VENEZA “Girimunho” – um sinônimo regional para “redemoinho” – foi o segundo participante brasileiro no Festival de Veneza deste ano, seguindo “Histórias que Só Existem quando Lembradas”.
O filme, da dupla de diretores Helvécio Marins e Clarissa Campolina, mistura ficção e documentário, e já havia impressionado em sua exibição no Festival de Berlim, onde venceu o concurso do World Cinema Fund. Chega ao evento italiano como parte da mostra Orizzontti (Horizontes), um reduto dos filmes autorais e de linguagem mais ousada. O que explica, talvez, a recepção mista: parte do público abandonou a sessão antes do fim; os que ficaram, porém, se maravilharam com o resultado final.
Co-produzido entre Brasil, Alemanha e Espanha, o longa acompanha duas velhas senhoras, inseridas em uma cidadezinha pacata do interior mineiro, que se aproximam depois que uma delas perde o marido e começa a rever o seu plano de vida.
“Girimunho” pretende contrapor as noções da tradição e da contemporaneidade, da vida e da morte, da realidade e do onírico. Sem perder, também, o senso de realismo, garantido por um elenco amador que interpreta variantes das próprias personas. As senhoras, por exemplo, realmente enfrentaram as ponderações do filme, o que permite aos diretores mesclar a ficção com uma abordagem mais documental.
Marins já previa que uma parcela dos espectadores poderia ter problemas com a narrativa radical, e não se disse surpreso com a reação na sessão. Acima de tudo, declarou-se honrado por fazer parte do festival de Veneza, “o mais antigo do mundo, com 68 anos, e o maior ao lado de Canes”. “Recebemos o convite com extrema alegria, ainda mais por se tratar de uma mostra oficial”, declarou Helvécio.
Já Campolina, a outra diretora, afirmou que “além de compartilhar as histórias e os sentimentos de Bastu e Maria, duas senhoras do interior mineiro, poderemos compartilhar uma forma de olhar para o mundo e para o cinema”.
Como tantas produções brasileiras, “Girimunho” enfrentou percalços financeiros para sair do papel. “Queríamos fazer esse filme por uns três anos”, contou Marins. A empreitada foi possibilitada pelo projeto Filme em Minas, um programa de estímulo ao audivisual alimentado pela Secretaria de Estado da Cultura e a CEMIG (Companhia Energética de Minas Gerais) – ao qual a dupla de cineastas faz agradecimentos profundos.
A intenção dos diretores era mostrar a capacidade de viver e se alegrar apenas por ver o tempo passar diante dos olhos, relatar o otimismo de quem recebe cada dia como uma dávida e provar que a tradição e a sabedoria popular têm muita beleza agregada a si.
O resultado foi atingido não só pelo cronograma de filmagem, mas também, e principalmente, pelos retratados. “Durante o processo, descobrimos que quanto mais livres deixávamos as coisas, mais obtínhamos o que queríamos”, disse Marins.
Para o diretor, “foi muito importante desenvolver uma intimidade com aquelas pessoas, para que elas se sentissem confortáveis na nossa presença”. Logo, “Girimunho” é um exemplo vivo de um modelo muito específico de cinema – “o da arte que é capaz de aproximar os mundos”, nas palavras do diretor.
Mais do que protagonistas, as figuras que compõe o filme ajudaram a estruturar o que, antes de seu envolvimento, era apenas um rascunho. “Quisemos viver com eles e criar com eles o roteiro e o filme”, explicou Marins.
“Às vezes ignorávamos o roteiro inicial, tanto por respeito a eles quanto por alguma coisa que acontecia e que era muito indicativo para nós. E às vezes decidíamos que alguém diria uma fala de outra maneira para suscitar a reação espontânea do outro”, completou. O que se vê na tela, segundo o codiretor, “não é o resultado de uma investigação, mas um estudo para a vida e para outros aspectos”.
E assim aconteceu durante os três meses de filmagens no norte de Minas, que acrescentaram aos cineastas mais do que os três anos de preparativos prévios. Para os envolvidos na produção, “Girimunho” foi, além de um filme gestado com carinho, uma lição de vida. “Nos personagens, encontra-se uma espécie de desejo por viver cada dia como se fosse único. Eles têm aspectos muito tradicionais, mas ao mesmo tempo não querem viver no passado, e isso é realmente admirável”, declarou Marins.
O filme abre um Brasil interiorano ignorado no resto do mundo, mas também no próprio país, que ainda mantém vivo o vocabulário regional imortalizado pelo escritor João Guimarães Rosa. A parcela do público que embarcou na experiência em Veneza se maravilhou com as vidinhas desses grandes sertões.


































