O Príncipe do Deserto reduz conflito árabe à clichês de novela

A questão da identidade árabe pode ser um assunto estranho à maioria dos brasileiros, mas o assunto está pegando fogo na Europa e no Oriente Médio. A xenofobia e o aperto da repressão à imigração nos países europeus só aumenta, enquanto a Primavera Árabe provoca mudanças no cenário sociopolítico da região. O barril de pólvora (ou de petróleo) também parece prestes a explodir com a eterna tensão entre Israel e Irã, além da indefinição sobre a criação de um estado palestino.

Há tanto em jogo que qualquer borboleta pode provocar um furação e as artes refletem, ou deveriam refletir, essa situação. Por essa ótica, é extremamente lamentável o resultado cinematográfico de “O Príncipe do Deserto”. Produção financiada por países europeus e árabes, o longa-metragem dirigido pelo francês Jean-Jacques Annaud (“O Nome da Rosa”) carece de uma identidade tanto política quanto cinematográfica, a começar pelo seu elenco: o espanhol Antonio Banderas (“À Toda Prova”), o inglês Mark Strong (“John Carter – Entre Dois Mundos”), a indiana Freida Pinto (“Planeta dos Macacos: A Origem”) e o francês Tahar Rahim (“O Profeta”) – o único com descendência árabe.

A opção por um elenco estelar e pela língua inglesa revelam obviamente uma proposta comercial, o que é compreensível, já que se trata de uma produção épica – com a visível intenção de rivalizar com “Lawrence da Arábia” (1962). Mas “O Príncipe do Deserto” abdica de qualquer intenção artística ao nivelar por baixo questões profundas e polêmicas, limitando-se a uma história convencional que agrada tanto a investidores e público europeus e árabes – o que soa estranho vindo de um cineasta que já foi acostumado a riscos e que, no começo da carreira, realizou obras como “Preto-e-Branco em Cores” (1976) e “A Guerra do Fogo” (1981).

Banderas interpreta Nesib, emir de Hobeika que acaba de vencer um longo conflito com o sultão Amar (Strong) por pedaços de terra na Árabia dos anos 1930. Para selar o acordo de paz, o sultão é obrigado a ceder ao inimigo seus filhos Auda (Rahim) e Saleeh (Akin Gazi), e os dois nobres concordam que não irão utilizar ou tomar posse da região conhecida como Faixa Amarela. Anos depois, porém, uma empresa americana descobre petróleo no local e divide os lucros da extração com Nesib, provocando novamente um conflito entre as duas famílias. E o príncipe Auda, um garoto que sempre preferiu os livros às armas, fica dividido entre os dois lados, mas acaba optando pelo mais improvável: rebela-se, torna-se líder de um exército de diversas tribos e procura uma terceira via.

Num desses casos raros, o título nacional é mais adequado do que o original, “Black Gold” (ouro negro), afinal a descoberta do petróleo não é o foco da história, inspirada no romance “The Arab”, de Hans Ruesch. A maior riqueza de uma região dominada por areia serve apenas como ponto de partida para narrar a ascensão do príncipe Auda, personagem cuja jornada já foi contada inúmeras vezes: de comportamento recluso e atrapalhado, o garoto cheio de sabedoria é tirado de sua zona de conforto e levado a assumir uma missão épica – passando por todos os tópicos do conceito criado por Joseph Campbell.

O que não seria nenhum problema se Annaud não tivesse apelado para tantos clichês. O cineasta, na verdade, consegue incluir praticamente todos, da insistência em mostrar o protagonista caindo para enfatizar sua fragilidade, até a típica cena na qual o herói está prestes a ser assassinado no campo de batalha, mas é salvo na última hora por algum aliado.

A evolução psicológica e física do personagem também acontece de forma mais explosiva do que a queda de um charuto americano num poço de petróleo árabe: o menino que cresceu numa biblioteca e que diz quase ter perdido o ombro na única vez que usou uma arma torna-se um guerreiro corajoso cheio de estratégias. É interessante notar inclusive como Auda, depois de tantos anos usando óculos, simplesmente para de usá-los.

O personagem, no entanto, não deixa de ser atraente, muito por conta da interpretação de Rahim, que já havia mostrado talento no ótimo “O Profeta” (2009). Strong é outro que está muito bem, dando humanidade ao sultão que é contra ideias progressistas. Riz Ahmed (“Centurião”) também se destaca como o médico cheio de piadas sarcásticas e brilha cada vez que aparece. Já Banderas erra a mão e cai na caricatura ao tentar “transformar-se” em árabe, forçando nos gestos e no sotaque – e a opção pelo inglês como o idioma do filme só piora as coisas.

O roteiro de Menno Meyjes, Alain Godard e do próprio Annaud alterna, durante o primeiro e segundo atos, os pontos de vista do emir Nesib, interessado em riquezas, e do sultão Amar, contra novas tecnologias e seguindo o Corão de forma fundamentalista. Aparentemente, parece ser uma tentativa de enxergar todos os lados, já que o “rei pobre” Nesib sempre quis dar escolas e hospitais e bibliotecas aos seus súditos – e é o que ele faz quando enriquece. Ao mesmo tempo, o religioso Amar alerta para os perigos do excesso do dinheiro e do luxo, e prega os valores fraternos e a justiça – e ele mostra-se justo algumas vezes.

Mas, mais do que dar uma vida melhor a seu povo, Nesib quer viver do ouro e da riqueza, e não esconde a satisfação pelos privilégios – e o filme não faz exatamente uma crítica a essa diferença social. Exatamente como acontece do outro lado: o sultão Amar diz ao petroleiro que não tem qualquer interesse por dinheiro, mas não se dá conta de que sua família controla as terras e as pessoas há séculos e sua condição de vida é muito melhor do que a de seus colegas.

O capitalismo é ruim? O “não-capitalismo” (para não dizer comunismo) é ruim? O sistema tribal é ruim? “O Príncipe do Deserto” finge abrir essa discussão, mas na verdade se isenta dela. É justamente essa superficialidade seu grande problema. Para o filme, os conflitos criados com a extração de petróleo acontecem puramente pela ganância e pensamentos retrógados das diferentes tribos e etnias da região árabe, mas as empresas e o governo americano parecem não ter qualquer parcela de culpa na situação.

O longa de Annaud supõe discutir um assunto polêmico, mas enxerga com romantismo o ambiente e os costumes árabes, com as mulheres vivendo no conforto das sedas coloridas, dos incensos cheirosos e… da burca, que tampa seu corpo inteiro com um pano preto em pleno deserto. A realidade parcial e subjetiva do filme mais parece uma versão cinematográfica das novelas “O Clone” (2001-2002) e “Caminho das Índias” (2009).

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O Príncipe do Deserto

Imagem de Amostra do You Tube
(Black Gold, França/Qatar, 2012)

 ★½☆☆☆ 

+ Leonardo Vinicius Jorge

Leonardo Vinícius Jorge é jornalista, crítico de cinema e autor do livro “12 de Setembro: O Cinema Hollywoodiano Após os Atentados Terroristas que Mudaram o Mundo”.

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