Maria de Medeiros fala de cinema

MOSTRA Verdadeira multiartista portuguesa, Maria de Medeiros está na 35ª Mostra de Cinema de São Paulo com três trabalhos. Nos longas “Fim de Semana à Beira-Mar” e “Frango com Ameixas” apresenta-se como atriz, mas num curta – fragmento da antologia “Mundo Invisível” – , comparece no papel de diretora.

Em entrevista, a artista de 46 anos, que já trabalhou com cineastas do calibre de Manoel de Oliveira, Philip Kaufman e Quentin Tarantino, falou sobre sua trajetória e relações com a arte.

Silvestre

Você transita por teatro, cinema e música. Onde, de fato, começou sua carreira?

Cresci pensando em fazer belas artes (artes plásticas), até que surgiu o João Cesar Monteiro (diretor de cinema em Portugal), que me propôs o papel principal de seu filme “Silvestre” (1981). Ele foi o culpado da minha carreira (risos). O João Cesar providenciou o meu encontro com o cinema, e isso foi determinante, embora eu continuasse a fazer outras coisas. Fui para Paris estudar filosofia, fiz teatro, e a carreira de atriz se impôs sobre todas as outras possibilidades.

Com Uma Thurman em Henry & June

Fale mais de sua experiência em “Silvestre”, que foi fundamental.

Ali me apaixonei pelo cinema, especialmente pelo lado artesanal do cinema. Adoro, no cinema, o ato de fazer, em que cada pessoa é responsável por uma parte do trabalho final, nessa construção em colaboração e colocando em comum as sensibilidades de um e de outro. Nunca tive fascínio pelo glamour do cinema, nunca tive um pôster de James Dean ou Marilyn Monroe no meu quarto (risos), mas sempre tive fascínio pelos maquinistas, pelos câmeras, por todos esses que fazem mesmo os filmes.

Com Bruce Willis em Pulp Fiction

Por isso você começou a dirigir ainda bastante jovem?

Comecei rápido, aos 19 anos, num projeto que era uma forma de voltar às belas artes, ao enquadramento, às cores, à luz, ao movimento. Fiz também alguns filmes muito inspirados em teatro, no caso, Samuel Beckett, e na poesia de Fernando Pessoa.

Porto da Minha Infância

E como sua carreira fora de Portugal foi sendo construída?

Muito rápido fui morar na França, eu sempre busquei uma carreira que me levasse a viajar. Cresci na Áustria e viajava muito para Portugal durante minha infância. Então a noção de viagem ficou inscrita na minha personalidade. Sempre me senti muito europeia, acima de tudo, muito antes de existir um governo europeu, um território em comum.

O Contador de Histórias

Gostaria que falasse de como foi trabalhar com Manoel de Oliveira, em “A Divina Comédia” (1991) e “Porto da Minha Infância” (2001).

Admiro muito Manoel e penso que todos nós, do cinema português, devemos demais ao Leon Cakoff (curador e fundador da Mostra de Cinema de São Paulo, morto há duas semanas) pela divulgação dos filmes portugueses aqui no Brasil, em particular o trabalho de Manoel. Fiquei feliz de estar em “A Divina Comédia” e ainda mais feliz num filme muito mais discreto, que é o “Porto da Minha Infância”, no qual tive a sorte de contracenar com o próprio Manoel. O trato com ele é sempre maravilhoso.

Filmando Bem-Vindo a São Paulo

Mesmo com uma trajetória internacional, você segue carinhosa ao cinema português, não?

É o meu berço, é um cinema muito livre na sua criatividade. Alguém como Manoel de Oliveira dá uma grande lição, que é a liberdade criativa a estar sempre a dizer que você pode tentar tudo nos filmes. E todo o cinema português se cruza muito com a literatura, e isso é uma coisa muito bonita. Sou muito favorável ao cruzamento e mestiçagem entre as artes.

O Mundo Invisível

No Brasil, você atuou em “O Xangô de Baker Street” (2001) e “O Contador de Histórias” (2009), além de ter dirigido um curta-metragem sobre São Paulo, a pedido de Leon Cakoff. Como é sua relação com o país?

Sou superfã do cinema brasileiro e da cultura brasileira em geral. Em Portugal, crescemos muito ligados à música de vocês, às novelas, sempre adorei os atores e aprendi muito com eles vendo a televisão. Efetivamente, podia-se trabalhar e desenvolver muito mais a nossa relação, e por isso sempre fiquei feliz quando pude vir trabalhar no Brasil. Minha primeira vez aqui foi com teatro, num intercâmbio cultural nos anos 1980, com a França. E agora estou apresentando um curta meu, filmado em São Paulo com atores brasileiros, e isso, para mim, foi o máximo, por trabalhar com profissionais que admiro tanto.

Frango com Ameixas

Em 2003, você dirigiu “Je T’aime… Moi Non Plus”, documentário sobre críticos de cinema. Como veio esse interesse?

Surgiu quando fui júri no Festival de Cannes, em duas ocasiões. O júri vê filmes em todas as seções (competição, Quinzena dos Realizadores, Um Certain Regard), e muitas vezes nós estávamos sentados ao lado dos críticos. Eu via algumas discussões depois dos filmes e achava uma delícia! Essas pessoas veem milhares de filmes por ano, e o que me intrigava é como conseguem manter a paixão, discutir, estarem em desacordo, defender seus pontos de vistas com toda essa paixão inesgotável. Essa foi a origem do projeto. Durante o filme, vieram várias anedotas contadas de forma muito sincera e relaxada por alguns entrevistados, porque eles entenderam que a minha perspectiva era muito descontraída, que meu tema tinha a ver com considerações estéticas sobre formas de receber uma obra de arte, algo sempre muito misterioso.

Fim de Semana à Beira-Mar

Como você se relaciona com a crítica?

Como disse o Caetano Veloso, num depoimento que está no filme, é evidente que a crítica precisa existir, mas sem complacência, nós (artistas) também temos que brigar com ela.

+ Marcelo Miranda

Marcelo Miranda é crítico de cinema do jornal O Tempo, de Belo Horizonte, foi curador do Festival de Brasília 2010 e é colunista da revista eletrônica Filmes Polvo. Você pode acompanhar suas matérias também no blog do Polvo.

Deixe um comentário

Add your comment below, or trackback from your own site. You can also subscribe to these comments via RSS.

Seu email nunca aparece.