Na Estrada perde a aspereza literária numa adaptação certinha

É difícil dimensionar a importância do livro “On the Road”, de Jack Kerouac, publicado em 1957, para as gerações que se seguiram. Considerado a bíblia da geração beatnik – uma geração que mudou comportamentos, pregou a plena liberdade de se viver e experimentar, e tem seus efeitos presentes, ainda que extremamente diluídos, até a juventude atual –, o livro marcou a vida de muita gente, influenciou artistas e plantou a semente do espírito revolucionário e libertário das juventudes dos anos 60.

Por tudo isso e mais um pouco, uma adaptação da obra para o cinema não apenas gerou grande expectativa, mas também apreensão. Transpor para as telas de cinema o que o livro “transpira” em sua narrativa frenética e contundente, não seria tarefa fácil. Coube ao diretor brasileiro Walter Salles essa tarefa que, como ele mesmo admite, aceitou com muito receio. O resultado, que chega agora aos cinemas brasileiros, não deixa de ser correto. Na verdade, é certinho demais.

Sam Riley (de “Control”, no qual interpretava o problemático vocalista do Joy Division, Ia Curtis) é Sal Paradise, o jovem escritor que empreende uma libertária viagem pelo país, boa parte dela na companhia de seu amigo Dean Moriarty (Garrett Hedlund, de “Tron: O Legado”) e Marylou (Kristen Stewart, a Bella Swan da “Saga Crepúsculo”), namorada de Dean que despertará em Sal o desejo e a inspiração para se viver sem limites.

O elenco de “Na Estrada” ainda traz nomes de destaque como Kirsten Dunst (de “Melancolia”), Amy Adams (de “O Vencedor”), Viggo Mortensen (de “Um Método Perigoso”), Steve Buscemi (da série televisiva “Boardwalk Empire”) e a brasileira Alice Braga (de “O Ritual”). Todos atores que vêm se destacando pelo talento e entrega a suas atuações.

Mas, apesar do elenco de primeira, “Na Estrada” deixa a desejar. Em uma adaptação de obra tão seminal e viva, tudo que não podia faltar é aquilo que mais sobra e transborda do livro: alma. Em sua versão de “On The Road”, Walter Salles faz tudo certo. Tem um roteiro correto entre tantos que poderiam surgir a partir do livro, tem atores dedicados que se empenham em seus papeis, tem uma fotografia inspirada que acerta por não se prender a uma atmosfera de época, ainda que traga a ressonância distinta do final dos anos 1940.

Mas tudo isso, ajeitado na tela, num ritmo às vezes irregular, mas que não representa defeito conhecendo-se a natureza do livro que o inspira, parece não ganhar vida suficiente no decorrer dos 137 minutos de filme. É como se Walter Salles fosse um diretor “correto” demais para filmar uma história que, apesar de não ser necessariamente suja, traz na sua organicidade e nas experiências dos personagens uma inequívoca rejeição ao convencional e quadrado.

Como road movie, falta em “Na Estrada” um pouco da aventura incerta, da aspereza do caminho, da dureza de se cruzar o país, de se virar com trocados. Essa vida de estrada, na qual viveu Sal Paradise (nada menos que um alter ego de Jack Kerouac, assim como outros personagens do livro são representações de figuras reais com quem o autor conviveu em sua jornada de estrada) certamente é bem mais melancólica e difícil do que a mostrada no filme. Esse verniz, na verdade elíptico, de uma jornada sem grandes desafios está entre os elementos que “limpam” demais a experiência do filme.

Mais do que tudo, falta a “Na Estrada” uma fagulha que ascenda o espírito do livro e dê à suas belas imagens e boas atuações uma alma. Pois o que se vê na tela é um filme apenas bom, capaz de suscitar emoções e sentimentos, capaz de causar identificação com seus personagens e até de servir como metáfora e catarse de uma América cujo sonho morreu. Mas isso é pouco para uma obra que deveria traduzir para as imagens o espírito de uma experiência que influenciou e transformou toda uma geração.

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Na Estrada

Imagem de Amostra do You Tube
(On The Road, Brasil/EUA/França, 2012)

 ★★★☆☆ 

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Leia também as entrevistas:

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+ Rogerio de Moraes

Rogério de Moraes é jornalista e crítico de cinema. Tem colaborações na revista Época São Paulo, revista Brasileiros e no jornal Folha de S.Paulo. Escreve regularmente sobre filmes em seu blog Eu, Cinema.

2 Comentários

  • ligya Identicon Icon ligya
    15 de julho de 2012 | Permalink | Responder

    Discordo completamente,já que tenho alma e ela fico bem comovida com viu, mas existe críticas piores que a sua.

  • th Identicon Icon th
    13 de julho de 2012 | Permalink | Responder

    boa crítica. :)

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