O sertão do cearense Petrus Cariry é o lugar onde as pessoas vem para ser enterradas. Não se sabe ao certo se isso sugere uma forte ligação com a terra natal ou seu oposto simétrico, fato é que todas as cenas de “Mãe e Filha”, seu longa de estreia, jogam com essa dualidade de fazer, ou não, parte de um lugar.
Quem leva o espectador por essas questões é a Filha, que volta trazendo numa caixa seu filho, morto, para que a Mãe o abençoe. Assim que põe os pés no lugar nenhum que é a cidade fantasma onde sua mãe mora, ela é recebida por um verde muito incomum nos sertões do cinema, e por vaqueiros, quatro, que se apresentam quase como cavaleiros do apocalipse. Esse é só o primeiro de muitos e muitos signos que Petrus insere seu filme, e um dos mais simples também.
As casas em ruínas, a galinha sacrificada, uma pintura clássica surgindo fora de seu habitat, o apagar das velas, são todas imagens poderosas, mas que exigem muito esforço para serem conectadas.
Se o diretor propõe um jogo ele não deixa muito claro, especialmente quando chegamos ao final alegórico. É mais fácil se concentrar num outro jogo, mais óbvio, que é a relação conturbada entre as protagonistas.
Ausente por quase 20 anos, a filha não se sente mais parte daquele geografia, não conseguindo passar nem mesmo um dia inteiro sem avisar que aquela é uma visita rápida. A mãe destila um rancor atravessado por entre os dentes, enquanto procura maneiras de não mais ficar sozinha. Esse comportamento que beira a obsessão, incorporado tão bem por Zezita Matos, é uma das grandes qualidades do roteiro de Cariry.
Quem abandonou, quem foi abandonado e, mais importante, quem fez mal a quem, são as perguntas que acompanham os lentos 80 minutos de duração, e provavelmente algumas horas após a sessão também.
Mãe e Filha
(Brasil, 2011)

































