Morreu o mestre do cinema japonês Kaneto Shindô, aos 100 anos de idade. Segundo a agência Kyodo, ele morreu em sua residência em Tóquio na quarta-feira (30/5), de causas naturais.
Shindô nasceu na cidade de Hiroshima em 28 de abril de 1912, filho de fazendeiros empobrecidos. Em 1934, saiu de casa e foi trabalhar como aprendiz no laboratório do pequeno estúdio de filmes Shinko. Logo depois, foi promovido a diretor de arte e finalmente a roteirista. Neste período, o então jovem Shindô conheceu seu mentor, o cineasta Kenji Mizoguchi (“Contos da Lua Vaga”).
Filhos de Hiroshima
Para Mizoguchi, Shindô escreveu alguns filmes, cujos mais notáveis são os feministas “Josei no Shôri” (vitória das mulheres, 1946) e “Waga koi wa Moenu” (chamas do meu amor, 1949). Ele também escreveu roteiros para o cineasta Kôzaburô Yoshimura, uma das parcerias mais bem sucedidas no cinema japonês do pós-guerra. O trabalho mais significativo da dupla foi “Anjô-ke no Butôkai” (o baile na casa anjo), sobre uma família abastada que tem que entregar sua mansão por conta da derrota do Japão na guerra, mas não sem antes organizar um derradeiro baile de gala.
Nessa época, Yoshimura e Shindô trabalhavam para a gigante Shockiku, uma das maiores companhias cinematográficas japonesas, de onde saíram para montar sua própria produtora independente, chamada Kindai Eiga Kyokai (Associação Moderna de Filmes). Isso permitiu a Shindô fazer sua estreia na direção, que aconteceu em 1951 com “Aisai Monogatari”, uma homenagem a sua primeira esposa, que morreu em 1940 e foi curiosamente interpretada por sua sucessora, a atriz Nobuko Otowa, presença regular em seus filmes subsequentes. O filme foi criticado pelo excesso de sentimentalismo, mas isso não impediu o diretor novato de continuar filmando e encontrar o sucesso já no ano seguinte.
Daigo Fukuryu-Maru
O filme mais famoso do cineasta foi lançado em 1952, “Filhos de Hiroshima”, e trazia novamente Otowa como protagonsita. Na trama, ela era uma professora que voltava à Hiroshima para procurar por sobreviventes. sete anos após a explosão da bomba atômica que devastou a cidade. O filme é baseado em uma coleção de poemas escritos por jovens sobreviventes. Trata-se de uma obra comovente e surpreendentemente livre de qualquer tipo de amargura. Por conta de sua delicadeza e competência artística, Shindô foi aclamado no Festival de Cannes.
Ele voltou ao tema no docudrama “Daigo Fukuryu-Maru” (Lucky Dragon 5, 1959), sobre os 23 tripulantes do barco pesqueiro que dá título filme. Os pescadores testemunharam os testes da bomba H no atol de Biquini, e mesmo em alto mar foram contaminados pela radiação.
Hadaka no Shima
Outros filmes marcantes em sua filmografia são “Hadaka no Shima” (a ilha nua, 1960) e “Onibaba” (1964). O primeiro narra a excruciante vida de uma família que vive isolada em uma pequena ilha e tem de buscar suprimentos todos os dias na ilha vizinha. O drama possui pouquíssimos diálogos, para reforçar a sensação de que os personagens sofrem em silêncio. Já o macabro “Onibaba” é ambientada no Japão medieval e conta, com toques de horror, a história de uma mulher e sua sogra, que matam samurais, os enterram e vendem suas valiosas armas. Tudo muda quando a jovem se apaixona por um dos samurais.
O diretor dedicou parte de sua filmografia a histórias de horror, como o cultuado “Kuroneko” (1968), um de seus filmes mais conhecidos. A trama acompanha duas mulheres, que são estupradas e mortas por samurais, mas voltam dos mortos na forma de gatos vampiros e sugam todo o sangue do corpo de seus assassinos. Shindô se valeu de elementos do teatro Noh e Kabuki, além de muitos close-ups que intensificavam a sensação de claustrofobia.
Onibaba
Em 1975, ele realizou um documentário sobre o seu mestre, Kenji Mizoguchi, já morto na época. O filme é repleto de entrevistas com pessoas que trabalharam com o cineasta veterano e foi considerado uma cinebiografia modelo.
Ao longo de sua carreira, seus filmes se tornaram cada vez mais ecléticos, como por exemplo o longa sobre o artista Hokusai Manga, intitulado “Hokusai” (1982), que era mais centrado na vida sexual do personagem do que em sua arte propriamente dita.
Kuroneko
Em 1987, ele roteirizou “Hachikô Monogatari” (1987), a história real do cachorro Hachiko, que se manteve leal mesmo após seu dono ter morrido. O filme acabou ganhando remake hollywoodiano com Richard Gere, chamado “Sempre a seu Lado” (2009).
Shindô continuou a filmar até os últimos anos de sua vida centenária. Seu último filme foi ‘Ichimai no Hagaki’, de 2010, que ganhou o Prêmio Especial do Festival de Cinema do Japão neste ano, quase uma década depois do mestre já ter ganho um prêmio pela carreira da Academia Japonesa de Cinema.
































