O Livro de Eli traz um índice de referências a cowboys e samurais

Não há nada de verdadeiramente novo em “O Livro de Eli”, mas o filme surpreende pelo modo como revisita essa modalidade tão surrada de aventura fantástica pós-apocalíptica. Como em “Mad Max”, a civilização foi destruída por uma guerra nuclear e a humanidade restante sobrevive das sobras que ficaram do tempo antigo.

Os desertos sem lei ficam bem parecidos com os do Velho Oeste, onde cidades se formavam ao redor de bares e pistoleiros. Numa delas aparece Denzel Washington, interpretando um andarilho tão misterioso e rápido no gatilho quanto “O Estranho sem Nome” daquele faroeste místico dirigido por Clint Eastwood em 1973.

Ele também remete à figura clássica do samurai, em que a técnica de combate se acha em geral a serviço de uma ética inabalável. Sua meta é proteger um determinado livro que ele e o vilão da história vivido por Gary Oldman consideram sagrado. Aí a referência é o clássico “Farenheit 451” (1966), de François Truffaut.

Antes da metade do filme, já se sabe que o “O Livro de Eli” é a bíblia, a última que resta no mundo. A própria guerra que trouxera o apocalipse teria acontecido em função dela e, assim, o protagonista e o antagonista a disputam por motivos opostos. O bandido quer usá-la para melhor oprimir os fracos, enquanto o mocinho acredita em seu poder de redenção. Esse é de fato o conflito central do filme e, afinal, também a sua mensagem.

Porém, o ponto fraco deste paladino (todos eles precisam de um) permanece escondido dos espectadores e dos outros personagens até as cenas finais, onde reside a grande surpresa da história.

Um especialista contou 26 filmes de samurais que apresentam o mesmo handicap do nosso guerreiro, ainda que o mais conhecido atualmente seja “Zaitochi” (2003). Mas, ao contrário do que acontece nos filmes de Takeshi Kitano, quase não se vê sangue nas inúmeras batalhas em que Eli se envolve. Os gêmeos Hughes, que dirigem o filme, reduzem as cores a uma paleta quase monocromática e muitas cenas de luta são mostradas em contra-luz, apenas em silueta.

É evidente, aliás, o fascínio das histórias em quadrinhos sobre os irmãos Huhges, que realizaram este ensaio pós-apolíptico depois de “Do Inferno”, uma adaptação da graphic novel de Alan Moore desenhada em branco e preto. Mas estes afro-descendentes gêmeos, nascidos em Detroit em 1972, ainda não sedimentaram um estilo que os caracterize, como é o caso dos irmãos Coen, de Mineápolis, e dos Taviani, de Pisa.

Imagem de Amostra do You Tube
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O Livro de Eli

(The Book of Eli, EUA, 2010)

Lançamento em DVD e Blu-ray

 ★★★☆☆ 

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+ Luciano Ramos

Luciano Ramos é escritor, crítico de cinema e professor dos cursos de pós-graduação da FAAP. Escreveu as minisséries "Avenida Paulista" e "Moinhos de Vento", além da novela "Champanhe" da Rede Globo, dirigiu o Departamento de cinema da Rede Bandeirantes, editou o “Guia de Filmes e Vídeo" da Editora Nova Cultural, é autor do livro “Os Melhores Filmes Novos” (Editora Contexto, 2009) e apresenta o programa Cinema Falado na Rádio USP.

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