O cineasta dinamarquês Lars Von Trier sequer se recuperou da última polêmica em que se envolveu e já está partindo para a próxima. Por última polêmica, entenda as piadas sobre o nazismo que proferiu durante entrevista no último Festival de Cannes, onde apresentava seu novo trabalho “Melancolia”. Pagou preço alto pelos comentários infelizes, sendo declarado persona non grata pelo evento, com quem tinha um histórico de considerável prestígio. E, por próxima polêmica, entenda o novo projeto do diretor, “Nymphomaniac”, que já está dando o que falar mesmo sem a boca grande de Von Trier.
“Nymphomiac” surgiu como uma piada em Cannes, a respeito das cenas de nudez de Kirsten Dunst, quando o cineasta anunciou que seu próximo filme teria sexo explícito. Na verdade, a trama acompanhará a evolução sexual de uma mulher, desde o nascimento até os 50 anos de idade, e não se acanhará nas cenas de sexo, com direito a retratar penetrações.
Provocante, mas nem tanto para o repertório do diretor: em filmes como “Ondas do Destino” (1996), “Dançando no Escuro” (2001), “Dogville” (2003), “Anticristo” (2009) e o próprio “Melancolia”, Lars demonstrou a tendência a desenvolver papeis femininos fortes e sem atenuantes. Também flertou com o explícito em “Os Idiotas” (1998) e mostrou sexo não-simulado entre os personagens de Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg em “Anticristo” (os atores foram substituídos por dublês de corpo nas respectivas sequências).
Nessas ocasiões, porém, o diretor era quase blasé a respeito, como se não estivesse transgredindo em nada as barreiras do aceitável. Quando se refere a “Nymphomanic”, o tom muda: Von Trier faz questão de garantir que o filme será indigesto para alguns. Por outro lado, jamais sugere que as suas opções poderão ser gratuitas ou despropositadas.
“Como um radical cultural, eu não posso fazer um filme sobre a evolução sexual da mulher sem mostrar penetração”, justificou, quando perguntado a respeito. Lars admite, entre risos, que o filme é “europeu demais” para o que os espectadores do lado de cá do Atlântico o apreciam sem se chocar, mas esclarece suas intenções. “Não quero dizer que farei um pornô. Principalmente, será um filme com muito sexo e muita filosofia”, comentou.
Ele compreende, contudo, o que isso significa para um cinema que, como o dele, tem disseminação relativamente ampla e garantida, e considera a ideia de lançar o projeto em duas versões: o corte do diretor, sem ressalvas, e uma versão mais branda. “Depende de como conseguirei financiamento”, disse Von Trier, que atualmente trabalha no roteiro.
Essa decisão é usual nesses casos e não compromete a integridade da visão do cinemas. “Lars entende e aceita que, se quer fazer cenas explícitas, também precisa fazer uma versão que possa ser exibida na TV futuramente”, explicou Peter Aalbaek Jensen, parceiro profissional e produtor habitual de Von Trier.
O produtor também tenta abrandar a nova polêmica, dizendo que o tema não implica necessariamente que “Nymphomaniac” seja mais pesado que os trabalhos anteriores do cineasta. “Espero só que seja menos violento”, confessou Aalbaek Jensen. Atualmente, ele reúne o financiamento para filmar fora da Dinamarca – mas não deve ir muito além das redondezas. “Temos que rodar onde as pessoas são generosas o suficiente para apoiar o Lars”, disse Jensen, referindo-se aos fundos regionais.
Ele mencionou que já rodaram anteriormente na Suécia e na Alemanha, e que provavelmente “Nymphomaniac” vai se desenrolar nessas redondezas. Ainda segundo o produtor, o filme não será tão lúgubre e denso quanto parece. “Vai ser bem desfrutável, também. Um tanto divertido e levemente filosófico”, garantiu.
O senso de humor de Lars Von Trier, porém, está em condicional desde o incidente em Cannes, pelo qual o cineasta já emitiu inúmeros pedidos de desculpa. Parte dessa polêmica se deve a puro e simples exagero da mídia, que tirou as piadas de contexto ao reproduzí-las mundialmente. A outra parte se deve à inadequação do próprio Lars. “Acho muito difícil ser político ou diplomata”, soltou o diretor, quando indagado a respeito. “Na minha vida, eu sempre acabo falando demais e às vezes tenho que me desculpar com as pessoas. Às vezes é engraçado e às vezes não é. Em Cannes, não foi engraçado”, resumiu.
Mesmo acostumado com polêmicas, ele faz questão de se distanciar pelo menos de um caso dramático: a chacina perpetrada pelo norueguês Anders Behring Breivik, que exterminou 77 pessoas em 22 de julho deste ano. Os dois jamais se conheceram, mas Anders cita “Dogville”, um dos trabalhos mais emblemáticos de Von Trier, entre os seus filmes favoritos – e o desfecho da obra, no qual a personagem de Nicole Kidman dá destino similar aos habitantes de uma cidadezinha nas montanhas, é horripilantemente similar ao que se passou na vida real.
“Isso foi assustador. É muito fácil ver os paralelos entre o que aconteceu e a última cena de ‘Dogville’”, admitiu Lars. O cineasta, porém, conclui seu raciocínio com uma declaração impactante para um artista tão embrenhado e comprometido com a sua arte: “Nenhum filme vale 77 vidas”.

































