Há uma tendência cada vez mais presente na atual produção do cinema brasileiro, que são filmes sobre a espera da violência. Se já era algo meio insinuado no seminal “O Invasor” (2001), a perturbação dessa espera se tornou força motor de, entre outros, “Cafuné” (2005), “No Meu Lugar” (2009), “Os Inquilinos” (2010) e agora em “Cabeça a Prêmio”.
“Cabeça a Prêmio”, estreia na direção do ator Marco Ricca, tematiza (e problematiza) os medos oriundos das potenciais explosões de sangue que insistem em pipocar nos programas e jornais sensacionalistas. Essa “cultura do aguardo”, às vezes, pode enlouquecer tanto ou mais que os estouros explicitados em “Tropa de Elite” (2007) ou “Cidade de Deus” (2002).
“O cinema é uma resposta da sociedade. E, hoje, do que vamos falar?”, questionou Ricca, em entrevista realizada durante o recente Festival de Tiradentes, em Minas Gerais. “As nossas pequenas dores estão se transformando em explosões, e o cinema retrata um momento da reflexão humana, como, aliás, deve ser toda atividade do pensamento”.
Especificamente sobre “Cabeça a Prêmio”, adaptado de um romance do escritor paulista Marçal Aquino, Ricca diz ter encontrado ali o tipo de coisa que lhe interessava falar. “Seria inviável transpor o livro como ele realmente é, por suas cenas episódicas e o mosaico enorme de personagens. Resolvemos narrar a história mais linearmente, o que nos ajudou a aprofundar as relações humanas e contar o enredo através da profundidade daquelas pessoas”.
“Cabeça a Prêmio” acompanha uma família, uma dupla de matadores e um piloto clandestino às voltas com seus conflitos pessoais e profissionais. Todos estão sempre esperando algum novo fato violento acontecer – por mais que sejam, às vezes, figuras ativas, eles dependem das escolhas morais de terceiros. “É um filme que vai contra clichês e psicologismos”, define Ricca.
Nesta semana, em nova entrevista para o lançamento do filme, ele elaborou mais sua explicação. “A fronteira faz quase uma analogia [com o filme]”, diz o diretor. “É o limite, é um pouco como esses personagens estão. É uma metáfora para os personagens, que estão em crise. As atrocidades que podem acontecer em cidades fronteiriças são pano de fundo para as histórias dos seres humanos, com suas vicissitudes, seus erros e acertos e, principalmente, histórias relacionadas ao amor, essa história subversiva da humanidade.”
“Cabeça a Prêmio tem sido comparado aos filmes do cineasta Beto Brant, cheio de matadores e violência, e Marco Ricca confirma que os dois têm muito em comum. “É uma quadrilha”, ele elaborou, aos risos, referindo-se ao grupo formado por ele, Brant e o roteirista Marçal Aquino, autor do livro que inspirou “Cabeça a Prêmio”. Ricca foi ator do antológico “O Invasor” e produtor de “Crime Delicado” (2005), dois dos melhores filmes de Beto Brant. “Em ‘Crime Delicado’, eu escrevi o roteiro com o Marçal e com o Beto. Foi meu primeiro projeto de cinema, que eu produzi e protagonizei e chamei o Beto para dirigir”. contou.
Ele explica o que o atrai nesse tipo de história. “Os matadores têm uma aura meio mole, parecem puros, quase uma ingenuidade, ao mesmo tempo são cruéis para ‘burro’”, argumenta. “Essa dualidade, de certa forma, é um dos traços dos personagens do Marçal, que tem esses personagens um pouco díspares, pelas suas questões morais”. E conclui: “Além de ser meu amigo, eu sou muito fã do Marçal, da literatura dele. É uma honra poder começar com uma adaptação de um livro dele, e acho até natural”.
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