O cineasta russo que desafiou Stalin

MOSTRA Fazer arte em geral e filmes em particular durante períodos de totalitarismo é um dos principais modos de resistência possíveis num regime político fechado – que o confirme o neorrealismo italiano, surgido nos escombros do fascismo. O cinema do russo Aleksei German só existe porque o próprio realizador ousou desafiar o regime comunista de Joseph Stálin (1878-1953). Sintomaticamente, é na Mostra de Cinema de São Paulo, que também enfrentou embates com a ditadura militar nos anos 1970, que German ganha uma retrospectiva completa de sua obra.

Obra esta não tão vasta. São apenas cinco longas-metragens, realizados entre 1967 e 1997. Os primeiros sofreram censuras pesadas, especialmente “Provação nas Estradas” (1971), banido da então União Soviética e lançado apenas 15 anos depois, tendo sido considerado “antipatriótico”. Em cena, o enredo mostra um antigo sargento russo prisioneiro nos campos alemães na 2ª Guerra e que aceita colaborar com os nazistas.

Khrustalyov, Meu Carro!

“Quando ele atingiu seu próprio estilo, os departamentos oficiais responsáveis por supervisionar a ideologia dos filmes na URSS não gostaram da forma de German pensar, falar e retratar a vida”, aponta o cineasta e historiador Aleksandr Pozdniakov, que esteve em São Paulo para apresentar, na programação da Mostra, o documentário “German – Do Outro Lado da Câmera”, que registra diversas entrevistas feitas com o cineasta.

“Seus filmes falam da 2ª Guerra e são importantes para a história soviética. A guerra foi um símbolo para testar a atitude moral e ética das pessoas, e German mostrou o conflito interno das pessoas envolvidas naquela situação”, diz Pozdniakov.

Vinte Dias sem Guerra

Ele defende que, apesar de poucos numericamente, os filmes de German formam um mosaico de todas as principais situações que se abateram sobre a Rússia no século passado. “Da revolução de 1917 à depressão, a guerra, a morte de Stálin. Ele fez um panorama da vida soviética. Você pode pesquisar como as pessoas viviam naquele época pelos filmes de German”, diz o historiador.

Esteticamente, Aleksei German (que, aos 73 anos, não veio à Mostra por estar se recuperando de um problema de saúde) se caracteriza por filmes em preto e branco, atores não profissionais, uma cuidadosa recriação de época e, principalmente, o tom ora tresloucado das situações apresentadas. É a forma de ele ser crítico mordaz, fazendo ironia e entendendo que, para abordar seus temas, ele precisa se permitir liberdade.

Provação nas Estradas

Neste sentido, o longa “Khrustalyov, Meu Carro!” (1997) apresenta um tipo de súmula do estilo de German. Ao narrar acontecimentos relativos à perseguição de médicos judeus por parte do regime stalinista, German faz um tipo de recriação da própria derrocada do ditador.

“Numa grande vontade de provocar algum tipo de mudança, os filmes de German foram muito importantes para a história da Rússia”, conclui Pozdniakov.

German – Do Outro Lado da Câmera

+ Marcelo Miranda

Marcelo Miranda é crítico de cinema do jornal O Tempo, de Belo Horizonte, foi curador do Festival de Brasília 2010 e é colunista da revista eletrônica Filmes Polvo. Você pode acompanhar suas matérias também no blog do Polvo.

1 Comentário

  • Renata Identicon Icon Renata
    17 de setembro de 2012 | Permalink | Responder

    Onde posso comprar esse documentário sobre o German? Não acho em lugar algum!
    Abs!

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