A aventura começa em tom sépia, tendo como cenário de fundo a Grande Depressão americana.
O protagonista é um jovem judeu americano chamado Martin Goodman. Ele tinha só 21 anos quando a economia mundial quebrou em 1929. Chegou até a viver em acampamentos de “hobos”, os sem-teto do período, que viajavam como clandestinos em vagões de trens de carga. Numa dessas viagens, Goodman chegou a Nova York, onde decidiu trocar a vida sem destino por um emprego de vendedor numa gráfica, editora e distribuidora de revistas no começo da década de 30.

Pouca gente lembra – e isso amarra a história como roteiro de cinema -, mas os futuros fundadores das rivais Marvel, DC e até Archie Comics tiveram a mesma origem na distribuidora, gráfica e editora Independent News.
Paul H. Sampliner deu a Goodman o seu primeiro emprego e lhe ensinou tudo o que sabia sobre o negócio da impressão, edição e distribuição de revistas. Pouco tempo depois, o presidente da Independent News Company também investiu seu dinheiro, como sócio capitalista, no projeto de quadrinhos de seu gerente Harry Donenfeld e seu contador Jack Liebowitz, que em 1937 imprimiram um gibi chamado “Detective Comics”, título que originou a editora DC e se tornaria o primeiro lar de Batman.
É interessante reparar que todos esses homens eram judeus. Foi quase uma reprise do que ocorreu com a indústria do cinema. Jovens ambiciosos, que enfrentavam o anti-semitismo no mercado de trabalho, juntaram-se ou competiram num filão específico, até montar sua própria indústria.
Mas Goodman demorou para ver o potencial dos quadrinhos. Ele se uniu a outro colega judeu da Independent News, Louis Silberkleit, e um contador chamado Morris Coyne para publicar “pulp fiction”, aquelas revistinhas baratas com histórias fantasiosas que hoje são editadas como livrinhos de bolso. O trio publicou histórias de muitos autores que se tornaram famosos, como Harold Robbins, Isaac Asimov e Harry Sinclair Drago, mas a ambição de ser o único dono do negócio acabou separando os sócios.
Em 1932, Goodman montou sua própria empresa, insistindo nos pulps. Um desses pulps, chamado “Ka-Zar” (1936), trazia histórias de uma espécie de Tarzan loiro. Adaptado para os quadrinhos no primeiro número da “Marvel Comics”, Ka-Zar acabou virando o personagem mais antigo de toda a cronologia Marvel.
Costuma se dar muita importância à influência dos personagens fantasiosos dos pulps de ficção científica, fantasia, crime e terror sobre as primeiras revistas quadrinhos, mas a relação entre os dois meios é ainda mais profunda. A verdade é que foram os editores de pulp fiction que iniciaram esse mercado do zero.
Foi apenas na metade dos anos 30 que começaram a surgir as primeiras revistas em quadrinhos. A princípio, elas traziam somente reimpressões de tiras publicadas nos jornais. Mas um personagem mudou tudo isso: o Superman, lançado pelos antigos colegas de Goodman.
E aqui entra em cena um oficial da cavalaria americana, Major Malcolm Wheeler-Nicholson, que escrevia em pulps como passatempo e se tornaria um dos primeiros editores de quadrinhos. Numa visita a Nova York, no final de 1934, ele reparou que as bancas traziam uma revista chamada “Famous Funnies” (a primeira publicação mensal de quadrinhos da História) e se sentiu inspirado. Ele imaginou que, se reimpressões de tiras de jornais comandavam tiragens de 100 mil exemplares, material inédito venderia ainda mais.
Não foi o caso. Sem personagens conhecidos, os dois gibis pioneiros de Wheeler-Nicholson encalharam e ele acabou se endividando com a gráfica. Para continuar publicando, o Major fez duas coisas: foi morar na casa de um de seus desenhistas (sem ser convidado) e chamou um dos gerentes da gráfica para uma conversa, oferecendo sociedade se ele lançasse seu terceiro gibi. A gráfica era a Independent News, o gerente era Harry Donenfeld e o gibi se chamava “Detective Comics”.
O que aconteceu depois tem muitas versões. A oficial, da DC Comics, cita a depressão como causa do afastamento do Major. Mas alguns livros contam essa história diferente. Donenfeld e seu sócio Liebowitz teriam mandado Wheeler-Nicholson e sua esposa numa viagem a Cuba, para que ele voltasse “com idéias frescas” a respeito de novas publicações. Mas quando o editor voltou, o que encontrou foi seu escritório lacrado e uma decisão judicial que o excluía da sociedade por conta da dívida da gráfica, que tinha motivado a sociedade em primeiro lugar.
Com o dinheiro de Paul Sampliner, Donenfeld levou adiante o plano original do Major de publicar material inédito e continuou a editar novos títulos.
Em maio de 1938, Donenfeld lançou o primeiro número de “Action Comics” com a capa histórica de Superman levantando um carro sobre sua cabeça. Por volta de sua quarta edição, “Action Comics” estava vendendo 500 mil exemplares mensalmente.
O sucesso de Superman fez todo mundo que publicava pulps querer entrar no negócio dos quadrinhos. Enquanto as vendas dos pulps caíam, a dos quadrinhos subiam, subiam e levantavam voo.
Os ex-sócios de Goodman, Louis Silberkleit e Morris Coyne juntaram-se a John Goldwater, um revendedor de revistas usadas, para formar em 1939 a editora MLJ (iniciais dos nomes dos sócios), que em 1941 lançou o gibi do Archie. O sucesso do personagem foi tanto que logo a editora virou Archie Comics, publicando também a bruxinha Sabrina e muitos outros personagens icônicos.
Quando Goodman decidiu publicar quadrinhos, o mercado já estava lotado de revistas e editoras rivais. Pior: nem sequer havia material disponível para ele entrar naquela disputa.
Nos anos 30, ainda não existiam muitos autores de revistas em quadrinhos. Os principais desenhistas do período, como Alex Raymond, Hal Foster e Milton Caniff, publicavam sua arte nos jornais. A própria DC lançava o que quer que chegasse em suas mesas, inclusive material rejeitado pelos jornais, como foi o caso do tal personagem de capa vermelha, que erguia carros, dos jovens Jerry Siegel e Joe Shuster.
Mas assim como Donenfeld foi procurado por Wheeler-Nicholson, Goodman também recebeu uma visita que mudou sua sorte.



























