Melancolia eleva simbolismo de Lars von Trier a proporções épicas

Quando o prelúdio de “Tristão e Isolda” começa a tocar e a tela é preenchida pelo rosto vidrado de Kirsten Dunst, a impressão é de que um épico está para começar. À medida que a sequência inicial transcorre, com um efeito de câmera “superlenta”, vem a certeza: desde “2001 – Uma Odisseia no Espaço” (1968), não se via uma sequência feita apenas de música e imagem com o lirismo e a força dos minutos iniciais de “Melancolia”, novo filme de Lars Von Trier.

Esperado por muitos, o filme já estreou fazendo barulho quando Von Trier, num ataque de sarcasmo, declarou-se simpatizante do nazismo numa coletiva em Cannes. Para muita gente, foi o fim do mundo, tanto que o diretor foi considerado “persona non grata” no festival. Mas para quem ainda iria assistir “Melancolia”, o mundo estava reservado a terminar de forma muito mais apoteótica. E ao som de Wagner, que é pra nazista nenhum botar defeito.

“Melancolia” é dividido em duas partes, cada uma levando o nome de uma personagem. “Justine“ (Kirsten Dunst) batiza a primeira parte, que mostra a festa de seu casamento. Numa trama com ecos de “O Casamento de Rachel” (2008) e “Festa de Família” (1998, de Thomas Vinterberg, colega de Von Trier na vanguarda do Dogma 95), vemos uma família com problemas que vão se deixando vislumbrar aos poucos por baixo do verniz do luxo.

Já a segunda metade leva o nome da irmã de Justine, Claire (Charlotte Gainsbourg). Passa-se após o casamento, quando vamos conhecendo mais profundamente alguns personagens e as relações entre eles, em meio ao anúncio de um iminente fim do mundo.

Do roteiro à direção, Von Trier conduz o filme com precisão de detalhe e aspirando a uma universalidade que, se não alcança, consegue inspirar – nas excelentes atuações que arranca de seu elenco (Kirsten ganhou o prêmio de melhor atriz no festival de Cannes por “Melancolia”, Charlotte já o tinha por “Anticristo”, do mesmo diretor), nas imagens repletas de simbolismo e no caráter alegórico que cada ação assume no contexto traçado.

Seu estilo, mutante ao longo da carreira, vai revelando traços aqui e ali enquanto se reinventa. O Dogma 95 aparece numa câmera que balança, na referência à Vinterberg. O sarcasmo e a ironia de suas comédias ressoam em atitudes de personagens roubando colheres ou carregando malas, enquanto denunciam o ridículo da própria situação. Tem espaço até para os planos excessivamente abertos de “Dogville” (2003) e “Manderlay” (2005), além, é claro, da atmosfera quase gótica que ronda “Anticristo” (2009), incluindo a sequência em câmera lenta do início.

Acima de tudo, o filme deixa claro que se trata de uma alegoria. Contrariar essa premissa e assisti-lo como uma sequência de fatos verossímeis ou mesmo como uma “história” é o caminho mais curto para não entende-lo e, provavelmente, odiá-lo – reação bastante usual em se tratando de Von Trier.

Se serve de justificativa, “Melancolia” não é e nem tenta ser cinema de entretenimento ou puramente narrativo. Se serve de consolo, o filme dialoga com o a arte, a linguagem e a poesia.

Exemplo disso é a cena em que Justine, em sua indiferença quase patológica ao próprio casamento, troca livros com obras construtivistas de Malevich e Kandinsky por gravuras e ilustrações medievais, quase um bestiário. Ou a repetição exata de frases pelo mesmo personagem em situações diferentes, na primeira e na segunda parte do filme.

A insistência dos veículos, animais e até pessoas em “empacarem” ao entrar e sair da curiosa mansão onde o filme transcorre é também, bastante simbólica. A casa, aliás, parece extraída de uma obra do pintor J.M.W. Turner, quase sobrenatural com sua excêntrica e luxuosa mistura de elementos franceses, ingleses, escandinavos e americanos.

Junto ao pátio com um relógio de sol que se abre para um grande lago, é o palco perfeito para o enredo que se embrenha por caminhos de ficção científica, beirando o esoterismo. E dá-lhe 19º buraco do campo de golfe e grutas mágicas para florear uma obra que explode em grandiosidade.

Com tudo isso, Von Trier leva seu estilo, único, a proporções épicas. Provavelmente, uma chatice incomensurável para quem entende cinema como linguagem restrita à narrativa e ao entretenimento. Com certeza, uma experiência estética única e inesquecível para aqueles que veem na arte, independente de seu meio, uma forma de elevação.

Imagem de Amostra do You Tube


Melancolia

(Melancholia, Dinamarca/Suécia/França/Alemanha, 2011)

Lançamento em DVD e Blu-ray

 ★★★★½ 

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+ Dimas Tadeu

Dimas Tadeu é jornalista, mestre em Estética, Redes e Tecnocultura e otaku de cinema. É, provavelmente, o mineiro mais gaúcho de São Paulo. Se deixa seduzir por Chabrol, ama Honoré, tem uma queda por Cameron Mitchell, mata por Tarantino e morre por Von Trier. Também acredita que a Pixar e o Miyazaki podem salvar o mundo.

2 Comentários

  • José Identicon Icon José
    20 de agosto de 2012 | Permalink | Responder

    Curiosamente, não vi ninguém incluir a obra de Andrei Tarkovski como uma das influências de Lars Von Trier nesse filme. Especialmente “O Sacrifício”, de 1986: nesse filme, o ator principal está celebrando seu aniversário de 50 anos quando chega a notícia de que começou uma provável 3ª Guerra Mundial (o que era a expectativa do “fim do mundo” naquela época). Simbologia, referências cruzadas com música e pintura, planos longos e reflexivos, tudo isso já havia em tarkovski.

  • Luciano Identicon Icon Luciano
    23 de janeiro de 2012 | Permalink | Responder

    Só assisti agora, mas posso dizer que foi um dos melhores filmes que eu vi. É bom saber que há diretores como Lars von Trier que nos dão alternativas aos incontáveis filmes puramente comerciais. E o artigo faz jus à beleza do filme. Muito bom!

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