O Legado Bourne desanda na mesma velocidade de sua edição

Há dez atrás, Doug Liman surpreendeu público e crítica com “A Identidade Bourne” (2002), um filme de ação limpo, inteligente e sem a pirotecnia que viria a ser o maior câncer do gênero nos tempos atuais. O filme rendeu duas sequências dirigidas por Paul Greengrass, que fizeram ainda mais sucesso, mas adotaram outra gramática visual, propagando uma estética de fotografia pesada, cheia de zooms e tremedeiras intencionais, e de uma edição frenética, que virou moda – ainda assim, o saldo era positivo.

Depois que Greengrass abandonou o barco e Matt Damon, astro maior da saga, se foi com ele, era só uma questão de tempo para o estúdio arrumar uma maneira de prosseguir com o projeto de uma continuação, e ela veio na forma de “O Legado Bourne”.

Tony Gilroy, roteirista de todos os episódios anteriores, foi incumbido de assumir a direção. Mas Gilroy, assim como Liman no primeiro filme, tem uma visão muito mais paciente do que seria um filme de espionagem. À exemplo de seu maravilhoso “Conduta de Risco” (2007), e do imperfeito porém divertido “Duplicidade” (2009), ele toma bastante tempo para situar personagens, desenvolver suas tramas e estabelecer os parâmetros para a ação.

O problema é que neste “Legado”, nenhum personagem ou trama é interessante ou complexo o suficiente para jusitificar as duas horas de duração.

A história acompanha outra ponta do projeto responsável pelo recrutamento, treinamento, e eventual caçada à Jason Bourne. Quando o governo começa a queimar arquivo, eliminando os agentes treinados, um perdido Jeremy Renner (“Os Vingadores”) sai à caça de respostas junto com a médica, interpretada por Rachel Weisz (“O Jardineiro Fiel”). Só que o filme desanda na mesma velocidade que sua insuportável edição.

Fica claro que Gilroy não sabe orquestrar cenas de ação desenfreada, perdendo-se em seu próprio texto ao tentar emular o estilo documental de Greengrass – uma câmera muito mais nervosa que nos outros dois filmes que dirigiu. O final, vergonhoso gancho para uma possível sequencia, é quase corajoso por ser tão anticlimático. Mas depois de sacudir a câmera por duas horas com informações aleatórias, nada mais importa de verdade.

Imagem de Amostra do You Tube
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O Legado Bourne

(The Bourne Legacy, EUA, 2012)

Lançamento em DVD e Blu-ray

 ★★½☆☆ 

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+ Felipe André

Felipe André é cinéfilo profissional. Usa boa parte do seu tempo em salas de cinema e gasta a outra parte escrevendo sobre o que acabou de ver. Também é cineclubista e adora exibir filmes que ninguém viu, por isso tem uma quedinha pelo cinema independente de todas as partes do mundo. Atualmente reside em Recife, mais precisamente no cinema mais próximo. Leia também no Kinemail.

1 Comentário

  • EduardoNo Gravatar
    30 de setembro de 2012 | Permalink | Responder

    Gostei de ler seu ponto de vista. Fico “retado” quando vejo fazerem merda com filmes que poderiam ser muito bons. Sou de Petrolina e também vivo no cinema. Quanto tinha tempo estava analisando os filmes de D.W. Griffith.

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