Mãe e Filha visita a morte no fim de mundo do sertão

O sertão do cearense Petrus Cariry é o lugar onde as pessoas vem para ser enterradas. Não se sabe ao certo se isso sugere uma forte ligação com a terra natal ou seu oposto simétrico, fato é que todas as cenas de “Mãe e Filha”, seu longa de estreia, jogam com essa dualidade de fazer, ou não, parte de um lugar.

Quem leva o espectador por essas questões é a Filha, que volta trazendo numa caixa seu filho, morto, para que a Mãe o abençoe. Assim que põe os pés no lugar nenhum que é a cidade fantasma onde sua mãe mora, ela é recebida por um verde muito incomum nos sertões do cinema, e por vaqueiros, quatro, que se apresentam quase como cavaleiros do apocalipse. Esse é só o primeiro de muitos e muitos signos que Petrus insere seu filme, e um dos mais simples também.

As casas em ruínas, a galinha sacrificada, uma pintura clássica surgindo fora de seu habitat, o apagar das velas, são todas imagens poderosas, mas que exigem muito esforço para serem conectadas.

Se o diretor propõe um jogo ele não deixa muito claro, especialmente quando chegamos ao final alegórico. É mais fácil se concentrar num outro jogo, mais óbvio, que é a relação conturbada entre as protagonistas.

Ausente por quase 20 anos, a filha não se sente mais parte daquele geografia, não conseguindo passar nem mesmo um dia inteiro sem avisar que aquela é uma visita rápida. A mãe destila um rancor atravessado por entre os dentes, enquanto procura maneiras de não mais ficar sozinha. Esse comportamento que beira a obsessão, incorporado tão bem por Zezita Matos, é uma das grandes qualidades do roteiro de Cariry.

Quem abandonou, quem foi abandonado e, mais importante, quem fez mal a quem, são as perguntas que acompanham os lentos 80 minutos de duração, e provavelmente algumas horas após a sessão também.

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Mãe e Filha

Imagem de Amostra do You Tube
(Brasil, 2011)

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 ★★★☆☆ 

+ Felipe André

Felipe André é cinéfilo profissional. Usa boa parte do seu tempo em salas de cinema e gasta a outra parte escrevendo sobre o que acabou de ver. Também é cineclubista e adora exibir filmes que ninguém viu, por isso tem uma quedinha pelo cinema independente de todas as partes do mundo. Atualmente reside em Recife, mais precisamente no cinema mais próximo. Leia também no Kinemail.

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