme de maneira artesanal, colocando toda a equipe para resolver todas as questões dentro do set, foi tratada como um grande avanço na mentalidade dos realizadores brasileiros, e se firmou como um modelo possível de criação. Tanto que em seu segundo filme, “Estrada Para Ythaca”, os irmãos, agora acompanhados por Pedro Diógenes e Guto Parente, roteirizaram, atuaram, dirigiram, editaram e até compuseram algumas faixas da trilha, elevando a outro patamar o seu peculiar modo de trabalho.
Se em “Ythaca” a narrativa, quase inexistente, sobre amigos que se unem para homenagear outro que acaba de falecer, ecoava e se revolvia sobre esta ideia de fazer um novo cinema, em “Os Monstros” todas as sensações são muito mais discretas. A amizade continua como uma linha-guia para tudo que o filme tem a dizer, mas a militância artística surge muito mais suave, quase solene, como uma presença fantasmagórica que permeia toda a curta duração da historia.
Apesar de ser difícil precisar se este é um filme sobre amor, companheirismo, música, liberdade ou juventude, a visão dos diretores é tão ampla que nada parece ser desnecessário ao conjunto. Todas as cenas de “Os Monstros” existem por razões muito específicas, e, assim como seu título, não querem dizer uma coisa só.
A primeira sequência, que mostra o solitário personagem de Luiz Pretti improvisando de maneira estranha num instrumento parecido com uma corneta, no telhado de sua casa, e as reverberações de tal ato que culminam com sua mulher pondo uma mala abarrotada de roupas do lado de fora da casa e trancando as portas, é tão carregada de sentimento imagético quanto o vazio das atuações permite. E é dessa esterilidade que surge a força do cinema feito pelo Alumbramento. Assim como ensina Robert Bresson, a imagem e a palavra pura tem muito mais poder que a encenação.
Obviamente que não é um cinema de fácil absorção: boa parte dos planos são longos, passivos, e quase sempre tão silenciosos que o primeiro diálogo do filme chega apenas depois de 10 minutos. Mas quando surgem, parecem tão afiados que recompensam a espera. Como na cena em que um dos rapazes fala que é “um amador apaixonado” e o outro responde dizendo que “hoje em dia só amar algo com paixão já é muita coisa”. Os filmes estão aí para provar que eles acreditam no que dizem.
Os Monstros
(Brasil, 2011)

































