CANNES “Na Estrada” (On The Road), exibido para a imprensa internacional na manhã da quarta-feira (23/5), foi o responsável pela maior fila já vista na atual edição do Festival de Cannes. Os jornalistas se engalfinharam para participar da entrevista coletiva do novo filme de Walter Salles (“Central do Brasil”), mas a causa da comoção não era exatamente porque a produção finalmente adapta o clássico livro “On the Road, de Jack Kerouac, nem porque o longa junta astros como Viggo Mortensen (“Senhor dos Anéis”), Kirsten Dunst (“Homem-Aranha”) e Amy Adams (“Os Muppets”).
Todos queriam perguntar à jovem estrela da “Saga Crepúsculo” Kristen Stewart como foi filmar nua e realizar as ousadas cenas de sexo, inclusive com direito a “ménage à trois”. E a atriz não negou que precisou derrubar as próprias travas e receios. “Obviamente, todas dizem ‘Oh, me senti muito segura’”, ela brincou, diante da multidão. “Mas se você está sendo sincera e honesta, não há nada com o que se envergonhar”, disse, tranquilamente.
A história acompanha a juventude dos ícones do movimento beat Jack Kerouac e Neal Cassady durante sua aventura de cruzar o país dentro de um Hudson 1949 para conhecer a verdadeira América e a si próprios. “O filme mostra o início do despertar político e emocional desses jovens. Na viagem, eles encontram as liberdades que lhe foram negadas e, ao fazer isso, expandem as fronteiras da cultura num país ainda muito conservador como os EUA do pós-guerra”, declarou Salles, durante a entrevista coletiva realizada após a exibição.
Os jovens Kerouac e Cassady, que no livro e filme ganham os nomes fictícios de Sal Paradise (Sam Riley) e Dean Moriarty (Garrett Hedlund), respectivamente, experimentam novas culturas, perspectivas e amores.
Os fãs de “Crepúsculo” irão encontrar em “Na Estrada” uma Kristen completamente diferente da virginal e recatada Bella Swan. Marylou, contraparte de Luanne Henderson, casou-se com Cassady aos 15 anos e tinha uma sexualidade extremamente liberada. Um crítico mais humorado chegou a declarar que Stewart tira a blusa tantas vezes que impressionaria até mesmo seu colega Taylor Lautner, da franquia vampírica.
Não de forma gratuita, é claro. Como o próprio diretor explicou, era o espírito da liberdade que começava a fervilhar entre os jovens americanos e do mundo todo, e que alcançariam seu ápice apenas no final da década de 1960. A obra de Kerouac batia tão de frente com o moralismo da sociedade que chegou a ser considerada “infilmável” por um longo período, tanto pelo seu conteúdo quanto pela prosa frenética e quantidade de personagens que aparecem ao longo de suas páginas.
“É sobre a perda da inocência, é sobre a busca da última fronteira que eles nunca vão encontrar. Mas também se trata de descobrir que este é o fim da estrada e o fim do sonho americano”, refletiu o brasileiro.
O próprio escritor enviou uma cópia do livro para o ator Marlon Brando (“Sindicato de Ladrões”) após a publicação, em 1957, sonhando em vê-lo nas telas, mas nunca obteve resposta. Não houve esperança nem mesmo durante a década de 1970, quando Hollywood foi invadida por filmes críticos à América enterrada na Guerra do Vietnã. Francis Ford Coppola (“O Poderoso Chefão”) adquiriu então os direitos do romance, mas não conseguiu imaginar como fazer a adaptação.
“Na Estrada” começou a nascer quando Walter Salles realizou, em 2004, um filme relativamente semelhante. “Diários de Motocicleta” mostrava o jovem médico argentino Ernesto Guevara antes de se tornar o revolucionário Che, viajando numa moto e conhecendo as desigualdades sociais da América Latina. “Ambos são sobre jovens descobrindo a geografia e a realidade, e despertando criticamente”, comparou o diretor.
Roman Coppola, filho de Francis, assistiu ao “Diários de Motocicleta” e viu finalmente a possibilidade de levar o livro de Kerouac às telas do cinema – tanto que, além de Salles, também convidou o roteirista Jose Rivera para realizar a adaptação. O brasileiro, então, iniciou a busca por sua Marylou e viu em Kristen Stewart, que havia acabado de estrelar “Na Natureza Selvagem” (2007), uma grande atriz. Na época com 17 anos, ela topou o papel e esperou o início da produção – cada vez mais prorrogado devido às dificuldades em conseguir financiamento por seu conteúdo incômodo.
O projeto levou anos e só se tornou possível porque conseguiu parceiros europeus independentes, dispensando dinheiro hollyoodiano. Nesse meio tempo, no entanto, Kristen pulou de uma atriz comum à condição de estrela de Hollywood, graças ao fenômeno adolescente “Crepúsculo”, onde interpreta uma garota recatada – e cuja história é uma metáfora que incentiva a iniciação sexual somente após o casamento.
Seus agentes, é claro, ficaram desesperados quando souberam seu comprometimento com o projeto de Salles. “Eles não paravam de me dizer: ‘Não faça isso!’”, Kristen confessou durante a festa após a exibição. Mas já era tarde demais, pois a atriz estava encantada com a personagem. “A Marylou é tão viva, ela pula das páginas do livro e te beija”. O encantamento, no entanto, não tinha a ver com identificação, garantiu: “Eu internalizo tudo; ela é o oposto”. Para ela, participar do filme era motivo de orgulho pessoal. Kristen chegou a baixar seu cachê a ponto de praticamente trabalhar de graça na produção, só para viver as experiências que refletiram o nascimento da rebelião juvenil.
Antes de começar a filmar, Salles levou os atores a visitar os parentes vivos dos personagens reais e ficou com seu elenco numa espécie de “acampamento beat” durante um mês, para que todos ficassem íntimos e encontrassem o espírito do livro. “Meu desafio com os atores era fazer com que suas interpretações não refletissem quem os personagens reais se tornariam mais tarde”, contou.
O cineasta também revelou que a própria equipe técnica viveu uma aventura para filmar “Na Estrada”, durante um trajeto que contou com 100 mil quilômetros e muitas oficinas. “O carro quebrava o tempo todo. Conhecemos todos os mecânicos das estradas por onde passamos”, brincou Salles, um dia antes da estreia de seu filme, em conversa com a imprensa reunida no festival. Na ocasião, ele comparou o Festival de Cannes a um jogo contra o time de futebol espanhol Barcelona. “Do outro lado, você tem 21 ‘Messis’ contra você”, disse, sobre a competição pela Palma de Ouro, deixando claro que não tem esperanças de vencer a premiação.
A crítica poderia concordar com ele, já que o filme foi acusado de ser longo, cansativo e não refletir o impacto que a obra original causaria. Mas a crítica não gosta de nada em festivais como Cannes, encontrando defeitos nas maiores obras-primas. Já o público, no entanto, parece ter aprovado “Na Estrada”. Em sua exibição na quarta-feira à noite, o filme foi aplaudido de pé por diversos minutos, deixando Sam Riley confuso. “Eu fiquei lá pensando: ‘Será que eles pagam essas pessoas para baterem tantas palmas assim’”, disse, durante a festa após a sessão.
Acostumada a ser malhada pela crítica nos últimos anos por sua personagem recatada em “Crepúsculo”, Kristen também ficou emocionada pela recepção calorosa num dos festivais mais respeitados do mundo do cinema. “Foi uma experiência muito surreal para mim, não sabia o que pensar”.
Salles prefere, de fato, não pensar nisso e concentrar-se em seu próximo trabalho, que deverá ser rodado no Brasil, para não perder suas raízes – ele evita realizar duas produções internacionais seguidas. Uma filosofia que o cineasta aplica tanto para si quanto para os personagens de “Na Estrada”. “Quanto mais você se distancia de sua raiz, provavelmente melhor será sua perspectiva sobre quem você é, de onde vem e quem quer ser. Mas também estará deixando parte de si para trás”, ele avalia.
Já o empolgado ator Viggo Mortensen (“Um Método Perigoso”), que interpreta Old Bull Lee, a versão literária do escritor William S. Burroughs, acredita que o filme ainda será muito comentado em todo o mundo ao longo do ano. Ele disse que o atual momento de crise financeira e derrubada de governos e ditaduras ao redor do planeta mostra que o público deve se identificar com “Na Estrada”. “O livro é muito atual e pertinente. Há protestos em massa na Europa, EUA, China, no Oriente Médio, e em grande parte são liderados por jovens que carregam o espírito daquela época”, avaliou o ator. “Os jovens voltaram a rejeitar a autoridade e o status quo. Valeu a pena esperar”, concluiu, fazendo um comparativo sobre a demora na adaptação do livro.




































