Novo Planeta dos Macacos é espetáculo digital emocionante

Não são macacos, mas símios que protagonizam “O Planeta dos Macacos – A Origem”. É o que, aliás, um dos personagens sublinha para o próprio protagonista, no princípio do filme. Essa questão extra-cinematográfica de terminologia aponta justamente para o esquema ficcional criado para atribuir plausibilidade à trama. Há uma busca constante por realismo, que enfatiza o aspecto científico desta ficção científica, e que conta com tecnologia de ponta para se tornar crível.

Os símios são, na realidade, os primatas fisiologicamente mais próximos aos humanos. E, provavelmente, os melhores candidatos a sofrerem uma mutação que os permita desenvolver cultura. Por isso é aceitável para o público de cinema que um símio aprenda a se comportar como um ser humano e a incorporar todas as suas contradições como, por exemplo, a capacidade de amar e de odiar ou o dom de viver em sociedade, além de desenvolver conflitos de classe, raça e religião.

No entanto, neste filme, Cesar ? o primeiro chimpanzé a adquirir uma inteligência equivalente à humana ? não deixa de ser visto e tratado como um animal. De fato, as normas culturais aprendidas com a linguagem não anulam, mas se somam ao seu instinto natural. E por isso ele se revolta furiosamente contra aqueles que o protegem e alimentam, mas que também o prendem com coleiras, escondem-no no sótão e o obrigam a viajar no bagageiro do automóvel.

Uma das cenas mais carregadas de significado mostra a primeira vez que Cesar se defronta com um cão preso a uma coleira. O pastor alemão não para de latir para ele, tentando intimidá-lo, como faria com qualquer bicho. Mas, após alguns instantes de surpresa, Cesar toma uma decisão, faz uma careta e solta um rugido que leva o cachorro a colocar o rabo entre as pernas assustado. Do mesmo modo como faria um ator, ele tinha interpretado o personagem de macaco selvagem, revelando-se capaz de desempenhar outros papéis sociais além do “símio de laboratório”.

Acidentalmente, portanto, um gênero meramente literário se defronta neste filme com um gênero biológico. Mediando-os está a tecnologia, que recentemente permitiu a geração de seres vivos transgênicos ou que teria dado origem a uma epidemia mundial, tal como vemos atualmente com a AIDS – que, aliás, aparece metaforizada no roteiro.

Em termos de espetáculo, “O Planeta dos Macacos: A Origem” pode também ser considerado transgênico porque realiza a integração final entre duas linguagens: o cinema e a computação gráfica. Diferentemente dos seis episódios anteriores da série, o herói antropóide e seus companheiros não são interpretados por atores vestindo máscaras simiescas, mas a produção usa a técnica chamada “captura de performance”, em que a figura do ator depois de filmada é trabalhada digitalmente. Esse recurso já foi usado antes, em filmes como “Avatar” (2009), “King Kong” (2005) e na trilogia “Senhor dos Anéis” (2001-2003). Mas esta foi a primeira vez em que se realizou a captura no mesmo set de filmagem, junto com os demais atores.

A par dessa novidade tecnológica que nos coloca no meio da ação, o filme se destaca ainda pela qualidade do roteiro que nos leva a acompanhar os acontecimentos pelo ponto de vista dos primatas.

A trama mostra o começo de tudo o que já vimos nos demais exemplares da série, quando o primeiro símio inteligente é criado em laboratório, educado por uma família humana (como um Tarzan às avessas) e, em seguida, se revolta para liderar sua espécie no enfrentamento aos humanos.

James Franco está bem em seu papel de cientista que luta contra o mal de Alzheimer e provoca toda essa alteração num chipanzé, cuja mãe lhe servira de cobaia em seu laboratório antes de morrer. Adota-o como filho e, mais tarde, quando ele se recusa a voltar pra casa, não vemos duas espécies, mas duas gerações em conflito.

Porém, o que impressiona mesmo é a sofisticada atuação do inglês Andy Serkis, que já fez o papel de King Kong e que só tem o gestual e a expressão dos olhos para construir um personagem que é tão complexo quanto os melhores papéis do teatro. Ele confere emoção e humaniza um filme que poderia chamar atenção apenas pelos efeitos visuais, mas que se prova mais que isso.

Imagem de Amostra do You Tube


Planeta dos Macacos – A Origem

(Rise of the Planet of the Apes, EUA, 2010)

Lançamento em DVD e Blu-ray

 ★★★½☆ 

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+ Luciano Ramos

Luciano Ramos é escritor, crítico de cinema e professor dos cursos de pós-graduação da FAAP. Escreveu as minisséries "Avenida Paulista" e "Moinhos de Vento", além da novela "Champanhe" da Rede Globo, dirigiu o Departamento de cinema da Rede Bandeirantes, editou o “Guia de Filmes e Vídeo" da Editora Nova Cultural, é autor do livro “Os Melhores Filmes Novos” (Editora Contexto, 2009) e apresenta o programa Cinema Falado na Rádio USP.

3 Comentários

  • mariaNo Gravatar
    23 de março de 2012 | Permalink | Responder

    este filme fala sobre a natureza

  • Felipe LopeezNo Gravatar
    29 de agosto de 2011 | Permalink | Responder

    Assisti o filme neste ultimo domingo 28/08 e não imaginava que terminaria a minha semana assim tão bem, um ótimo filme por todos os motivos, tem história, enredo, os efeitos são perfeitos e na dose certa, realmente um filme para se ver varias vezes, e para todos os tipos de pessoas. Esse fim de semana fui com os meus amigos, muitos não tinham visto os primeiros filmes, e agora que viram este já estão loucos p/ assistir os antigos, por outro lado minha mãe quer muito que eu a leve p/ ver pois como viu os primeiros e adorou, quer muito ver essa nova história e é claro que como bom filho que sou vou levá-la p/ ver. ( e não pq quero ver de novo e ela que vai pagar mesmo…rsrssrr)

    • Pipoca ModernaNo Gravatar
      29 de agosto de 2011 | Permalink | Responder

      Realmente, Felipe, um dos melhores filmes da temporada de blockbusters.

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