Como Marc Webb filmou o Homem-Aranha

Hoje, parece óbvia a escolha de Marc Webb para a direção de “O Espetacular Homem-Aranha”, quarto filme do mais popular personagem da Marvel, e não por conta do trocadilho com seu sobrenome (“web”, em inglês, significa “teia”).

Webb é o diretor de “(500) Dias com Ela” (2009), uma deliciosa história contada com uma linguagem pop sobre um jovem de uma cidade grande tendo de lidar com as dúvidas da vida pessoal, profissional e amorosa. De certa forma, são as mesmas agruras de Peter Parker, garoto que precisa tirar notas boas na escola, arrumar algum trocado para sair com a loira Gwen Stacy e ainda se desviar das balas de bandidos e policiais vestido como o Homem-Aranha.

Mas o jovem diretor de 37 anos ainda parece não acreditar que tenha sido escolhido pela Sony para comandar um dos blockbuster mais aguardados de 2012. “Sabe, parece meio maluco”, ele disse durante a rodada de entrevistas com a imprensa, com aparente honestidade. Afinal, são raríssimos os diretores que conseguem saltar de seu longa-metragem de estreia, que custou risíveis US$ 8 milhões de dólares, para gerenciar uma megaprodução acima de US$ 200 milhões.

Ainda mais porque, depois de passar mais de seis meses se reunindo com os engravatados da Fox Searchlight para que eles bancassem “(500) Dias com Ela”, “O Espetacular Homem-Aranha” praticamente caiu em seu colo.

Sam Raimi ainda estava envolvido no projeto “Homem-Aranha 4” quando o estúdio sondou Webb, afinal o cineasta da trilogia original não conseguia encontrar o tom da nova história e mostrava-se desanimado, principalmente depois de ser forçado pelos produtores a incluir o vilão Venon no equivocado “Homem-Aranha 3” (2007). Apesar de arrecadar US$ 1,5 bilhão, a franquia dava claros sinais de desgaste e, antes que a teia se rompesse, a Sony tomou uma decisão radical: optou por reiniciar a saga do personagem do cinema, apenas dez anos após o primeiro filme e há cinco do mais recente.

Os fãs ficaram desconfiados, os veículos especializados gritavam que o filme nascia desnecessário e Marc Webb simplesmente relaxou. “Os filmes do Homem-Aranha têm muitos apelos: romance, gravidade, ação, humor… eles são confiáveis, comercialmente”, explicou o diretor.

Sua tranquilidade também foi reforçada porque o roteirista James Vanderbilt (“Zodíaco”) encontrou um frescor na nova trama, focando no abandono de Peter Parker por seus pais. “Aqui está um garoto de seis, sete anos de idade que é deixado para trás por seus pais. Isso tem enormes consequências emocionais que não apareceram nos filmes anteriores”, sugeriu Webb.

A história, na verdade, não é uma novidade, pois já foi utilizada no universo Marvel Millenium, onde mostrava Richard Parker, pai de Peter, como um cientista que acidentalmente criou Venon. Para o filme, o vilão foi substituído pelo Lagarto, que apareceu na trilogia original apenas de forma tímida. Webb, por outro lado, não teve qualquer timidez e telefonou para o diretor Sam Raimi e para Tobey Maguire, antigo intérprete de Peter Parker/Homem-Aranha, para tirar dúvidas pontuais.

O cineasta também foi pedir a bênção a Stan Lee, criador do personagem há exato meio século. Durante o bate-papo, aproveitou para perguntar à lenda viva (que, é claro, aparece no filme) porque muitos super-heróis dos quadrinhos são órfãos. Ele esperava uma resposta psicanalítica, mas ouviu a simplista (e eficiente) “É só uma maneira de tirá-los de casa”.

Com a história definida e o elenco escalado – liderado por Andrew Garfield (“A Rede Social”) como Peter Parker/Homem-Aranha, Emma Stone (“Histórias Cruzadas”) como Gwen Stacy e Rhys Ifans (“Anônimo”) como o Dr. Curt Connors/Lagarto –, o diretor tinha mais uma missão: trazer alguma novidade visual para o filme.

Oriundo do mundo da publicidade, dos clipes musicais, e realizador de apenas um filme independente, Webb também tinha uma certeza: queria evitar a todo custo o uso de efeitos digitais nas cenas de ação. “Estamos saindo da ‘Era Barroca’”, teorizou o diretor, citando o sucesso (crítico e comercial) do realismo de filmes como os “Batmans” de Christopher Nolan, em detrimento da infantilização e exageros de outras adaptações de super-heróis, como “Lanterna Verde” (2011).

Sempre que pôde, o diretor optou por utilizar dublês pendurados em gruas de até 90 metros a mandar criar por computador um Homem-Aranha digital balançando em sua teia, como nos filmes de Raimi. Até porque Webb queria concentrar toda a tecnologia digital num único foco: o 3D.

Sabiamente, o filme foi filmado em 3D, cuja qualidade na tela grande é visivelmente melhor do que as conversões. Além disso, o diretor garante que o recurso foi utilizado como linguagem visual, não como truque comercial. “Ele (o 3D) vai refletir o personagem: será leve e modesto no início e, então, aumentará a profundidade e o alcance conforme evolui o universo do filme”, ponderou.

Como inspiração, Webb apostou na tridimensionalidade volumosa de “Pina” (2011), de Wim Wenders, e considerou: os espectadores irão experimentar os “3V do 3D: volume, velocidade e vertigem. Elementos como a água da chuva, cinzas e sujeiras parecerão palpáveis, garante o diretor.

Para chegar a seu conceito, ele passeou a pé pelas ruas de Nova York para imaginar como seria, caso pudesse disparar teias pelos braços, voar entre os arranha-céus da cidade. “Você sente como se estivesse dentro do ambiente”. Este é o volume; a velocidade será sentida nos momentos de ação, com as piruetas e confrontos físicos; já a vertigem aparecerá quando o herói balançar pelos altos prédios de Manhattan. “Eu queria criar essa sensação de que você está com o Homem-Aranha naquele momento”, contou empolgado.

A empolgação só arrefece quando ele se dá conta do que poderia ter acontecido se o filme fracassasse nas bilheterias. “Não sei se gostaria de passar novamente pela pressão de atender às expectativas de um filme deste tamanho”, suspirou, demonstrando resquícios de receio. A Sony Pictures já confirmou que “O Espetacular Homem-Aranha” será uma trilogia, e a trama do filme deixa claro que a história continua, postergando as respostas para alguns mistérios. “Este tipo de filme tende a ter sequências, e caberá ao público nos dizer se quer que a história continue”, concluiu.

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Leia também a entrevista:

E confira as críticas:

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+ Leonardo Vinicius Jorge

Leonardo Vinícius Jorge é jornalista, crítico de cinema e autor do livro “12 de Setembro: O Cinema Hollywoodiano Após os Atentados Terroristas que Mudaram o Mundo”.

2 Comentários

  • camily Identicon Icon camily
    10 de julho de 2012 | Permalink | Responder

    diz a ele que eu amo ele

  • Marcelo Identicon Icon Marcelo
    8 de julho de 2012 | Permalink | Responder

    Qual as duas músicas que tocam no inicio do filme? Pois a trilha sonora disponibilizada só possui instrumental, porém houve duas músicas com letra no filme e que não estão listadas.

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