Madagascar 3 arma o circo em Cannes

CANNES A turma da animação “Madagascar” montou o circo no Festival de Cannes para apresentar a terceira parte da franquia da Dreamworks. Ben Stiller (voz do leão Alex), Chris Rock (a zebra Marty), David Schwimmer (a girafa Melman) e Jada Pinkett-Smith (a hipopótomo Gloria) estiveram na Riviera Francesa para conversar com jornalistas durante a entrevista coletiva realizada logo após a exibição do longa-metragem “Madagascar 3: Os Procurados”.

Se nos dois primeiros filmes o quarteto saiu dos Estados Unidos para arrumar confusão no continente africano, agora os personagens vão à Europa, passando por Londres, Roma e Paris. Para fugir da absurda ideia de colocar os animais correndo pelas ruas do Velho Mundo, os roteiristas Eric Darnell e Noah Baumbach tiveram a sacada de colocá-los como integrantes de um circo itinerante. Desta forma, a história sai no lucro duas vezes: primeiro, porque entram em cena novos personagens, os outros animais do circo; e depois porque os protagonistas ganham a chance de voltar para Nova York por meio das viagens e das apresentações circenses.

Mas lançar “Madagascar 3” no Festival de Cannes, um evento marcado pela reunião dos filmes de arte do mundo todo, não seria um exagero da Dreamworks? “Nosso longa é sobre viajar para a Europa e que lugar deveríamos lançá-lo se não em Cannes?”, respondeu Tom McGrath, um dos diretores da animação, ao lado de Eric Darnell e Conrad Vernon.

McGrath levou a sério a exibição do filme no festival, fora de competição, mas Ben Stiller topou a piada. “Ter minha voz numa produção em Cannes é um primeiro passo para realmente estar aqui com um filme”, brincou, lembrando que está em pleno processo de filmagens de “The Secret Life of Walter Mitty”, seu novo trabalho como diretor.

Em sua terceira vez dublando o leão Alex – cuja juba o ator disse ser semelhante ao seu cabelo nos anos 1980 –, Stiller contou ter entrado no personagem com mais facilidade: “No primeiro filme, não conhecíamos bem a história. Agora, com um roteiro bem definido, foi bem mais tranquilo.”

Jada Pinket-Smith, por outro lado, revelou não ter tido tanta tranquilidade como Stiller ao retornar à hipopótama Gloria, mas por motivos pessoais. Em “Madagascar 2 – A Grande Escapada” (2008), sua filha Willow Smith fez uma pequena participação, o que provocou um leve motim em casa. “Agora meu outro filho (Jaden Smith, de “Karate Kid”) queria que eu conversasse com o produtor para incluir neste filme um rap que ele compôs”, contou aos risos a esposa de Will Smith (“Homens de Preto”).

Assim como o inseguro Ross, seu inesquecível personagem da série “Friends”, David Schwimmer também não viu a terceira parte de “Madagascar” como um trabalho simples, por um único motivo: a crueza de dublar sozinho, numa cabine, sem outros atores ou cenário. “É muito libertador, mas às vezes é mais difícil”, confessou. “É um processo infantil, é preciso liberar a criança dentro de você. Mas é incrível ver o resultado final, quando juntam nossas vozes”, ele disse.

Experiente no teatro e em plena ascensão com uma indicação ao Oscar por “Vidas Cruzadas”, Jessica Chastain é novata na franquia, onde interpreta a sensual onça Gia, mas já conhece o Festival de Cannes: ela esteve na França no ano passado como uma das estrelas de “A Árvore da Vida”, vencedor da Palma de Ouro. Ela também achou que não é tão simples dublar personagens. “É um desafio tentar expressar-se apenas com sua voz e não com seu rosto ou corpo”, ela explicou. “Num certo momento, fiquei até com vergonha porque tinha que fazer aquelas coisas malucas diante de um vidro”. Jessica

“Madagascar 3: Os Procurados” é o primeiro filme da franquia realizado com a tecnologia 3D – que numa animação costuma funcionar melhor do que nos filmes live-action. Agora, a divertida zebra Marty terá suas listras tridimensionais em pleno picadeiro e com a magia do circo, num resultado que agradou o ator e comediante Chris Rock. “Ficou mais colorido, é quase como se fosse um filme do Baz Luhrmann (“Moulin Rouge”) ou uma pintura do Salvador Dalí ou uma fotografia do David LaChapelle.”

A animação recebeu elogios na exibição em Cannes por resgatar um pouco do espírito amalucado do primeiro filme, além de fazer citações a outras obras cinematográficas, de “Um Golpe à Italiana” (1969) à “Matrix” (1999). Apesar de algumas críticas sugerir que a animação caiu na armadilha de flertar com estereótipos europeus, houve quem elogiasse o frescor da nova ambientação e os cenários circenses, além da inclusão de novos personagens, como o tigre Vitaly (Bryan Cranston, da série “Breaking Bad”) e o leão marinho Stefano (Martin Short, de “Três Amigos!”).

Short ainda sugeriu que a franquia pode não parar no número 3 e citou o antigo programa do colega de elenco David Schwimmer como justificativa. “Filmes como esse são como as séries de TV. ‘Friends’ não teve 10 temporadas? Enquanto tivermos criatividade para fazer mais, vamos em frente”.

É claro que a motivação da Dreamworks está relacionada ao retorno financeiro mais do que pela questão da criatividade. A primeira animação dos animais fujões do zoológico nova-iorquino arrecadou US$ 533 milhões pelo mundo e o segundo faturou ainda mais, US$ 604 milhões. Agora é esperar até 7 de junho, data da estreia mundial, para conferir se a franquia impressiona com a magia circense ou se estatela no picadeiro.

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+ Leonardo Vinicius Jorge

Leonardo Vinícius Jorge é jornalista, crítico de cinema e autor do livro “12 de Setembro: O Cinema Hollywoodiano Após os Atentados Terroristas que Mudaram o Mundo”.

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