Mel Stuart (1920 – 2012)

Morreu Mel Stuart, experiente documentarista que dirigiu a versão original de “A Fantástica Fábrica de Chocolate” (1971). Ele lutava contra o câncer e morreu em sua casa, em Los Angeles, aos 83 anos de idade.

Nascido em 2 de setembro de 1920, Stuart se formou em música na New York University, mas logo desistiu da ideia de se tornar um compositor e voltou suas atenções para o cinema.

Quatro Dias em Novembro

Ele começou sua carreira cinematográfica em 1954 como assistente de montagem para um estúdio especializado em comerciais, onde mais tarde se tornou assistente da curta-metragista de vanguarda Mary Ellen Bute. Depois disso, trabalhou como pesquisador cinematográfico para a série documental do canal CBS “The 20th Century” (1957), narrada por Walter Cronkite. E foi a partir daí que desenvolveu seu fascínio por documentários, passando a produzir e dirigir dezenas de filmes do gênero.

Sua estreia como diretor veio em 1961, num telefilme sobre o esportista Rafer Johnson, campeão olímpico do decatlo. Mas em pouco tempo passou a se interessar por documentários sobre líderes políticos. Ele dirigiu “The Making of the President” (1963), sobre a eleição presidencial de John F. Kennedy em 1960, que lhe rendeu o Emmy, e acompanhou também a morte do presidente, com o famoso documentário “Quatro Dias em Novembro” (Four Days in November, 1964), centrado no assassinato do popular líder americano. Este filme lhe rendeu uma indicação ao Oscar na categoria Melhor Documentário.

A banda The Bar-Keys em Wattstax

Ele fez mais dois “The Making of the President”, acompanhando as eleições de 1964 e 1968, e continuou a cobrir a tragédia da família Kennedy com o documentário “The Unfinished Journey of Robert Kennedy” (1970), sobre o assassinato do sucessor natural de JFK. Seu interesse na política também o levou para longe do processo democrático. Em 1968, ele produziu um estudo de fôlego sobre a ascensão e a queda do regime nazista na Alemanha, “The Rise and Fall of the Third Reich”, dirigido por Jack Kaufman e concebido no formato de minissérie.

O diretor também documentou o festival Wattstax, um dos principais registros da música negra dos anos 1970. Organizado pela gravadora de soul music Stax Records, o festival aconteceu no Los Angeles Memorial Coliseum em 20 de agosto de 1972 e é considerado o equivalente soul do festival de Woodstock. A lista de atrações musicais inclui Isaac Hayes, The Staple Singers, Rufus Thomas, The Bar-Kays e Albert King. Mas ele não se contentou apenas em filmar os shows e convidou o comediante Richard Pryor (“Chuva de Milhões”) para conduzir narrativas sobre a vida urbana no gueto, que na tela entremearam os números musicais.

Enquanto Viverem as Ilusões, com Suzanne Pleshette e Ian McShane

Mel Stuart começou a fazer filmes “convencionais” a partir de 1969. Curiosamente, sua produção hollywoodiana não poderia ser mais distante de seus documentários políticos. Mas, de forma apropriada, sua estreia na ficção foi derivada de um documentário. “Enquanto Viverem as Ilusões” (If It’s Tuesday, This Must Be Belgium, 1969) acompanhava o então jovem Ian McShane (série “Deadwood”) como guia de uma excursão por 18 países da Europa e se baseava num documentário do canal CBS de mesmo nome, produzido quatro anos antes. A versão fictícia, claro, edulcorava tudo como comédia romântica.

O segundo filme, “Seu Caso Era Mulher” (I Love My Wife, 1970), foi uma sátira à vida de casado nos subúrbios, com o ator Elliot Gould (“Onze Homens e um Segredo”) transando com diversas mulheres, após seu casamento entrar na rotina.

Seu Caso Era Mulher, com Elliot Gould

Sua carreira já era bastante eclética quando ele assumiu a produção que mais destoou de sua filmografia – e ironicamente se tornou o seu maior sucesso. Trata-se da versão original de “A Fantástica Fábrica de Chocolate” (Willy Wonka and the Chocolate Factory, 1971), adaptação da obra literária de Roald Dahl, que trazia Gene Wilder no papel do excêntrico proprietário da fábrica o título. O filme se tornou um dos mais queridos clássicos do cinema infantil em todos os tempos.

Stuart se encarregou da direção por insistência de sua filha Madeline, na época com 12 anos de idade, que era fã do livro original, e inclusive fez uma ponta na produção, como uma estudante a quem um professor pergunta quantas barras de chocolate Wonka ela havia comido – a resposta da garota era 100 barras.

A Fantástica Fábrica de Chocolate, com Gene Wilder

Apesar de contrastar com os demais filmes de sua carreira, a hoje adulta Madeline revelou que seu pai “era excepcionalmente orgulhoso de Willy Wonka”. “No final das contas, meu pai fez este filme para si mesmo, sem fazer concessões para o público infantil, mas resultou num filme doce e feliz”, disse a filha do cineasta.

A falta de concessões quase resultou em fracasso. O filme não foi o sucesso que muita gente pensa. Orçado em US$ 3 milhões, só fez US$ 4 milhões na bilheteria e ficou em 53º lugar entre os filmes lançados em 1971 nos EUA. Roald Dhal também odiou a adaptação de seu livro. E a Paramount se desfez de seus direitos como batata quente, por US$ 500 mil, seis anos após o lançamento do filme. Mas as repetições na televisão o levaram a conquistar um novo público. Seu lançamento em vídeo sedimentou seu status de filme redescoberto. Em 2003, dois anos antes de ganhar sua refilmagem por Tim Burton, “A Fantástica Fábrica de Chocolate” original atingiu o 25º lugar numa lista compilada pela revista Entertainment Weekly com os Maiores Cults de todos os tempos.

No set de A Fantástica Fábrica de Chocolate

Para Mel Stuart, porém, a experiência foi frustrante. E em pouco tempo ele se viu relegado a produções televisivas, como o telefilme “Brenda Starr” (1976), sobre a famosa repórter-título dos quadrinhos, e a série “The Chrisholms” (1979), sobre uma família de pioneiros no Velho Oeste, além de um especial de Natal da série “Welcome Back, Kotter” (1977), estrelada por um jovem John Travolta.

Ele tentou resgatar um pouco de sua trajetória no telefilme “Eu Matei o Presidente” (Ruby and Oswald, 1978), sobre o assassino Harvey Lee Oswald, que disparou contra John F. Kennedy. E fez uma última experiência de juntar tema documental com drama cinematográfico em “The White Lions” (1981), em que uma família americana vai para a África estudar e defender os últimos leões brancos.

No set de A Fantástica Fábrica de Chocolate, com Gene Wilder e Peter Ostrum

No final da carreira, ele tinha voltado a dirigir documentários para a TV. Seu último trabalho como diretor foi o documentário “The Hobart Shakespeareans” (2005), sobre professores de crianças cujos pais não falam inglês, em escolas pobres e perigosas da periferia de Los Angeles.

Primo do lendário escritor de quadrinhos Stan Lee (criador do Homem-Aranha, Homem de Ferro, X-Men, Vingadores, etc), Mel Stuart deixou três filhos e dois netos.

No set de A Fantástica Fábrica de Chocolate, com Gene Wilder

+ Lucas Procópio

Lucas Procópio, estudante e amante do cinema, espectador descontrolado e aspirante a cineasta.

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