Morreu o ator britânico John Neville, mais conhecido por protagonizar o filme “As Aventuras do Barão de Münchausen” (1988), de Terry Gilliam, e por sua participação na série “Arquivo X” (entre 1995 e 1998) como o misterioso personagem “O Homem das Unhas Bem Feitas”. Neville tinha 86 anos e foi vítima de complicações relacionadas ao Mal de Alzheimer, falecendo na sexta (19/11)
Neville nasceu em Londres no dia 2 de maio de 1925. A paixão pelo teatro surgiu ainda criança, quando assistiu na igreja à peça “Sonhos de Uma Noite de Verão”, de William Shakespeare. Na escola, passou a interpretar Brutus numa montagem de “Júlio César”, porém abandonou os estudos aos 16 anos para trabalhar como balconista em uma loja.
Em cena de Oscar Wilde
No entanto, ele continuou a se apresentar na igreja e sua performance como Hamlet lhe rendeu uma bolsa de estudos na academia dramática Royal Academy of Dramatic Art (Rada). Seus estudos foram interrompidos novamente em 1942, quando ele foi servir à Marinha Real como sinaleiro, em plena 2ª Guerra Mundial – Neville chegou a participar do histórico desembarque na Normandia (França), durante o Dia D.
Ao retornar à sua terra natal, formou-se pela Rada e integrou o grupo de teatro Trent Players. Sua primeira montagem profissional aconteceu com “Ricardo II”, dividindo a cena com Alec Guinness (“Star Wars”). Conquistou respeito rapidamente com o seu talento e, em 1949, casou-se com a também atriz Caroline Neville, com quem dividia os tablados após ser contratado pelo Birmingham Repertory Theatre.
Como Sherlock Holmes em Névoas do Terror
Nos palcos, também trabalhou com atores que viriam a fazer muito sucesso no cinema posteriormente, como Judi Dench (franquia “007″) e Ian McKellen (trilogia “O Senhor dos Anéis”). Sua boa aparência e suas interpretações vigorosas lhe renderam alguns papéis na televisão britânica, com participações especiais em teleteatros e seriados.
Foi estrear no cinema britânica em 1960, em uma biografia sobre o escritor e dramaturgo Oscar Wilde. Fez alguns filmes de aventura, incluindo “Névoas do Terror” (1965), em que interpretou Sherlock Holmes. Paralelamente, entre 1963 e 1967, atuou como diretor-adjunto do Nottingham Playhouse, onde realizou diversas peças, porém renunciou ao cargo após brigar com as autoridades da cidade sobre as questões de financiamento para as atividades artísticas.
As Aventuras do Barão Munchausen
Neville era frequentemente apontado como o sucessor natural de John Gielgud (grande nome dos palcos britânicos), porém o temperamento forte marcou sua carreira e o ator acabou ganhando fama de abandonar trabalhos sempre que se sentia entediado.
Seu desânimo com o teatro inglês o fez aceitar a direção de “The Rivals” em Ottawa, no Canadá, em 1972, e por lá ficou, adquirindo a cidadania canadense. Ao longo dos anos 1970 e 1980, dirigiu e atuou em inúmeras peças teatrais e foi o diretor artístico de diversas casas de teatro.
Com David Duchovny em cena de Arquivo X
Em 1988, John Neville fez uma rápida aparição no filme “Ligações Perigosas”, estreia do inglês Stephen Frears em Hollywood, mas foi se destacar mesmo em outro projeto daquele ano, ao ser escolhido pelo ex-Monty Python Terry Gilliam para estrelar uma de suas bizarras extravagâncias cinematográficas: “As Aventuras do Barão Münchausen”. O longa custou U$ 46 milhões (uma das produções mais caras da história na época) e foi um gigantesco fracasso nas bilheterias, apesar de gerar algumas boas críticas.
A obra, no entanto, ganhou aura de cult e resgatou a imagem do ator, que passou a receber mais convites para participações especiais em séries de TV e teatro – porém sempre rejeitou Hollywood. Neville fez uma aparição como Isaac Newton em 1993 num episódio de “Jornada nas Estrelas: A Nova Geração” e, a partir de 1995, entrou no elenco da série “Arquivo X”, fenômeno da televisão norte-americana, interpretando o misterioso “O Homem das Unhas Bem Feitas”, um dos integrantes da conspiração que o agente Mulder (David Duchovny) prentendia desvendar – papel pelo qual sempre será lembrado.
Ao lado de Ralph Fiennes em Spider – Desafie sua Mente
O sucesso de “Arquivo X” o estabeleceu dentro do gênero fantástico e, em 1997, participou da aventura espacial do francês Luc Besson “O Quinto Elemento” como o general Staedert. No ano seguinte, estrelou o primeiro longa-metragem de “Arquivo X” e o terror “Lenda Urbana”. Mas, na virada do século, reencontrou nova vocação em papéis dramáticos, conduzido por grandes cineastas internacionais.
Em sua fase dramática, interpretou um dos integrantes da família focada no filme “Sunshine – O Despertar de um Século” (1999), de István Szabó, mergulhou na loucura de “Spider – Desafie sua Mente” (2002), de David Cronenberg (no papel do amigo do doente mental interpretado por Ralph Fiennes), participou do thriller político “A Confissão” (2003), de Norman Jewison, ao lado de grande elenco (Michael Caine, Alan Bates, Tilda Swinton), e encerrou sua filmografia num pequeno papel em “Mentiras Sinceras” (2005), de Julian Fellowes, com Tom Wilkinson e Emily Watson.
Com Tilda Swinton em A Confissão
Mesmo com a idade avançada, o britânico não parava de trabalhar e alternava papéis na TV, no teatro e no cinema. Em 2002, por exemplo, ele participou de duas novas séries fantasiosas (“Odyssey 5” e “The 11th Hour”). Com mais de 80 anos, o ator ainda fazia pequenas participações em produções canadenses e dublagens para uma série de animação britânica chamada “Friends and Heroes”.
John Neville deixou esposa e seis filhos.


































