CANNES Houve um certo silêncio quando os créditos de “The Paperboy” começaram a subir, após sua exibição no Festival de Cannes nesta quinta-feira (24/5). Se fosse para resumir, o novo filme de Lee Daniels (“Preciosa”) é uma espécie de “Histórias Cruzadas” mais trash, já que também traz questões raciais e sociais em seu pano de fundo, filmadas com uma estética grindhouse. Mas não é uma definição completa. Aliás, como definir um filme que coloca a musa Nicole Kidman urinando no peito do astro teen Zac Efron?
Sim, há essa cena. E há mais: em outro momento, Nicole visita o personagem de John Cusack na cadeia e, apenas pela sugestão, sem qualquer contato físico, é capaz de fazê-lo chegar ao orgasmo. “The Paperboy” é a grande aposta da atriz, que ganhou o Oscar por “As Horas” (2002), mas viu sua carreira ir ladeira abaixo ao emendar filmes que foram fracassos comerciais (“A Bússola de Ouro”, “Invasores”, ambos de 2007) e artisticamente questionáveis (“Austrália”, de 2008, “Reféns”, de 2011).
“Eu estava procurando algo cru e perigoso e veio isto”, disse a atriz, cheia de sorrisos, durante a entrevista coletiva após a sessão. Ainda tentando entender o que viram na tela, jornalistas perguntaram se Nicole não teria ficado constrangida por filmar as inusitadas situações e a resposta foi negativa. “Acho que entrei num lugar para interpretar a personagem de onde não saí nem olhei para mim, então não foi difícil filmar”.
Segundos depois, completou. “Eu ainda não vi o filme e talvez fique um pouco desconfortável ao vê-lo, mas esse é o meu trabalho. Eu preciso me doar para algo, não censurá-lo, não colocar meu julgamento em termos de como me senti enquanto Nicole interpretando a personagem.”
No filme, Nicole interpreta Charlotte Bless, uma madame ultrasexy apaixonada por um presidiário condenado à morte (Cusack), com quem troca correspondências. Convicta da inocência do sujeito, ela contrata dois jornalistas investigativos, interpretados por David Oyelowo (“Planeta dos Macacos: A Origem”) e Matthew McConaughey (“O Poder e a Lei”) para investigar o caso. Zac Efron (“17 Outra Vez”) interpreta o irmão mais novo do personagem de McConaughey.
O cineasta Lee Daniels utilizou o livro “Deadwood”, de Pete Dexter, como base da história, passada em 1969, mas se baseou também em sua tragetória pessoal para criar o filme. Seu irmão, por exemplo, está preso por assassinato. Ele também tem uma irmã que se correspondia por cartas com um presidiário. E viu na personagem interpretada pela cantora Macy Gray, a empregada doméstica negra que trabalha na casa de brancos, um símbolo de sua família.
“Eu assisti e gostei de ‘Histórias Cruzadas’. Noventa por cento das pessoas da minha família são como naquele filme, nosso país é daquele jeito: pessoas negras trabalhando para brancos. E eles amam para quem trabalham”, contou. Para o longa, Daniels fez duas alterações importantes no que se refere à condição racial: transformou a empregada doméstica na narradora da história e deu ao ator negro David Oyelowo o papel de um dos jornalistas – originalmente, o personagem é branco. “Não há muitos papéis para atores afroamericanos no cinema hoje em dia”, justificou, ainda que em 1969 jornalistas negros fossem uma raridade.
O cineasta também projetou em “The Paperboy” sua própria sexualidade, por meio do jornalista interpretado pelo astro McConaughey, que precisa esconder sua homossexualidade no “armário”. Durante sua vida amorosa, Daniels precisou enfrentar duas formas de preconceito. “Os homens brancos com quem me relacionei precisavam se esconder para não ser visto com um negro em público. E eles odiavam a si próprios por isso”, lamentou.
Agora, já bem resolvido, o diretor até tirou uma casquinha da situação e aproveitou para expor ao máximo o corpo sarado do candidato a astro Zac Efron, que aparece por diversas vezes seminu. “Eu me distraí o tempo todo nas filmagens porque Zac fica de cueca mais da metade do tempo”, brincou Macy Gray, durante a entrevista. Daniels rebateu. “Ele é muito bonito e a câmera o ama. Além disso eu sou gay, você quer o quê?”, respondeu, arrancando risos dos jornalistas.
Quem levou tudo a sério foi o próprio objeto sexual, Zac Efron, que apareceu de terno, gravata e cabelo impecável. Para ele, estar em Cannes marca a virada em sua carreira, deixando os adolescentes de “High School Musical” (2006) para trás e apostando em papéis mais adultos, como também mostrou recentemente em “Um Homem de Sorte”. “Amo tudo o que fiz, mas esta é uma nova fronteira para mim”, disse, animado. É incrivelmente gratificante, um sonho, e espero continuar fazendo coisas assim.”
Ele também comentou como foi trabalhar com Nicole Kidman. “Entrei em êxtase quando soube que Nicole faria o papel. Sou apaixonado por ela desde ‘Moulin Rouge’ (2001). Adorei cada momento”, comemorou. A atriz, logo ao seu lado, devolveu os elogios: “Fiquei impressionada com sua atuação e entrega”.
Mas o filme é mesmo de Nicole Kidman. Para o bem e para o mal. Minutos depois da sessão de “The Paperboy”, o Twitter foi bombardeado por mensagens de pessoas embasbacadas/extasiadas/repugnadas com a já clássica cena da urina. Num certo momento, Jack James (Efron) é atacado por águas-vivas e alguém sugere que o líquido pode aliviar o dano. Charlotte Bless (Nicole), então… faz o serviço.
Ainda não dá para saber como o público médio americano irá aceitar a personagem de Nicole, mas a atriz apostou alto. Quando o diretor fez o convite, avisou logo de cara que o cachê era irrisório e não havia dinheiro nem para maquiagem e testes de elenco e de figurino (uma prática comum em Hollywood).
A australiana não pensou duas vezes, afinal “Preciosa” rendeu o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante a Mo’Nique. Ela mesma, ao chegar em casa, correu para o banheiro, colocou cílios artificiais, peruca, bronzeador e tirou fotos sensuais com o celular e as enviou a Daniels. “Não posso dizer o que ele me respondeu, mas aprovou totalmente”, brincou. A platéia de Cannes, porém, demonstrou ter dúvidas a respeito do resultado. O filme não foi bem avaliado.



































1 Comentário
A primeira exibição do filme provocou o silêncio, comum diante de obras ousadas. Entretanto, o filme recebeu 6 min e 43 segundos de aplauso após a segunda. Todos os apontam como o principal concorrente hollywoodiano à “Cosmópolis”, surpreendentemente intrigante. “Na Estrada” foi mesmo a decepção, mas deve adquirir popularidade quando alcançar os cinemas tanto estadunidenses quanto brasileiros.