MOSTRA O cinema argentino pode se gabar de brindar o mundo com filmes surpreendentes. Só esse ano, os excelentes “Medianeras”, “Um Conto Chinês” e “O Homem ao Lado” fizeram a alegria das plateias brasileiras. Se depender de “O Dedo”, primeiro longa de Sergio Teubal, vem aí mais um motivo para termos aquela “dorzinha de cotovelo” ao ver um filme hermano.
Até porque a história poderia, perfeitamente, se passar no Brasil. Não é difícil achar traços de nordeste na paisagem meio árida da cidadezinha em que transcorre a trama, ou de matuto nos intrépidos personagens.
Passada no começo dos anos 1980, época em que a Argentina atravessava a redemocratização, a história conta o caso de um povoado que, ao atingir a marca de 501 habitantes, ganha direito de virar município. Assim sendo, é necessário eleger um “intendente”, espécie de prefeito. Baldomero (Martín Seefeld), um motoqueiro com pinta de Raul Seixas, desponta como grande favorito do povo.
Mas Don Hidalgo (um brilhante Gabriel Goity) está lá pra mostrar que a Argentina também tem seus coronéis e, como “pai dos pobres” local, chama para si a alcunha de líder. Na confusão, Baldomero aparece assassinado. Eis que seu irmão, Florencio (Fabián Vena, com ares de Chicó) lhe corta o dedo e faz um juramento de vingança, no mínimo, inusitado.
O dedo, é claro, acaba virando um personagem por si só, como sugere o título, e será pivô de duelos, discussões, intrigas e até blasfêmia. Tudo num estilo que, do nada, faz lembrar os westerns de Sergio Leone (pelo cômico) e até John Ford (pelo trágico latente), surpreendendo pela originalidade.
A surpresa é ainda maior quando se descobre que a história é baseada em fatos reais, com direito inclusive aos personagens, já velhinhos, contando o curioso “causo”.
A direção, aliada às boas atuações, vai envolvendo o espectador na rotina do “pueblo” argentino de uma tal forma que, lá pelas tantas, mesmo sem saber o nome desta mulher ou daquele guri, já é possível conhecê-los como “a que vende roupas” ou o “filho da fulana”, o que dá ao filme a humanidade tão característica do cinema argentino.
Com sequências antológicas, diálogos sagazes e um fundo político que acaba servindo muito bem à atualidade (da Argentina, do Brasil ou de qualquer lugar onde a democracia ensaia passos mais largos), “O Dedo” é mais um bem vindo sinal da vivacidade do cinema Argentino.
































1 Comentário
Dorzinha de cotovelo… não precisamos, o nosso cinema também é rico!