Morreu o compositor Marvin Hamlisch, autor de trilhas musicais famosas como a do musical “A Chorus Line” e de filmes como “Nosso Amor de Ontem” (The Way We Were, 1973), “Golpe de Mestre” (The Sting, 1973) e “A Escolha de Sofia” (Sofia’s Choice, 1982). Vencedor de três Oscar, quatro Emmys e um Grammy, ele morreu depois de uma doença breve, porém não divulgada, aos 68 anos de idade.
Nascido em 2 de junho de 1944, filho de um acordeonista, ele se tornou o aluno mais novo em todos os tempos a ser aceito na prestigiada escola musical de Juilliard. Tinha apenas sete anos quando impressionou a banca de admissão mostrando que podia tocar a canção clássica do folk americano “Goodnight Irene” em qualquer nota que fosse solicitada.
Marvin Hamlisch no começo dos anos 1980
Durante a adolescência, ele se apresentou em alguns concertos e receitais no conservatório Town Hall, mas logo desistiu da ideia, devido a uma grande fobia de palco. “Antes de qualquer recital, eu vomitava violentamente, perdia peso e as veias das minhas mãos saltavam”, revelou Hamlisch em entrevista para a revista Current Biography.
Em 1965, quando tinha 21 anos, ele conquistou seu primeiro sucesso, por meio da canção de sua autoria “Sunshine, Lollipops and Rainbows”, que entrou no top 20 das paradas de sucesso na voz da cantora Lesley Gore. Precoce, compôs sua primeira trilha musical para o cinema com 24 anos, para o drama existencialista “Enigma de uma Vida” (The Swimmer, 1968), estrelado por Burt Lancaster.
Um Assaltante Bem Trapalhão, com Woody Allen
A partir daí, não parou mais, encaixando filme atrás de filme, entre eles “Um Assaltante Bem Trapalhão” (Take the Money and Run, 1969) e “Bananas” (1971), primeiros longas dirigidos por Woody Allen, além de firmar uma parceria com o célebre ator Jack Lemmon.
Num curto período, compôs as trilhas de três filmes estrelados por Lemmon, “Um Dia em Duas Vidas (The April Fools, 1969), “Guerra Entre Homens e Mulheres” (The War Between Men and Women, 1972) e “Sonhos do Passado” (Save the Tige, 1973) e foi convidado pelo ator para musicar seu primeiro e único filme como diretor, “Kotch – Ainda Há Fogo Sob as Cinzas” (Kotch, 1971). Por este trabalho, ele recebeu sua primeira indicação ao Oscar, concorrendo na categoria de Melhor Canção por “Life Is What You Make It”.
Nosso Amor de Ontem, com Barbra Streisand
Em 1972, fez sua primeira apresentação na famosa sala de shows nova-iorquina Carnegie Hall, acompanhando ninguém menos que Grouxo Marx ao piano. O célebre comediante tinha 81 anos de idade, e o show consistia de reminiscências de sua carreira. O espetáculo foi gravado e lançado em disco, e até hoje faz sucesso entre os fãs do bom humor.
Tudo se desenrolou rapidamente a partir daí. Hamlisch se consolidou como compositor premiado de cinema em 1974, aos 30 anos, vencendo três Oscars de uma só vez: pelas trilhas de “Golpe de Mestre” (1973) e “Nosso Amor de Ontem” (1973) e pela música tema do segundo filme, “The Way We Are”, que também lhe rendeu um Globo de Ouro e um Grammy, além de render um enorme sucesso nas paradas de sucesso. “The Way We Are” ainda inaugurou uma bem-sucedida colaboração com a estrela do filme, Barbra Streissand.
Um Golpe de Mestre, com Paul Newman e Robert Redford
“Eu tive que implorar para ela cantar a música. Ela a achava muito simples”, disse o compositor, anos mais tarde, revelando que a diva dos musicais se mostrou relutante em confiar nele no início. Sua insistência acabou se mostrando muito produtiva para a dupla no final das contas. Os dois voltaram a trabalhar juntos em outras ocasiões, como no filme “O Espelho Tem Duas Faces” (The Mirror Has Two Faces, 1996), estrelado e dirigido por Barbra, e na turnê de 1994 da cantora, em que Hamlisch atuou como diretor musical.
Após se consagrar no cinema, Hamlisch mirou o teatro musical, onde também deixou sua marca, por meio da trilha sonora de “A Chorus Line”. O espetáculo de 1975 foi concebido originalmente como uma produção off-Broadway, mas seu sucesso logo o lançou aos palcos principais de Nova York.
Marvin Hamlisch, vencedor do Oscar 1974
A trama girava em torno de um grupo de atores, cantores e dançarinos em sua trajetória pelas audições de uma grande montagem musical. A peça permaneceu por cerca de 15 anos em cartaz, imortalizou canções como “One” e “Dance: Ten”, e rendeu novos prêmios ao compositor: um Tony Award e um Prêmio Pulitzer. Uma década mais tarde, ele voltaria a ser indicado ao Oscar pela adaptação da peça.
Nos anos 1970, tudo o que Hamlisch compunha parecia virar ouro. E inevitavelmente foi convidado a compor a trilha de um grande blockbuster. Ele assinou nada menos que a trilha do filme mais famoso do James Bond vivido por Roger Moore, “007 – O Espião que Me Amava” (1977). A orquestração foi indicada ao Oscar, assim como a canção que ele compôs para Carly Simon imortalizar: “Nobody Does It Better”, um dos temas mais famosos de 007.
Em meio a ensaio de A Chorus Line
A partir de então, o nome de Hamlisch se tornou obrigatório nas indicações ao Oscar. Ele concorreu novamente por músicas de “Tudo Bem no Ano que Vem” (Same Time, Next Year, 1978), “Castelos de Gelo” (Ice Castles, 1978) e a marcante trilha de “A Escolha de Sofia” (Sophie’s Choice), drama estrelado por Meryl Streep. Nesta ocasião, que acabou derrotado por seu principal rival da época, John Williams, compositor da trilha antológica de “E.T. – O Extraterrestre” (E.T., 1982).
Ele voltou a ser indicado mais três vezes pela Academia, pelo musical “A Chorus Line – Em Busca da Fama” (A Chorus Line, 1985), pelo drama “Shirley Valentine” (1989) e pela comédia romântica “O Espelho tem Duas Faces” (1996), seu reencontro com Barbra Streisand.
007 – O Espião que Me Amava, com Roger Moore
Além de filmes premiados, ele também musicou sucessos de bilheteria, que se tornaram clássicos da sessão da tarde, como “Três Solteirões e Um Bebê” (3 Men and a Baby, 1987), comédia que faturou US$ 167 milhões somente nos EUA, e “Frankie & Johnny” (1991), romance com Al Pacino e Michelle Pfeiffer. Mas os anos 1990 marcaram o fim de sua love story hollywoodiana. Após sua última indicação ao Oscar, Hamlisch sumiu dos cinemas.
Sua aposentadoria foi interrompida por Steven Soderbergh, que o convocou para compor a trilha de “O Desinformante!” (The Informant!, 2009), após um longo hiato de 13 anos sem orquestrar filmes.
O Espelho Tem Duas Faces, com Barbra Streisand
Um pouco antes de sua morte, Hamlisch compôs a trilha da versão musical de “O Professor Aloprado” (The Nutty Professor), montagem teatral baseada no filme homônimo dirigido e estrelado por Jerry Lewis em 1963, e reprisou sua parceria com o cineasta Steven Soderbergh. E ainda chegou a terminar de musicar “Behind the Cadelabra”, filme sobre o pianista Liberace, estrelado por Michael Douglas (“Wall Street – O Dinheiro Nunca Dorme”). O filme do canal pago americano HBO será lançado no ano que vem, com a última partitura original do grande mestre.
A principal parceira de sua vida foi a compositora Carole Bayer Sager, com quem escreveu suas canções de maior sucesso. Os dois chegaram a compor juntos uma peça sobre seu relacionamento, “Esta É a Nossa Canção” (They’re Playing Our Song, em 1978). Mas, no começo dos anos 1980, se separaram – Carole se casou com o compositor Burt Bacharach e Marvin com a Terre Blair, com quem permaneceu casado até a morte.
Marvin Hamlisch




































