Nos bastidores de Protegendo o Inimigo

Os vikings invadiram Hollywood. Recentemente, o dinamarquês Nicolas Winding Refn arrancou elogios pelo estiloso “Drive”, o islandês Baltasar Kormákur criou tensão com “Contrabando” e o sueco Tomas Alfredson trouxe um clima gélido para a Guerra Fria de “O Espião Que Sabia Demais”. Agora é a vez de Daniel Espinosa, outro sueco, estrear numa produção americana, “Protegendo o Inimigo” (Safe House).

O sucesso de seu thriller policial “Snabba Cash” lhe garantiu o passaporte para ir até os Estados Unidos convidar os astros Denzel Washington e Ryan Reynolds para um típico thriller de ação, repleto de lutas, tiroteios e perseguições – a pé ou automobilísticas.

Espinosa garante, no entanto, que sua imigração para o cinema americano se deve mais à possibilidade de dirigir grandes atores do que pelo acesso a todo o maquinário hollywoodiano. “Ser capaz de sentar e criar uma cena com Denzel e Ryan é uma experiência que eu jamais teria na Suécia”, explicou, durante uma entrevista coletiva.

Ir aos EUA, na verdade, é quase uma força de expressão, já que grande parte das cenas de “Protegendo o Inimigo” foi filmada na África do Sul – um país familiar ao diretor, que cresceu em diferentes regiões do continente africano. A história se passa em Joanesburgo, onde o agente da CIA Matt Weston (Reynolds) vive entediado numa base secreta americana. Sua rotina e suas convicções morais são chacoalhadas quando ele recebe a missão de proteger – e impedir que fuja – o ex-agente e criminoso Tobin Frost (Washington).

Frost está de posse de informações tão importantes que ele virou alvo de um grupo de mercenários dispostos a tudo para eliminá-lo. O problema é que esse espião desertor é tão perigoso quanto os sujeitos que o estão caçando. “Tobin é um assassino, ele é um mentiroso, um sociopata. Acho que ele ficou isolado tanto tempo que ele não tem mais sentimentos, ele só quer vencer”, definiu Washington, que também é produtor-executivo do longa.

O ator não está brincando quando quis deixar claro que seu personagem é um verdadeiro vilão. Durante a preparação para o papel, Washington nem se preocupou tanto em estudar sobre espionagem, e voltou toda a sua pesquisa sobre sociopatas – e descobriu informações interessantes. “Eu pensava que a maioria dos sociopatas eram violentos, o que não é verdade”, revelou o ator. “Acredita-se que uma em cada 25 pessoas sejam sociopatas, mas apenas dois ou três em 25 são violentos. Mas quase todos só querem ganhar, não importa o quê.”

No caso de Tobin, o objetivo é escapar ileso tanto do grupo paramilitar que o persegue quanto do agente da CIA que tem sua custódia. Quem mais vai sofrer com isso é o personagem de Reynolds, que terá muita dor de cabeça com os jogos psicológicos entre os dois. “Eu comparo (o filme) a ‘O Silêncio dos Inocentes’, pois esse garoto está tentando entrar na minha cabeça e eu na dele. Até o ponto em que ele não sabe mais o que está pensando”, teorizou Washington.

Reynolds, que alterna as típicas comédias românticas (“A Proposta”) com produções interessantes (“Enterrado Vivo”) e bombas detestáveis (“Lanterna Verde”) não esconde que o que mais o atraiu para “Protegendo o Inimigo” foi a oportunidade de contracenar com o ídolo duas vezes vencedor do Oscar. “Essa é uma das razões, obviamente. A chance de trabalhar com quem eu acho que é o maior ator de Hollywood atualmente”, tietou o galã.

A interação entre os dois, por sinal, foi bem além das disputas mentais e também envolveu cenas de lutas. “Cara, eu assisti a ‘Hurricane: O Furacão’”, brincou Reynolds, lembrando-se do filme no qual Washington interpretava um boxeador. As filmagens foram tão intensas que Reynolds acabou acertando uma cabeçada em Washington, atingindo o olho do ator. “Eu pensei: ‘Eu deixei Denzel Washington com um olho roxo… provavelmente é melhor eu ir para casa agora’”, gracejou novamente.

Espinosa disse que no momento do incidente, houve um silêncio no set. Segundos depois, Washington mostrou que estava tudo bem. “Ele é forte como um touro. Eu nunca havia considerado a idade como um fator, mas num certo momento eu me dei conta de que ele não é muito mais jovem do que meu pai e eu jamais pediria a meu pai para fazer as coisas que peço ao Denzel. Ele tem uma força que não é deste mundo”, surpreendeu-se o diretor.

De certa forma, Espinosa seguiu a mesma tendência adotada pelo conterrâneo Alfredson em “O Espião Que Sabia Demais” e procurou dar uma cara realista ao mundo da espionagem. No começo do filme, o agente interpretado por Reynolds vive uma vida pacata e não faz uso da parafernália tecnológica amada por James Bond. Para se aproximar ao máximo da realidade dos espiões responsáveis por uma “casa segura” (safe house, o título no original), o diretor consultou um agente aposentado que atuou no mundo inteiro.

A ideia era tirar dúvida sobre detalhes, como quais equipamentos são usados, que tipo de prédios eles utilizam como “casa segura” (uma espécie de esconderijo) e como eles fazem para se disfarçar na multidão. Espinosa afirmou, no entanto, que o mais importante era tentar entender como pensa um espião e como essa profissão cheia de mistérios afeta psicologicamente o indivíduo.

“Essas pessoas entram nesse ramo por razões éticas no início, mas há coisas que eles devem fazer pelo seu país que são antiéticas e que eles acabam fazendo por achar que é por um bem maior”, discursou o sueco sobre a questão da tortura, levemente mostrada no longa. “Algumas pessoas podem viver com isso, outras não. Para mim esse é o núcleo do filme”.

A discussão filosófica, no entanto, não é tão profunda assim, já que se trata de um filme de ação. “Protegendo o Inimigo”, na verdade, está mais para a “Trilogia Bourne” do que para “O Espião que Sabia Demais” e, sem enfrentar um ataque da crítica, que até gostou do filme, saiu-se bem nas bilheterias americanas, onde soma US$ 117 milhões.

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+ Leonardo Vinicius Jorge

Leonardo Vinícius Jorge é jornalista, crítico de cinema e autor do livro “12 de Setembro: O Cinema Hollywoodiano Após os Atentados Terroristas que Mudaram o Mundo”.

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