O Artista prova que Chaplin tinha razão ao defender o cinema mudo

O filme “O Artista” e seu astro Jean Dujardin saíram consagrados do Oscar 2011. Curioso é o fato de o filme ser francês, ainda que se passe em Hollywood, no final da década de 1930, época em que os filmes falados começavam a conquistar o espaço do cinema mudo. Como não há diálogos, o ator que mal fala inglês conquistou a maior honra do cinema americano. E este é um dos encantos do filme, apontando para uma linguagem cinematográfica universal.

O personagem dE Dujardin, o artista do título, é um astro do cinema mudo que não se adapta às mudanças e que foi construído como uma alegoria, ou seja, a partir de traços de personalidade de diversas pessoas reais: um pouco de Charles Chaplin, Douglas Fairbanks, Fred Astaire e Rodolfo Valentino.

Uma personalidade inspirada nesses figurões só poderia desenvolver um ego especialmente hipertrofiado de modo que, por orgulho e excesso de confiança, não admite a queda e não aceita ajuda de ninguém. Nem da estrelinha vivida pela franco-argentina Bérénice Bejo, que o ama em segredo, enquanto se transforma numa celebridade dos talkies.

Não se trata, portanto, de um ensaio histórico sobre aquele período e sim de uma trama alegórica sobre a soberba e a vaidade. O fato de “O Artista” ser mudo e em branco e preto é um destaque a mais para a atuação de Dujardin, a música de Ludovic Bource e a direção de Michel Hazanavicious, todos premiados no Oscar, de onde o filme saiu com cinco estatuetas.

É impressionante como a comédia se transmuta em drama e depois retorna ao veio original, garantindo uma narrativa absolutamente clara e rica em pormenores culturais, técnicos e psicológicos, mesmo com um mínimo de letreiros. Uma prova de que Charles Chaplin estava correto quando ponderou que a estética do filme mudo ainda não tinha esgotado todas as suas possibilidades, quando foi interrompida em sua evolução pelo advento do som. E assim como fez o personagem vivido por Dujardin, Chaplin produziu “Luzes da Cidade” (1931) e “Tempos Modernos” (1936), em plena era do cinema falado.

A surpresa maior de todas, entretanto, é o próprio diretor Hazanavicious que, antes desta experiência notável, fizera com o próprio Dujardin os sofríveis filmes do “Agente 117”, uma paródia infeliz de James Bond. Em “O Artista” ele realiza uma inesperada obra-prima.

Imagem de Amostra do You Tube


O Artista

(The Artist, França, 2011)

Lançamento em DVD e Blu-ray

 ★★★★★ 

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+ Luciano Ramos

Luciano Ramos é escritor, crítico de cinema e professor dos cursos de pós-graduação da FAAP. Escreveu as minisséries "Avenida Paulista" e "Moinhos de Vento", além da novela "Champanhe" da Rede Globo, dirigiu o Departamento de cinema da Rede Bandeirantes, editou o “Guia de Filmes e Vídeo" da Editora Nova Cultural, é autor do livro “Os Melhores Filmes Novos” (Editora Contexto, 2009) e apresenta o programa Cinema Falado na Rádio USP.

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