Os brasileiros que surpreenderam Cannes

CANNES Os cineastas paulistas Juliana Rojas e Marco Dutra ainda são poucos conhecidos no Brasil, mas já são veteranos no Festival de Cannes. A dupla, acostumada a trabalhar junta desde a universidade, já rumou para a França duas vezes antes, expondo curtas-metragens de sua autoria em 2004 e 2007. Na última ocasião, levaram o prêmio do júri na sessão da Semana da Crítica por “Um Ramo”. Agora, eles têm o primeiro longa-metragem de suas carreiras selecionado pela mostra Um Certo Olhar – o único representante brasileiro em qualquer exibição competitiva desta edição do Festival.

O filme em questão, “Trabalhar Cansa”, foi exibido em sessão oficial na quarta-feira (12/05). Rodrigo Santoro, talvez o ator brasileiro mais conhecido no exterior, esteve presente para incentivar, mesmo não fazendo parte da produção. A dupla de cineastas, porém, permaneceu no centro das atenções durante a exibição – bem recebida pelo público – e após, já na fase de entrevistas e discussões.

Ambos agradeceram aos organizadores do Festival pela “coragem e generosidade” de reconhecerem o trabalho. “Esperamos honrar o Un Certain Regard [Um Certo Olhar, em francês], que sempre foi a nossa seleção favorita dentro do festival”, discursou Marco antes do início da sessão.

Pelo visto, essas expectativas se concretizaram. O filme foi recebido pela plateia com certa perplexidade. A impressão geral foi a de que o longa destoava daqueles que costumam sair do Brasil para os cinemas estrangeiros. Trata-se, afinal, de um filme de terror, gênero pouquíssimo explorado pelo cinema nacional. O espectador que esperar pelo estereótipos de Zé do Caixão, no entanto, vai se frustrar: o ponto de partida da trama é corriqueiro e banal.

A história é focada no cotidiano de um casal de classe média, com impasses e aspirações típicos da sociedade em que estão inseridos. O marido (Marat Descartes) perde o emprego no momento em que a esposa (Helena Albergaria) começa a concretizar os planos de montar um mercadinho. Com as vidas profissionais em diâmetros opostos, os dois mergulharão em um ambiente opressor, onde os aspectos mais negativos de suas personalidades vão se acentuar, com consequências inesperadas e surpreendentes.

“O horror foi se infiltrando pouco a pouco na história”, disse Rojas. Ela e Dutra, cuja parceria se estende por mais de 10 anos, afirmam possuir um fraco pelo gênero, reverenciando Alfred Hitchcock e o mestre da literatura de terror Edgar Allan Poe. Eles não pretendiam, contudo, fazer um horror genérico, de critérios fechados e convencionais.

“Queríamos contar uma história que mostrasse a importância do poder econômico, e como o mundo do trabalho afeta o mundo pessoal”, explicaram. “O que nos interessa é de que maneira um gênero como o fantástico, o do horror, pode ser utilizado como filtro para discutir e iluminar outros temas”, esclareceu Dutra.

O tema em questão é a própria sociedade brasileira contemporânea. Não há, aqui, favela ou biquínis, os ícones mais projetados pelo cinema nacional no exterior. Mas não só os estrangeiros devem se espantar: os próprios brasileiros podem receber a trama e a sua abordagem com estranheza. O raciocínio é da própria produtora, Sara Silveira, que compareceu à apresentação do longa com a bandeira do país à tiracolo.

“Esse filme é um pouco diferente dos filmes brasileiros que todos se acostumaram a gostar. Ele vai além de examinar as questões de desemprego, exploração e preconceito de classes muito comuns no Brasil”, comentou Sara.

Para a produtora, “Trabalhar Cansa” só conseguiu passar por essas situações espinhosas graças à visão dos realizares. “Foram esses dois jovens e talentosos cineastas que me permitiram estar aqui, pela segunda vez, na meca do cinema mundial”, elogiou Sara. Ela também produziu “Um Ramo”, o premiado curta da dupla, entre outros exemplares notáveis, como “Cinema, Aspirinas e Urubus”, que também chamou atenção em Cannes em 2007, e “É Proibido Fumar” (2009), com Glória Pires. Agora, assina a produção de “Trabalhar Cansa” ao lado de Maria Ionescu.

O vencedor da mostra Um Certo Olhar só será anunciado em 22 de maio. São, ao total, 14 filmes competindo, inclusive o aguardado “Restless”, o mais recente trabalho de Gus Van Sant (“Elefante”, “Milk”). Independente do resultado, os méritos de “Trabalhar Cansa” já são muitos e claros.

Por si só, o filme promove uma outra faceta do cinema brasileiro. Em um plano geral, ele consolida a habilidade de dois cineastas que começaram por baixo, cresceram às custas de talento e construíram nome internacional antes mesmo do próprio país lhes descobrir. E tudo fermenta o interesse para que “Trabalhar Cansa” faça, em breve, uma boa carreira nos cinemas do Brasil.

+ Louis Vidovix

Louis Vidovix é publicitário, leitor voraz, cinéfilo incorrigível e fã das séries de TV. Expõe suas opiniões no blog Acho Melhor Não Ler

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