Nicol Williamson (1936 – 2011)

Morreu aos 73 anos o ator escocês Nicol Williamson, vítima de um câncer no esôfago. Ele morreu em dezembro em Amsterdã, após um longo período lutando contra a doença. Grande ator do teatro britânico, Williamson viveu personagens icônicos no cinema, como Hamlet, Sherlock Holmes, João Pequeno e o mago Merlin.

Nascido em 14 de Setembro de 1936 em Glasgow, Williamson era filho de um empresário. Na adolescência, ele largou a escola para trabalhar na empresa da família e, aos 16 anos de idade, encontrou sua vocação nas aulas de teatro. Após o serviço militar, juntou-se ao Dundee Repertory Theatre, onde atuou em 33 produções dirigidas por Anthony Page, cujos esforços levaram Williamson para Londres, com a produção “That’s Us”.

The Reckoning

Imediatamente, Williamson ganhou elogios nas críticas teatrais, que chamava atenção para sua “grandiosa energia neurótica”, algo que só funcionava nos palcos, pois trazia desavenças nas coxias com seus colegas de profissão. Um dos picos de sua carreira foi justamente um papel assumidamente neurótico. Em “Evidência Inaceitável” (Inadmissible Evidence), ele interpretou Bill Maitland, um procurador da justiça de personalidade caótica. Os críticos incensaram sua performance, e ele voltaria ao papel no cinema e numa montagem na Broadway.

No começo dos anos 1960, ele passou a participar de produções televisivas britânicas, que na época levavam montagens de textos teatrais para a TV. Sua primeira aparição na telinha foi numa adaptação de “Guerra e Paz” de 1963, para o programa “ITV Play of the Week”. Vieram convites para participar de séries semanais, telefilmes e seus primeiros papéis como protagonista de cinema. Ele estrelou nas telas grandes em 1968, com a adaptação de “Evidência Inaceitável”, seguida pelo suspense militar “The Bosfors Gun”.

Hamlet

O ator estendeu sua pareceria com o diretor Jack Gold, que o dirigiu em “The Bofors Gun”, em um novo thriller que marcou época. “The Reckoning” (1969) antecipou o estilo dos “filmes de vingança” que dominaria o cinema nos anos 1970. Na trama, ele vivia um empresário londrino que volta a Liverpool ao descobrir que o pai foi assassinado por uma gangue de Teddy Boys (os precursores dos skinheads), decidido a fazer justiça com as próprias mãos.

No mesmo ano, Williamson começou a trabalhar com o cineasta Tony Richardson, vencedor do Oscar por “As Aventuras de Tom Jones” (1963), em dois filmes consecutivos. Em “A Noite Infiel” (Laughter in the Dark, 1969), entrou em cima da hora para substituir Richard Burton, a quem o diretor tinha demitido por aparecer embriagado no estúdio. A adaptação do romance de Vladimir Nabokov não agradou à crítica, mas Richardson ficou impressionado com o ator, propondo-lhe a seguir o seu maior desafio cinematográfico.

Com Robert Duvall, em Visões de Sherlock Holmes

O convite representou o apogeu de seu trabalho como ator de cinema: interpretar Hamlet, na adaptação realizada por Tony Richardson. Williamson jurou que entregaria a melhor performance de Hamlet de todos os tempos. Os críticos e o público concordaram que o ator tinha cumprido sua promessa, pois o filme de 1969 tornou-se uma referência do papel.

Em 1971, o ator se dedicou à música e lançou um álbum de canções country no Reino Unido. O então presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon, convidou Williamson para se apresentar na Casa Branca, e o escocês mostrou sua personalidade peculiar ao chegar ao evento social trajando camiseta e calça jeans. Três anos depois, Williamson interpretaria Nixon numa versão televisiva do escândalo de Watergate, novamente dirigido por Jack Gold.

Com Audrey Hepburn e Sean Connery, em Robin e Marian

Sua carreira, entretanto, entrou em declínio nos anos 1970. O fracasso de sua montagem do musical “Rex”, na Broadway, e a crise em seu casamento, que culminou no divórcio em 1977 da atriz Jill Townsend (“Reencarnação”), levou Williamson a fazer cada vez mais o que confessava ter absoluto desprezo em fazer: filmes.

Sua filmografia ganhou ímpeto, mas também se tornou eclética. Ele encarou até um terror francês, “Le Moine” (1972), ao lado de Franco Nero (“Duro de Matar 2″). Fez ainda uma versão agressiva e alcoólatra de Sherlock Holmes, em “Visões de Sherlock Holmes” (The Seven Per-Cent Solution, 1976), dirigido pelo prolífico Herbert Ross (“Footloose”). E criou um inesquecível João Pequeno (Little John) num dos melhores filmes sobre a lenda de Robin Hood, o clássico “Robin e Marian” (1976), de Richard Lester (“Superman II”), que tinha Sean Connery (o primeiro 007) como protagonista.

Com Helen Mirren, em Excalibur

Em 1978, ele reprisou o papel que o levou ao estrelato, no revival da peça “Inadmissible Evidence”, ao mesmo tempo em que trabalhou no último filme do mestre Otto Preminger, “O Fator Humano” (1979). Nesta época, Williamson admitiu que só fazia cinema como meio de financiar sua carreira no teatro.

Mas, por ironia, foi graças ao cinema, mais especificamente a seu papel de Merlin, no clássico “Excalibur” (1981), de John Boorman, que ele é até hoje lembrado pelas novas gerações. Considerada a melhor adaptação já feita, em qualquer mídia, das lendas arturianas, “Excalibur” foi um sucesso instantâneo e, mais importante para Williamson, uma experiência que não lhe trouxe desprazer.

Com Fairuza Balk, em O Mundo Fantástico de Oz

Mesmo assim, ele continuou desprezando as telas grandes, em grande parte pela falta de critério em escolher seus filmes, como “Venom” (1981), sobre uma cobra gigante, a fantasia da Disney “O Mundo Fantástico de Oz” (1985), em que se escondeu sob a maquiagem de uma criatura mágica, e na malfadada continuação “O Exorcista III” (1990), em que literalmente perde a cabeça. Ele também participou do neo-noir “O Mistério da Viúva Negra” (1987), de Bob Rafelson (“Cada Um Vive Como Quer”), e “Entre a Luz e as Trevas” (1993), ao lado de Colin Firth, que tiveram críticas mais positivas.

Nos anos 1990, Williamson voltou ao teatro com o monólogo “Jack: A Night on the Town with John Barrymore”, que mais tarde foi interpretado pelo ator Christopher Plummer na Broadway e rendeu o filme “Barrymore”.

Com Theresa Russell, em O Mistério da Viúva Negra

O ator escocês encerrou sua filmografia em 1997 com a sofrível adaptação de quadrinhos “Spawn – O Soldado do Inferno”. Desde então, Williamson se dedicou a música. Enquanto passava pelo processo de quimioterapia, ele conseguiu finalizar um álbum de músicas inéditas. Mas encontrava-se pobre, desempregado e distante dos palcos britânicos que tanto amava, amargurado na Holanda.

Williamson morreu em 16 de dezembro do ano passado, mas seu filho só divulgou a notícia na quarta (25/1), através do website do ator. Ele estava ao lado do ator e ouviu suas últimas palavras: “Eu te amo”.

Na peça Jack: A Night on the Town with John Barrymore

+ Lucas Procópio

Lucas Procópio, estudante e amante do cinema, espectador descontrolado e aspirante a cineasta.

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