Leon Cakoff (1948 – 2011)

Morreu na tarde desta sexta-feira (14/10) o crítico, cineasta e fundador da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo Leon Cakoff. Desde dezembro do ano passado, Cakoff lutava contra um câncer que atinge o tecido epitelial – ele estava internado há duas semanas no Hospital São José, na cidade de São Paulo.

Nascido em Aleppo, na Síria, em 25 de junho de 1948, o descendente de armênios Leon Chadarevian chegou com a família ao Brasil aos oito anos de idade e formou-se sociólogo e antropólogo na Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Ele começou a carreira como crítico de cinema com 19 anos, escrevendo para o “Diário da Noite” e para o “Diário de São Paulo” e adotou o pseudônimo Cakoff após ter um artigo censurado pelo regime militar.

Leon Cakoff na Avenida Paulista

Em 1974, Cakoff assumiu o Departamento de Cinema do Museu de Arte de São Paulo (MASP). Foi quando começou a exibir filmes que não tinham espaço no circuito comercial, dominado pelas pornochanchadas, como produções de Herzog e Fassbinder, que ele descobria em viagens aos festivais da Europa. “Queria conhecer coisas novas que não tinham espaço na programação dos cinemas brasileiros. Sempre fui movido pela insatisfação”, recordou-se em entrevista recente.

O sucesso daquelas mostras fez germinar uma ideia em Pietro Maria Bardi, o fundador do MASP. “Leon, invente alguma coisa para comemorar os 30 anos do MASP”, teria dito Bardi em 1977. E assim foi criada a 1ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo – com 16 longas e 7 curtas nacionais e internacionais.

Com o cineasta português Manoel de Oliveira e o ator Ricardo Trêpa

Como qualquer atividade ligada às artes durante a ditadura, as primeiras edições da Mostra simbolizaram também uma resistência cultural. Em plena época do “Ame-o ou Deixe-o”, Cakoff ousou exibir o cinema proibido de países comunistas e filmes que desafiavam os limites da censura.

Para furar o bloqueio imposto pelo governo, utiliza-se de malas diplomáticas de embaixadas e consulados para divulgar filmes inéditos de países como China, Cuba e União Soviética. E promoveu temas como “liberdade”, “revolução” e “humanismo”. A ditadura chegou, inclusive, a interromper o festival após a exibição de “O Estado das Coisas”, de Wim Wenders, em 1984.

Com o cineasta alemão Wim Wenders

A Mostra destacou-se, também, por permitir aos brasileiros vislumbrar o que era a democracia por meio do prêmio com voto popular. Na época, o Jornal do Brasil chegou a publicar um artigo que dizia que “a Mostra é o único lugar onde se pode votar no país”.

A cada ano, o evento cresceu mais, mesmo enfrentando problemas perenes como a burocracia brasileira, a falta de patrocínio e, desde o final dos anos 1980, a concorrência do ambicioso Festival do Rio.

Com os atores Benício del Toro, Rodrigo Santoro e a produtora Laura Bickford

Foi por meio da Mostra que o público brasileiro teve acesso à cinematografia de diversos países, nunca antes representados nas telas do país. E conheceu diretores que se tornariam famosos como Wim Wenders, Pedro Almodóvar e até Quentin Tarantino, sem esquecer de cineastas que ainda hoje enfrentam dificuldades em penetrar no circuito alternativo, como o português Manoel de Oliveira, o iraniano Abbas Kiarostami e o israelense Amos Gitai.

Cakoff escreveu quatro livros: “Gabriel Figueroa – O Mestre do Olhar” (uma grande entrevista com o diretor mexicano), “Ainda Temos Tempo” (crônicas sobre suas viagens pessoais ligadas ao cinema), “Cinema sem Fim” (sobre os 30 anos da Mostra) e “Manoel de Oliveira” (outra grande entrevista com um mestre).

Com o cineasta Braulio Mantovani e o ator Matheus Nachtergaele

Mas ele não se limitou à crítica e curadoria e experimentou fazer cinema: dirigiu com a esposa Renata de Almeida os curtas “Volte Sempre Abbas” (1999) e “Natureza-Morta” (2004), além de “Esperando Abbas” (2004). Também produziu o filme “Bem-Vindo a São Paulo”, que reúne curtas dirigidos por 12 cineastas, como Phillip Noyce, Maria de Medeiros, Daniela Thomas e Tsai Ming-Liang, exibido na 28ª Mostra, e “O Mundo Invisível”, que será apresentado na edição deste ano, nova seleção de curtas de diretores como Wim Wenders e Atom Egoyan.

Ele também cedeu a convite de cineastas amigos para atuar na frente das câmeras. Participou de “Caçada Sangrenta” (1974), de Ozualdo Candeias, e interpretou Getúlio Vargas em “O País dos Tenentes” (1987), de João Batista de Andrade. Ainda foi personagem do curta “Do Visível ao Invisível” (2005), do português Manoel de Oliveira, que ele próprio produziu. A amizade formada com o diretor centenário acabou se estendendo para a produção de “O Estranho Caso de Angélica” (2010), lançado no Festival de Cannes, e do ainda inédito “A Igreja do Diabo”, projeto que Oliveira rodaria no Brasil com Fernanda Montenegro e Lima Duarte.

Com a mulher e parceira Renata de Almeida

Para completar sua atuação e contribuição, Cakoff criou com Adhemar Oliveira, Patrícia Durães e Renata de Almeida a distribuidora Mais Filmes, responsável por lançar produções autorais nos cinemas brasileiros. Com sua esposa, criou ainda o selo Filmes da Mostra, lançando em DVD coleções cinematográficas. Também era sócio, com os três parceiros da distribuidora Mais, do Unibanco Arteplex, que ousou incluir filmes de arte numa rede multiplex.

Casado há 22 anos com Renata de Almeida, Leon Cakoff teve dois filhos com ela, além de outros dois do primeiro casamento. Seu pedido para a parceira das últimas décadas foi continuar a Mostra e continuar a ousar. A 35ª edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo tem início na próxima sexta (21/10) e exibirá, pela primeira vez, uma programação exclusiva, formada por filmes internacionais inéditos, que não tiveram passagem em nenhum outro festival do Brasil.

+ Leonardo Vinicius Jorge

Leonardo Vinícius Jorge é jornalista, crítico de cinema e autor do livro “12 de Setembro: O Cinema Hollywoodiano Após os Atentados Terroristas que Mudaram o Mundo”.

Deixe um comentário

Add your comment below, or trackback from your own site. You can also subscribe to these comments via RSS.

Seu email nunca aparece.