Um rápido passeio pela produção contemporânea do cinema chileno permite reconhecer um compromisso com a recuperação da memória no país. Filmes dos realizadores mais destacados do Chile passam, de alguma maneira, pelo tema da ditadura de Augusto Pinochet – uma das mais longas e, como tem se descoberto, “silenciosamente” violentas do continente.
De um lado, estão realizadores como Andrés Wood (“Machuca”) e Pablo Larraín (“Tony Manero” e “Post Mortem”), cujas produções multipremiadas festivais afora mostram que a ditadura continua viva não só em muitas instituições chilenas, como nas mentes de seus cidadãos.
De outro, estão veteranos como Miguel Littín, um dos maiores cineastas do Chile, conhecido mundialmente por produções como “O Chacal de Nahueltoro” (1970) e “Acta General de Chile” (1986), documentário que gravou nas ruas de Santiago durante o golpe militar. A iniciativa rendeu a ele, que voltou disfarçado do exílio para registrar nas ruas a violência daqueles dias, o lugar em um importante livro de jornalismo literário de ninguém menos que Gabriel García Márquez: “A Aventura de Miguel Littín Clandestino no Chile”, lançado nos anos 1980.
Comprovando que o momento é de recuperação da memória, mesmo sob a defesa que “dos anos 1960 em diante, a recuperação da memória sempre esteve presente nos filmes realizados no Chile”, Littín acaba de lançar por aqui seu último filme. “Dawson Ilha 10”, coproduzido com o Brasil e a Venezuela, faz um retrato ficcional da ilha onde o ditador chileno instalou um campo concentração para ex-ministros e funcionários do governo Allende.
Sobre o filme, em cartaz nos cinemas brasileiros desde sexta (25/11), o cineasta falou ao site Pipoca Moderna.
Como surgiu a ideia para o filme “Dawson Ilha 10”?
Tudo começou quando li “Ilha 10”, livro em que Sergio Bittar conta sua experiência como prisioneiro de Dawson e no qual se baseia o filme. Fui cativado pela serenidade do relato e pela sobriedade com a qual se aborda um fato tão dramático como a existência de um campo de concentração ao qual o governo de Pinochet enviava presos políticos. É um projeto que trata de temas que sempre dão voltas ao meu redor. Fazem parte da história do país e da minha, pessoal. Pesquisei bastante, visitei a ilha algumas vezes na companhia dos ex-prisioneiros e, assim, nasceu “Dawson”.
Essa é sua primeira coprodução com o Brasil?
Sim. Fui convidado a um seminário de cinema na Bahia [Cine Futuro - Seminário Internacional de Cinema e Audiovisual] e lá conheci o Walter Lima, produtor do filme. Conversamos bastante sobre ideias e sentimentos comuns, e o acordo se deu, entre confiança e sedução. Considero esse modelo de produção uma saída importante que o cinema de conteúdo da América Latina tem para crescer e lutar contra filmes feitos só com fins de lucro. Não é compreensível que não exista um intercâmbio cultural que seria natural dentro de um mesmo continente.
Como foi o processo de escrita do roteiro? Ele é bastante fiel ao livro?
Um roteiro é uma infidelidade anunciada. Esse tem a alma do livro, mas é outra coisa – como dois corpos compartilhando a mesma alma. O processo foi longo, porque depois de ler o livro fiz viagens à ilha na companhia de pessoas que estiveram presas lá. Queria observar esse grupo humano, imaginar como interagiam e como se combinavam ao espaço. Descobri que se tratavam com muito carinho, usando os diminutivos dos nomes, por exemplo. Então veio o momento de filmar, que é quando as ideias tomam forma.
O filme foi indicado ao Goya, é pré-candidato estrangeiro ao Oscar e foi premiado no Festival de Roma. Que importância têm esses reconhecimentos, em sua opinião?
Um filme, como tudo o que faço, é algo para oferecer aos outros. Há dois lados dos prêmios, e o lado pessoal eu refuto totalmente. O aspecto importante é que eles servem para que o filme chegue ao público. Em Roma, por exemplo, “Dawson” foi aplaudido de pé pelos espectadores durante 15 minutos. Isso, sim, foi muito gratificante. Os festivais se converteram no refúgio do cinema de autor. Quando alguns diretores latino-americanos fizeram seus filmes nos anos 60 e 70, como foi meu caso com “O chacal de Nahueltoro”, não se pensava em festivais. Para nós, o mundo se projetava a partir da América Latina. Hoje, o momento é outro.
A que você atribui a corrente de filmes chilenos recentes que têm explorado o tema da ditadura?
Não se trata de uma corrente de hoje. O cinema chileno nunca perdeu a sua linha. Dos anos 60 em diante, a recuperação da memória sempre esteve presente nos filmes realizados no Chile. Felizmente, é uma tradição que se renova com realizadores como Andrés Wood e Pablo Larraín, mais ligados à ficção, documentais como “I Love Pinochet” [2003], de Marcela Said, e outros exemplos.
A seu ver, que momento vive atualmente a sociedade chilena?
É como se estivesse despertando do sono de 40 anos de uma marmota. As manifestações que estão acontecendo no país é o que houve de mais importante no Chile neste século e no anterior. Não é apenas um movimento de jovens. A juventude nas ruas, apoiada por seus avós, pais, professores e cidadãos em geral, recebeu informação que foi passada de geração em geração e não reclamam só por eles, mas exigem o fim do Chile como paraíso do neoliberalismo. Ao lutar contra a educação privatizada, dizem: “Não queremos a educação de Pinochet”. Estão, na verdade, abrindo uma grande panela de repressão social e exigindo a transição não só das formas, o que lentamente se deu, mas também dos conteúdos herdados da ditadura.
Às vezes, na imprensa, há menção a pessoas que ainda defendem o governo de Pinochet. Isso realmente acontece no Chile?
É uma minoria, das que sempre existem e em relação às quais é importante ter cuidado. É errado dizer que o “país está dividido”, como se disse no dia da morte de Pinochet, por exemplo. O fundamental é manter-se alerta.
Você já tem um novo filme em vista?
Sim. É uma ficção sobre a entrada de Salvador Allende no Palácio de la Moneda, com todos as honras institucionais de sua posse, e a saída de seu corpo, às duas da tarde do mesmo dia, coberto por uma manta boliviana. O que aconteceu entre esses dois momentos lá dentro? Será uma coprodução entre Chile, Venezuela, Argentina e talvez o Equador. A combinação de países sul-americanos é perfeita para o tema, porque Allende não é um nome, mas um sentimento que cobre a pele de todos nós. Algo vigente, que se presta a uma nova forma de valores humanos, longe do homem-objeto.







































