Lição de A Guerra dos Botões permanece atemporal

“A Guerra dos Botões” é um grande clássico infantil, tanto na literatura quanto no cinema. O livro de Louis Pergaud foi lançado na França em 1913, às vésperas da 1ª Guerra Mundial. Quem tiver interesse no livro pode encontrar em catálogo uma edição da Ática de 1995.

O primeiro filme que adaptou a história da guerra dos botões é de 1936, dirigido por Jacques Daroy. Há uma versão inglesa: “War of the Buttons”, de John Roberts, de 1994. Mas a mais famosa, que se tornou tão clássica quanto o próprio livro, é a película dirigida por Yves Robert, em 1962, em preto e branco. Além de “A Guerra dos Botões”, o diretor, roteirista e ator Yves Robert realizou uma obra significativa no cinema – vale destacar dois outros filmes admiráveis, ternos e inteligentes, de narrativa clássica: “A Glória de Meu Pai” e “O Castelo de Minha Mãe”, ambos de 1990, adaptando obras literárias de Marcel Pagnol, e que podem ser encontrados em DVD.

“A Guerra dos Botões” fatalmente teria de merecer novas adaptações cinematográficas, já que a história é ótima e agrada tanto às crianças quanto aos adultos. A atual versão, com certeza, não será a última. Outras devem vir.

O filme francês de 2011, de Yann Samuell, traz a ação para o ano de 1960, em que os botões já não eram a única forma de fechar as roupas. Já havia zíper. Mas nem por isso os botões deixaram de ser importantes, o são até hoje.

Crianças e adultos podem se divertir muito bem com mais essa produção francesa, feita com base na história antiga, mas sempre pertinente. Por meio dela, adentramos no universo infantil das crianças que conviviam de forma intensa entre elas e com a natureza, em brincadeiras que alimentarão para sempre a criatividade delas. A agressividade tinha meios de se expressar e encontrava limites. A busca por autonomia, representada pelo personagem do menino Lebrac (Vincent Bres), vincula-se ao desafio de crescer administrando a própria liberdade. Fazendo escolhas.

O retrato mais comum da infância, hoje, remete às grandes cidades, com sua violência urbana, às realidades virtuais e a limites mais estreitos na liberdade de ir e vir dos pequenos. E, portanto, postergando a conquista da autonomia. Talvez, por isso mesmo, o retrato que nos traz “A Guerra dos Botões” seja ainda tão sedutor e atraente. Como sempre foi, desde o começo do século passado.

Para quem ainda não conhece a história, vamos apenas situá-la. Meninos entre 7 e 14 anos, de duas aldeias vizinhas, cultivam uma rivalidade histórica, que seus avós, pais e irmãos mais velhos também cultivaram. E promovem verdadeiras batalhas, opondo os Velrans e os Longevernes. Estilingues, paus e pedras, além de frutas que emporcalham os corpos e suas roupas, são ingredientes habituais dessas guerras.

Um dia, uma tática acaba se revelando muito efetiva. Ao capturar um adversário, cortar-lhe todos os botões da roupa, deixando-o desengonçado, com a roupa caindo e, pior, com castigo seguro dos pais.

Daí é que vêm as guerras de botões, que incluirão muitos ingredientes curiosos e divertidos. No caso do filme atual, com direito à participação de uma menina em papel de destaque. Afinal, se estamos em 1960, as conquistas femininas já estão acontecendo. Uma história baseada só nos meninos, como a original, soaria anacrônica.

Outro aspecto destacado agora é o do papel indutor dos adultos nessas guerras infantis, acentuando o ridículo dessas rivalidades – que, no entanto, elas parecem ser eternas, como os diamantes.

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A Guerra dos Botões

Imagem de Amostra do You Tube
(La Guerre des Boutons, França, 2011)

 ★★★☆☆ 

+ Antonio Carlos Egypto

Psicólogo educacional e clínico,sociólogo e crítico de cinema. Membro fundador do GTPOS – Grupo de Trabalho e Pesquisa em Orientação Sexual. Autor de “Sexo, Prazeres e Riscos, “Drogas e Prevenção: a Cena e a Reflexão” e “Orientação Sexual na Escola: um Projeto Apaixonante”, entre outros. Cinéfilo desde a adolescência, que já vai longe, curte tanto os clássicos quanto o cinema contemporâneo de todo o mundo. Tem críticas publicadas habitualmente no Cinema com Recheio e nos sites GTPOS.org, Pipoca Moderna e na Confraria Lumière, um e-group que reúne críticos e cinéfilos. Associado à Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema).

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