Alice Cooper costumava cantar: “Dead babies can’t take care of themselves”. Em “O Mistério de Grace”, o diretor estreante Paul Solet demonstra a que extremo uma mãe dedicada é capaz de chegar para cuidar de seu bebê morto.
Solet não começou no terror por razões econômicas. Ele realmente ama o gênero. Seus curtas, que antecederam “O Mistério de Grace”, ganharam festivais e reconhecimento entre publicações especializadas. E impressionaram os diretores Eli Roth (“Albergue”) e Adam Green (“Panico na Neve”). Este, inclusive, faz uma figuração e ajudou a produzir “O Mistério de Grace”. Roth, por sua vez, indicou a atriz Jordan Ladd, com quem trabalhou em “Cabana do Inferno” (2002). Ela é neta do lendário Alan Ladd (do clássico western “Os Brutos Também Amam”) e filha de Cheryl Ladd (da série “As Panteras”, dos anos 70).
Jordan estrela a produção independente como uma mulher obcecada. Após um acidente custar a vida de seu marido e do feto em seu útero, ela decide levar a gravidez adiante, optando por expelir o bebê morto em três semanas, no dia previsto para seu nascimento, em vez de cortá-lo fora de seu corpo. A grande surpresa é que, no parto, descobre-se que o bebê está vivo. Nem a ciência nem a parteira new age, vivida por Samantha Ferris (série “Supernatural”), conseguem explicar o milagre.
Mas não há nada de divino no nascimento, como a mãe logo irá descobrir, em sua primeira tentativa de alimentar o bebê. Leite materno não é exatamente sua bebida favorita.
A analogia entre bruxaria e o estilo de vida alternativo, holístico e vegetariano, decantado pela personagem de Ferris, é um dos achados do roteiro, que amplia a trama original do curta “Grace”, filmado pelo cineasta em 2006. Também não faltam moscas, em cenas de dar orgulho a David Cronenberg.
Bebês zumbis têm uma tradição própria no horror, mas “O Mistério de Grace” não segue uma fórmula genérica. Optando por climas sinistros e imagens chocantes, o filme causa mais desconforto que assusta. Sua primeira projeção, no Festival de Sundance em 2009, ganhou notoriedade porque duas pessoas passaram mal e precisaram ser retiradas do cinema. Mesmo assim, quem reduz terror a assassinos mascarados poderá até achar a produção tediosa, porque a trama não visa disparar o coração e fazer gritar.
“O Mistério de Grace” não possui serial killers, fantasmas, sustos gratuítos, possessões demoníacas ou outros clichês do horror recente, e se desenvolve como um drama, em ritmo lento, como outras flores do mal-estar atual – “Audition” (1999) e “Possuídos” (2006) – e na tradição das obras claustrofóbicas de Polanski e anatomicamente incorretas de Cronenberg. A lembrança de “O Bebê de Rosemary” é evocada desde os instantes iniciais, mas não demora para a gestação da trama se tornar visceral e gosmenta, ao estilo biológico de David Cronenberg, que, por sinal, também filmou gravidez bizarra (“Os Filhos do Medo”, 1979).
Um filme perfeito para o dia das mães.
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O Mistério de Grace
(Grace, EUA, 2009)
Lançamento em DVD



































