O pintor Pieter Bruegel (1525?-1569) nasceu numa localidade que provavelmente se situa hoje na Holanda. A data de nascimento é também incerta. É fato que morreu em Bruxelas. Homem do Renascimento, retratou em suas telas toda a vida rural de pequenas aldeias, num mundo marcadamente medieval. Seus quadros pareciam querer abarcar tudo o que se fazia e se vivia naquele pequeno mundo, inclusive os medos, as fantasias, a insegurança, o terror. A vida produtiva, as festividades, a comida, os trajes, os rituais religiosos, a vida compartilhada com os animais, as contendas, crueldades e o ser humano dentro da paisagem natural, sendo pequeno frente a ela, são características de sua obra.
É importante situar isso para falar do filme “O Moinho e a Cruz”, porque sua proposta parte de um quadro de Bruegel para recriá-lo no cinema, enfocando tudo o que tem nele e, dessa forma, descrevendo a sociedade rural do século XVI, tal como o artista a via e percebia. O quadro se move e se subdivide em suas múltiplas partes. Outras informações pertinentes à época retratada são utilizadas.
A ideia é perfeita, justamente porque o pintor buscava mesmo retratar a vida do povo flamengo nessas pequenas aldeias, com todos os seus elementos constitutivos. O ritmo do filme também é aquele em que supostamente viviam as pessoas. Há muito poucas falas e a tela do cinema fica povoada de personagens grande parte do tempo, como se vê nos quadros de Bruegel. A recriação da paisagem é muito fiel.
É curioso, porém, que a tela escolhida para o filme seja “A Ida ao Calvário” ou “A Procissão e o Calvário”, um tema religioso aparentemente deslocado de seu tempo.
O homem que carrega a cruz no centro do quadro não se destaca, nem se pode afirmar categoricamente que seja Jesus Cristo. O que está em jogo aí talvez seja mais a banalidade desse tipo de crueldade, assim como a de uma roda altíssima em que é posta uma vítima para ser mutilada pelos corvos ou mulheres enterradas vivas, como o filme acrescenta. Mas, na película, a crucificação desta figura é Cristo, com direito aos dois ladrões, aos clássicos trovões e à proximidade da mãe, a Virgem Maria, papel de Charlotte Rampling (“Não Me Abandone Jamais”). No quadro, a figura equivalente existe, mas não está próxima da vítima. Reflete a dor por seu martírio mas não a vê.
Deixando de lado, porém, o tema religioso, a caracterização da aldeia do século XVI é magnifíca. Todas as características da sociedade que Bruegel descrevia pictoricamente estão lá. O visual do filme é tão caprichado e fiel ao que retrata o pintor que tudo fica muito bonito e remete àquele tempo concebido a partir das pinturas.
Uma característica da tela em questão é muito bem explorada pelo diretor polonês Lech Majewski: o moinho. Ele está a uma altura desproporcional à paisagem. Bem no alto, no ponto mais alto possível. O pintor, que é personagem do filme, construindo sua tela, diz que o moinho precisa estar no alto, porque ele concebeu o moleiro como representação de Deus, aquele que vê tudo de cima. Esse ponto de vista é explorado pela câmera, mas o filme ainda concebe o interior de tal moinho, sua enorme escadaria interna, suas engrenagens, as pás que o movem, dando uma dimensão que transcende a realidade concreta.
Bruegel, vivido pelo veterano ator holandês Rutger Hauer (“Blade Runner”), desenhando e concebendo o quadro, vivendo e observando tudo o que acontece, é também um ótimo recurso. “O Moinho e a Cruz” é, inegavelmente, um belo filme, sofisticado na sua concepção, plasticamente irretocável. É um filme dirigido a um público pequeno, mas que certamente saberá apreciar a sua estética.
O Moinho e a Cruz
(The Mill and the Cross, Polônia , 2012)



































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Otimo filme