O cinema sem fim de Abbas Kiarostami

CANNES Ambientado no Japão, “Like Someone in Love” mostra que o iraniano Abbas Kiarostami vem buscando refúgio em outros países para realizar seus filmes, já que a situação política em sua terra natal está cada vez mais opressora. Depois de passar pela Itália com “Cópia Fiel” (2010), o cineasta filmou uma história inteiramente falada em japonês sobre as relações entre um professor idoso, uma garota de programa e seu namorado. E como é de praxe em seus filmes, “Like Someone in Love” foge às convenções cinematográficas ao ignorar um começo e um fim para seu enredo – dividindo a opinião da crítica em elogios calorosos e vaias sonoras.

“Meu filme não começa nem termina e percebi que é isso o que acontece na vida também”, explicou o diretor durante a entrevista coletiva realizada na segunda-feira (21/5). “Acho que o espectador pode adivinhar o que acontece no início e no final”, continuou, não dando muita atenção às críticas sobre o formato ousado. Uma jornalista chegou a comentar ter achado o longa “iraniano demais”, o que foi prontamente rebatido pelo cineasta, com bom humor, ao dizer que nem mesmo ele entende produções “iranianos ou persas demais”.

“Acho que quando você quer fazer um filme para um público internacional, tem de pensar internacionalmente”, contou. De fato, o cineasta levou isso a sério, dando um título em inglês, “Like Someone in Love” (nome de uma música de Ella Fitzgerald) e levando a ambientação ao Japão – com diálogos falados em japonês. Para o elenco, escalou a jovem Rin Takanashi e o veterano Tadashi Okuno – frequentes em trabalhos televisivos no país – e o ator Ryo Kase (de “Cartas de Iwo Jima” e “Inquietos”).

Filmar no país mostrou-se mais surpreendente comum e simples do que Kiarostami imaginava. “Sempre pensei no Japão e nos japoneses como um país e um povo muito distantes de mim”, ele comentou, sobre a cultura e costumes idiossincráticos nipônicos. “Mas percebi que os seres humanos são todos iguais, apesar de suas diferenças. Estou profundamente convencido de que todos nós compartilhamos a mesma condição humana”, refletiu.

A sensação de surpresa também nasceu em Tadashi Okuno, que interpreta um solitário professor que tem sua vida mudada quando começa a se relacionar com uma jovem. Aos 82 anos, o ator jamais havia saído do Japão e confessou que não conhecia Kiarostami. “Quando contei aos meus amigos que tinha conseguido o papel, eles me disseram que ele era um cineasta mestre e eu descobri isso nas filmagens”, elogiou.

Okuno também achou interessante a forma de trabalho do diretor, que não enviou ao ator o roteiro completo. “Foi a primeira vez que isso aconteceu comigo. Ele disse que tínhamos de ser nós mesmos, não queria personagens artificiais”, contou. “Para mim, foi bom, porque não sei interpretar bem”, confessou em tom de brincadeira.

O longa anterior de Kiarostami, “Cópia Fiel”, rendeu a Juliette Binoche o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cannes em 2010. Esse ano, enquanto alguns críticos ficaram incomodados com o final extremamente abrupto, outros apostaram que é justamente essa ousadia que pode colocar “Like Someone in Love” como um dos favoritos à Palma de Ouro – prêmio pelo qual o cineasta concorre pela quinta vez, e venceu em 1997 por “Gosto de Cereja”.

O Festival de Cannes anuncia seus premiados no domingo (27/5).

+ Leonardo Vinicius Jorge

Leonardo Vinícius Jorge é jornalista, crítico de cinema e autor do livro “12 de Setembro: O Cinema Hollywoodiano Após os Atentados Terroristas que Mudaram o Mundo”.

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