Morreu o diretor alemão Kurt Maetzig, considerado um dos cineastas mais importantes da indústria cinematográfica da Alemanha Oriental e que produziu alguns dos filmes mais importantes do período em que Berlim era dividida por um muro. A causa de sua morte não foi divulgada pela família. Ele tinha 101 anos de idade.
Nascido em 25 de janeiro de 1911, em Berlim, ele iniciou sua carreira como assistente de direção geral. Com ascensão do nazismo no país, ele ficou impedido de trabalhar por conta de sua descendência judia materna – sua mãe se suicidou por medo de ser pega pelos agentes da Gestapo. Graças ao pai ariano, ele escapou dos campos de concentração, mas passou a colaborar com a resistência comunista.
Marriage in the Shadows
Ao fim da guerra, Maetzig optou por viver na parte da Alemanha controlada pelo regime soviético e passou a concentrar seus esforços na realização tanto de filmes-propaganda do sistema político em vigor na Alemanha Oriental como também projetos de ficção para o estúdio Defa, que ajudou a fundar e por onde lançou seu primeiro filme, “Marriage in the Shadows” (Ehe im Schatten, 1947), baseado na história de sua própria família, com a trama centrada em um ator de raça “pura” casado com uma judia.
Entre seus trabalhos notáveis estão “Die Buntkarierten”, um olhar sobre a classe trabalhadora de Berlim desde Marx ao nazistmo, exibido em 1949 no Festival de Cannes, “Das Lied der Matrosen” (1958), sobre a luta da fundação do Partido Comunista Alemão, e a famosa ficção científica “The Silent Star” (Der Schweigende Stern, 1960), também conhecido nos EUA como “The First Spaceship On Venus”. A trama era ambientada no ano de 2003, quando o comunismo teria conquistado a Terra e promovido a paz entre as nações, levando prosperidade a todos. É neste cenário que cientistas encontram o que parece ser um artefato alienígena no deserto e decidem partir em uma expedição para Vênus, de onde acreditam ter vindo o objeto, uma espécie de caixa preta de alguma nave extraterrestre.
Das Kaninchen bin Ich
Adaptado do livro homônimo de Stanislaw Lem (autor de “Solaris” e “Stalker”, clássicos futuristas levados ao cinema por Andrey Tarkovskiy e Steven Soderbergh), o filme introduziu temas que ganhariam ressonância em obras famosas do gênero, desde a tripulação multiétnica da série “Jornada nas Estrelas” (Star Trek) até a “caixa preta” de “2001 – Uma Odisséia no Espaço” (2001 – A Space Odissey, 1968), sem esquecer sua semelhança com a história de origem da publicação pulp alemã Perry Rhodan, lançada no ano seguinte ao filme e adaptada em 1967 na produção “…4 …3 …2 …1 …Morte” (Perry Rhodan). Não por acaso, “The Silent Star” é considerada a melhor sci-fi alemã já feita.
Maetzig também ensaiou uma colaboração com o cinema cubano, ao filmar “Preludio 11″ (1964) naquele país, resultado numa das raras parcerias do cinema comunista para além da Europa. Mas nem sempre agradou ao Partido Comunista, já que os temas polêmicos sempre estiveram presentes em sua filmografia.
The Silent Star
Em 1965, ele viu seu filme “Das Kaninchen bin Ich” (“O Coelho Sou Eu”, em tradução literal) ser proibido em seu próprio país. A trama girava em torno de uma jovem às voltas com o irmão presidiário. O filme recebeu prêmios especiais no Festival de Berlim daquele ano, mas só pôde ser exibido novamente na década de 1990.
Apesar da repercussão de seu trabalho, Maetzig se aposentou cedo do cinema, em meados dos anos 1970, permanecendo apenas como membro da Academia de Artes de Berlim. Os últimos anos de sua vida se passaram no leste da Alemanha, ao lado da esposa.
Kurt Maetzig































