Nesta semana, a mídia, o público, enfim, o mundo não falará de outra coisa: a conclusão do seriado “Lost”. Cuja história se iniciou antes daquele distante 22 de setembro de 2004. Em julho daquele mesmo ano, os produtores Damon Lindelof e Bryan Burk, o roteirista Paul Dini, e os atores Matthew Fox, Dominic Monaghan e Evangeline Lilly enfrentaram uma horda de nerds na convenção pop Comic-Con, em San Diego para apresentar uma prévia de “Pilot, Part 1?. A partir daquele momento, o “hype” que cerca o produto se tornou parte fundamental de seu sucesso. Mas faz-se necessário agora tirar esse verniz publicitário e pesar na balança o que “Lost” deixou para trás.
Em 2004 não existia YouTube. A coisa mais próxima de uma campanha viral que conhecíamos foi o site de “A Bruxa de Blair”. Conceitos pop como “Star Wars” e “Matrix” já estavam avançados no assunto universo expandido, e também não era inédito o lance da narrativa audiovisual não-linear, pois o cinema já brincava com isso há tempos. No entanto, “Lost” inegavelmente levou tudo isso a um novo patamar.
O programa de TV sozinho já deixou sua marca na história da dramaturgia televisiva pela ousadia com que explorou as possibilidades de uma história seriada. A montagem não-linear, uma de suas marcas registradas, confirma e desmente constantemente as expectativas do público acerca de determinado personagem ou informação, além de puxar com frequência as âncoras que o espectador havia formado sobre aquele ponto alcançado pela história. Faz um jogo sensorial assumido ao arremessar a trama para outro lugar, outra época, outro contexto, e deixa que o receptor ligue os pontos ele mesmo, à medida que novas pistas vão surgindo na tela.
Essa característica puxa outra igualmente marcante: a necessidade que planta em seu público de não apenas meramente acompanhar todos os episódios, visto que cada um joga novas peças no quebra-cabeça, mas também de praticamente exigir que tal público atrele fatos recentes a informações muito sutis de temporadas passadas, traçando assim conjecturas para possíveis futuros. Em suma, ao longo de seis anos “Lost” ajudou a formar um novo perfil de público na TV, que lembra bastante – embora não seja exatamente o mesmo – o público dos quadrinhos de super-heróis. A plateia da série entende que é parte da curtição debater e destrinchar a cronologia do universo ficcional. A relatividade do espaço-tempo foi praticamente o protagonista de “Lost”.
“Lost” também não pode ser considerado o pioneiro do alternate reality game (ARG), mas certamente teve papel considerável para consolidar o conceito na cultura pop. Os ARGs do programa, “The Lost Experience”, “Find 815? e “Dharma Initiative Recruiting Project”, estenderam a história do programa com novas pistas sobre a companhia Oceanic, a Iniciativa Dharma e a Fundação Hanso. Apesar de ter sido acompanhado mais pelos fãs hardcore, os jogos foram importantes para complexificar de propósito ainda mais a trama, tornando-a uma ficção rica que sem dúvida não acaba quando o episódio da semana sobe os créditos.
Ainda podemos definir a importância de “Lost” por ser um dos representantes mais legítimos de um novo momento midiático. A televisão como a conhecemos – aquela em que ligamos o aparelho para assistimos a um programa que passa toda semana no mesmo horário – está morrendo. Os canais, abertos e fechados, estão perdendo audiência progressivamente porque a internet e a TV digital estão e estarão trazendo novos hábitos nos próximos anos.
Somos muito ocupados para estarmos em casa na hora do programa, daí o gravamos no TiVo, procuramos no YouTube, baixamos horas depois que foi exibido nos EUA já com as legendas bem traduzidas pelos fãs. Somado ao hype emergencial que o programa cria com seus mistérios, o resultado é que a audiência de “Lost” sempre foi mais significativa na web, tornando-a uma campeã de downloads. E os executivos certamente estão coçando a cabeça para se adaptarem a essa nova realidade.
A essa altura, pouco importa se a origem de Jacob e do seu irmão sem nome foi decepcionante, se nem todos os mistérios serão resolvidos ou se Kate vai terminar com Jack, Sawyer ou, sei lá, Hurley (vai que, né?). Se você assiste ao programa e se identificou com esses aspectos ao redor do seriado descritos aqui, já era. Assim como os sobreviventes do voo 815 da Oceanic, você estará perdido por um bom tempo nessa ilha misteriosa chamada indústria do entretenimento. E mal pode esperar que outro sujeito do naipe de J.J. Abrams, Carlton Cuse ou Damon Lindelof – a geração mais recente de uma linhagem de espertos sonhadores que vem de Gene Roddenberry e Rod Serling a Chris Carter – ponha no ar uma nova maluquice dessas.































