Walter Salles certamente sabia que “Na Estrada” seria visto com certa desconfiança pela multidão de admiradores do livro de Jack Kerouac em que se baseia. Isso acontece com quase todos os cineastas que se dispõem a adaptar obras demasiadamente marcantes e incensadas.
Quando, por exemplo, Orson Welles filmou um livrinho policial boboca chamado “A Dama de Shangai” (1947) todo o mundo vibrou. Mas milhares de narizes se torceram quando ele ousou adaptar obras como “MacBeth” (1948) de William Shakespeare, ou “O Processo” (1962) de Franz Kafka. Cada leitor desenha mentalmente as imagens que as palavras lhe sugerem e estas dificilmente se encaixam com aquelas que o filme propõe.
Com “On the Road”, de Jack Kerouac, o livro vale mais pelo rompimento que estabelece com as correntes formalmente dominantes na literatura do que pela história que desenvolve. Ou seja, um bando de garotos que vivencia, meio à margem do sistema dominante, o torvelinho de mudanças culturais presenciado por sua geração, a chamada “beat generation” dos anos 1950.
O fato é que o trabalho de Walter Salles apresenta muito mais qualidades do que defeitos palpáveis. Elenco perfeito, com destaque para Sam Riley, que já tinha brilhado em “Control” (2007) no papel de Ian Curtis. O setor feminino, entretanto, é o que garante sustentação emocional para a narrativa, com Kirsten Dunst, Amy Adams, Kristen Stewart e Alice Braga.
Música de Gustavo Santaolalla e fotografia de Eric Gautier, também são corretíssimas – ambos os profissionais que estiveram com o mesmo diretor em “Diários de Motocicleta”.
As passagens dramáticas escolhidas em meio àquele oceano revolto de palavras reunidas por Kerouac exprimem adequadamente aquele coquetel de tédio, solidão, ausência de medo e de perspectiva, sofreguidão e necessidade de contato físico misturado com êxtase psíquico que marcava a juventude da época.
O mesmo vale para as referências sonoras, entre as quais se salienta a antecipação maluca do jazzista Slim Gaillard colocando palavras árabes e judaicas na letra de “Yep-Rock Heresy” – número musical, aliás, reconstituído por inteiro no filme.
Alguns viram o filme como uma espécie de documentário sobre o período – e pouco se emocionaram. Outros, porém, enxergaram a ourivesaria cinematográfica na construção de imagens surpreendentes, como a ponte Golden Gate de São Francisco abatida pela névoa, ou no ideograma constituído pelas figuras da estrada e do imenso rolo de papel no qual o escritor registrou suas lembranças de viagem. Um esforço que, segundo o jornalista e escritor Truman Capote, não era propriamente literatura, mas sim um exercício de datilografia. “Na Estrada”, porém, é cinema.
Na Estrada
(On The Road, Brasil/EUA/França, 2012)







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3 Comentários
Sou fã de Valter Sales e como não li o livro, gostei muito do filme. Principalmente da possibilidad de ver um filme diferente, com mais conteúdo, em meio a tantos filmes blockbuster que invadem as salas de cinemas.
Faz tempo que li o livro, esqueci muita coisa. Não vou compará-lo com o filme, então. Acho que vou ficar satisfeito em ver algo diferente na tela. E os filmes de Walter Salles dificilmente deixam de me agradar (acho Água Negra, o mais fraco deles). Quero ver logo Na Estrada!
Pena que e sexta,nao posso ir ao cinema
Que Pena