Morreu o produtor Norman Felton, que desenvolveu as séries clássicas “O Agente da U.N.C.L.E.” e “Dr. Kildare”. Ele faleceu de causas naturais em sua própria residência, aos 99 anos.
Norman Francis Felton nasceu em 29 de abril de 1913 em Londres, mas se mudou com sua modesta família para os EUA em 1929. Ele cresceu em Cleveland e teve diversos empregos até se formar em Artes Dramáticas na Universidade de Iowa, encorajado pelo prolífico ator Clancy Cooper (série “Lawman”), para quem ele escreveu algumas peças de teatro. Seu início de carreira foi marcado por peças teatrais comunitárias e programas de rádio da rede NBC. Na década de 1950, ele passou a dirigir programas de TV, como “Robert Montgomery Presents” da NBC, pelo qual foi indicado a um prêmio Emmy. Ele ainda serviu como produtor executivo do canal CBS, antes de ir para os estúdios MGM, em 1960.
Créditos de abertura de Dr. Kildare
No início dos anos 1960, Felton fundou sua própria produtora, a Arena Productions, associando-se à MGM para produzir uma das séries mais famosas da TV americana, o drama médico “Dr. Kildare”. Adaptada de uma série de filmes produzidos entre os anos 1930 e 1940 (a partir de “Young Dr. Kildare, em 1938), a série girava em torno do personagem título (interpretado por Richard Chamberlain), um jovem médico, ainda residente, que sempre contraria o conselho de seu chefe, o Dr. Leonard Gillespie (Raymond Massey), que lhe disse no primeiro episódio: “o trabalho de um médico é manter as pessoas vivas e não dizer-lhes como devem viver”.
“Eu queria fazer uma série médica, mas a ideia não agradava a NBC, onde questionavam ‘quem gosta de ir ao hospital?’ Então eu fiz e foi um piloto muito bem sucedido”, revelou Felton certa vez. “Dr. Kildare” foi, de fato, a primeira série médica de sucesso da TV, estreando na NBC em setembro de 1961, um mês antes de “Ben Casey” no canal rival ABC. O êxito de ambas é responsável pela longevidade das tramas hospitalares. Os médicos, claro, eram bem diferentes do Dr. House. E Kildare era jovem e bonito o suficiente para o público se identificar com sua visão romântica da Medicina, servindo de precursor direto de “Grey’s Anatomy”.
Dr. Kildare, com Richard Chamberlain
“Dr. Kildare” ficou no ar até 1966, em cinco temporadas de 190 episódios. O drama catapultou a carreira de Richard Chamberlain, transformando-o em símbolo sexual, cantor (gravou a trilha da série) e astro inclusive de cinema. Também inspirou a criação de uma novela com médicos lindos e seus dilemas cotidianos, a famosa “General Hospital”, exibida de 1963 até os dias de hoje, além de motivar a ambição em um ex-assistente de Felton, David Victor, que criou a sua própria versão do médico compassivo, “Marcus Welby Médico”, estrelada pelo veterano Robert Young e o então jovem James Brolin em 1969. Em suma, os médicos nunca mais abandonaram a televisão.
Com o fenômeno de “Dr. Kildare” estabelecido, Felton se dedicou a criar seu próximo projeto, que não se afastou muito da fórmula consagrada.
The Eleventh Hour, com Ralph Bellamy e Jack Ging
“The Eleventh Hour” surgiu em 1962 e também tratava da dinâmica entre um jovem doutor e seu mentor. A diferença é que a especialidade dos personagens era a psicologia. Jack Ging no papel do jovem Dr. Paul Graham, tinha como mentores Wendell Corey e, na temporada final, Ralph Bellamy. Enquanto a 1ª temporada acompanhava casos criminais, levando os médicos aos tribunais, a 2ª passou a acompanhar os protagonistas em seus consultórios. A série também compartilhou uma trama com a outra produção de Felton, o “Dr. Kildare”, criando um dos primeiros crossovers da história televisiva.
Em 1963, ele produziu outro drama pioneiro. Criado por Gene Roddenberry, futuro autor de “Jornada nas Estrelas” (Star Trek), o drama “The Lieutenant” abordava a vida dos marines numa base militar americana durante a Guerra Fria. A série deu o que falar e teve inclusive um episódio nunca exibido devido ao conteúdo polêmico – trazia Nichelle Williams (a Tenente Uhura, de “Jornada nas Estrelas”) e seu namorado fuzileiro sofrendo racismo. O tema patriótico, entretanto, logo se tornou datado com as controvérsias criadas pelo envolvimento militar americano na Guerra do Vietnã, e a série acabou cancelada no ano seguinte.
The Lieutenant, com Gary Lockwood
Felton, porém, já estava trabalhando em novo projeto. Desta vez uma série de espionagem, que tinha como título provisório “Ian Fleming’s Solo”, adaptação de um personagem introduzido no filme “007 Contra Goldfinger” (1964). Para desenvolver a trama, ele foi se encontrar na Inglaterra com Ian Fleming, criador da franquia “007”, que o ajudou na construção do protagonista Napoleon Solo. De volta aos EUA, começou a escrever o roteiro do episódio piloto em parceria com o roteirista Sam Rolfe.
O Agente da U.N.C.L.E., com Robert Vaughn e David McCallum
Para evitar um possível processo de Albert Broccoli, na época produtor dos filmes de James Bond, que mantinha contrato com Fleming, Rolfe adaptou o conceito original, mudando as referências, no que resultou em “O Agente da U.N.C.L.E.” (The Man from U.N.C.L.E.).
O produtor lembrou do ator problemático, que aparecia em seu escritório durante as filmagens da série “The Lieutenent” para lembrar que tinha estrelado o sucesso “Sete Homens e um Destino” (The Magnificent Seven, 1960) e sido indicado ao Oscar por “O Moço de Filadélfia” (The Young Philadelphians, 1959), mas tinha cada vez menos textos e perdia espaço no drama para o então iniciante Gary Lockwood (que depois seria um dos astronautas de “2001 – Uma Odisséia no Espaço”). A postura arrogante era exatamente o que ele tinha em mente para o papel de Napoleon Solo. O ator Robert Vaughn teria então sua vontade satisfeita, assumindo o papel principal.
O Agente da U.N.C.L.E., com Robert Vaughn
Na série, o agente americano Napoleon Solo (Vaughn) e o russo Illa Kuryakin (David McCallum) viviam às voltas com suas missões da U.N.C.L.E., sigla para a agência de espionagem United Network Command for Law and Enforcement (ou tio, em português), cuja sede secreta ficava nos fundos de uma lavanderia nova-iorquina. Os inimigos da U.N.C.L.E. eram os agentes da T.H.R.U.S.H. (ou uma infecção vaginal conhecida como candidíase, em português), e a dinâmica da trama costumava trazer o envolvimento dos agentes com um cidadão comum, que os auxiliava na resolução de um caso.
“O Agente da U.N.C.L.E.” foi ao ar em preto & branco no ano de 1964 pela NBC, e teve enorme impacto entre o público e a crítica – foi premiada com o Globo de Ouro de Melhor Série e indicada a 16 prêmios Emmy. Felton estava tão orgulhoso do produto que fez uma rara aparição nas telas, como um jogador de xadrez numa cena passada em meio a uma festa, durante a 1ª temporada. O clima da Guerra Fria, a trilha mod genial de Jerry Goldsmith, as minissaias das coadjuvantes e o corte de cabelo beatlemaníaco de McCallum transformaram a produção num grande signo da década de 1960.
O Agente da U.N.C.L.E., com David McCallum e Nancy Sinatra
Já no ano seguinte, os episódios passaram a ser exibidos em cores. Mas, a partir de 1966, a produção teve seu teor cômico aumentado, influenciada pelo sucesso da série “Batman”. No entanto, a mudança reduziu a audiência da série e sua credibilidade junto ao público. Também em 1966, o spin-off “A Garota da U.N.C.L.E.” foi ao ar, estrelado pela bela Stefanie Powers (futura cara metade do “Casal 20″), no papel de uma agente cujo nome também é creditado a Ian Fleming (e é típico das Bond Girls): April Dancer (dançarina de abril). Durou só uma temporada.
A franquia rendeu ainda livros, quadrinhos e brinquedos. E até filmes, simultaneamente à exibição da série na TV. Os filmes, na verdade, juntavam a trama de episódios especiais, concebidos em duas partes, que chegavam aos cinemas acrescidos por cenas extras e picantes, filmadas especialmente para um público mais adulto, com o objetivo de ecoar mais de perto as produções de 007.
David McCallum e Robert Vaughn com o Globo de Ouro de Melhor Série
Entre os momentos históricos está produção está o primeiro encontro da carreira dos atores William Shatner e Leonard Nimoy, os futuros Capitão Kirk e Sr. Spock de “Jornada nas Estrelas”, num episódio de 1964. Barbara Feldon também foi uma gente secreta na série, um ano antes de dar vida à agente 99, em “O Agente 86″. Yvonne Craig, que já tinha contracenado com Elvis Presley no cinema, apareceu duas vezes na série e virou sex symbol por cenas extras sensuais de um dos longas derivados do programa, em 1966. Um ano depois, ela viraria Batgirl na série “Batman”. Outros coadjuvantes famosos incluiram Joan Crawford. Janet Leigh, Jack Palance, Joan Collins, Anne Francis, Leslie Nielsen, Eleanor Parker,Vincent Price, Cesar Romero, Kurt Russell, Terry-Thomas e as cantoras Nancy Sinatra e Cher.
Apesar do sucesso, em 1968, após apenas quatro temporadas e 105 episódios, “O Agente da U.N.C.L.E” foi cancelado. Não foi, porém, a despedida dos personagens, que continuaram a aparecer em especiais televisivos. Em 1983, por sinal, finalmente foi registrado o encontro da equipe original com o famoso espião do cinema, identificado pelas iniciais JB e interpretado por George Lazenby, o James Bond de “007 – A Serviço Sereto de Sua Majestade” (1969).
A Garota da U.N.C.L.E., com Stefanie Powers
Depois disso, Felton voltou para a Inglaterra para comandar a produção de “Strange Report”, sobre um agente da Scotland Yard que investiga de forma independente os casos que considera interessantes. A série teve apenas uma temporada, sendo cancelada em 1970.
Novamente nos EUA, ele produziu “Hawkins”, estrelada pelo ator fetiche de Alfred Hitchcock, James Stewart (“Janela Indiscreta”). Na série, Stewart vivia o advogado caipira Billy Jim Hawkins, um papel não muito diferente do que o próprio ator encarnou no filme clássico “Anatomia de um Crime” (Anatomy of a Murder, 1959). James Stewart ganhou o Globo de Ouro de Melhor Ator pelo papel e a série foi muito bem recebida pela crítica. Mesmo assim, não atingiu a audiência desejada pelo canal CBS e foi cancelada na primeira temporada.
Hawkins, com James Stewart
Felton também desenvolveu diversos telefilmes. Entre os mais famosos estão “Baffled!” (1973), em que Leonard Nimoy vive um médium, e “Babe” (1975), que lhe rendeu uma indicação ao Emmy. Seu último trabalho como produtor foi o telefilme “E Seu Nome É Jonas” (…And Your Name Is Jonah), em 1979.
Após se afastar do cotidiano televisivo, passou a integrar a diretoria de sindicatos artísticos e foi homenageado pelo Sindicato dos Produtores da América (PGA), que batizou um prêmio com seu nome. Norman Felton morreu no dia 25 de junho, mas a notícia de sua morte só foi divulgada em 4 de julho pela revista Variety.
Norman Felton no set de A Garota da U.N.C.L.E., com Stefanie Powers e Noel Harrison






































