Morreu Joe Simon, o escritor e editor de quadrinhos que criou o super-herói Capitão América em 1941, em parceria com o desenhista Jack Kirby.
Simon é considerado um dos grandes mitos da indústria dos quadrinhos americanos. Ele participou da gênese da editora Marvel, quando ela ainda se chamava Timely Comics, contratou Stan Lee, que começou como seu assistente aos 17 anos, e se consagrou como um dos maiores parceiros criativos do genial Jack Kirby, com quem desenvolveu diversos personagens.
“O Capitão América de Simon e Kirby foi a primeira HQ que me fez sentir como se estivesse assistindo a um filme de ação emocionante”, comentou Stan Lee, criador de dezenas de heróis da Marvel, sobre o antigo patrão. “Para mim, a maneira como eles escreveram e desenharam o Capitão me fez ter a mesma emoção de assistir a Errol Flynn interpretando Robin Hood na tela grande”.
A criação de Capitão América foi importante não apenas no contexto dos quadrinhos, mas também político: Simon e Kirby conceberam a histórica capa em que o herói socava Adolf Hitler um ano antes de os Estados Unidos entrarem na 2ª Guerra Mundial.
“Muito do que somos hoje é devido a Simon e à sua criatividade incrível”, lamentou Dan Didio, editor da editora rival da Marvel, DC Comics. Além de ser um dos grandes escritores da Era de Ouro, Simon também foi editor da DC Comics, para onde desenvolveu personagens famosos, como a Legião Jovem, que ainda hoje pode ser vista em histórias do Superman.
Joe Simon nasceu como Hymie Simon em Rochester, no estado de Nova York, em 1913. Filho de judeus ingleses que migraram para os Estados Unidos oito anos antes de ele nascer, Simon começou a trabalhar como artista ainda na adolescência, para o jornal do colégio. Ao chegar na casa dos 20 anos, atuava como cartunista de jornais locais até se mudar para a cidade de Nova York no final dos anos 1930.
Seu interesse na então nascente indústria dos quadrinhos começou praticamente junto com a amizade de Jacob Kurtzberg, ou melhor, Jack Kirby. Ao ser contratado por Martin Goodman para tocar a divisão de quadrinhos da editora de pulps Timely (futura Marvel), Simon deu início à sua contribuição para o novo gênero criando cerca de cinco novos heróis por mês – ainda que esses personagens não tenham caído no gosto do público.
A Timely tinha apenas dois heróis populares, o Príncipe Submarino e o Tocha Humana, para enfrentar o Batman e o Superman de sua distinta concorrência. Mas Simon trouxe Jack Kirby para rabiscar no pequeno estúdio da companhia. A primeira criação da dupla foi o espadachim Blue Bolt, de 1940.
Assim como aconteceria com o Capitão América anos mais tarde, Blue Bolt adquire seus superpoderes por meio de uma injeção, “muito antes de os jogadores de beisebol fazerem isso”, comentou Simon, certa vez, deixando claro o senso de humor de seus quadrinhos.
Ele e Kirby perceberam que havia sintonia no trabalho em conjunto. “Nós percebemos que, quando trabalhávamos juntos numa história, você não seria capaz de saber onde um começou e o outro terminou”, explicou.
Enquanto Simon e Kirby aperfeiçoavam a parceria, a 2ª Guerra Mundial estourou na Europa. Os dois artistas eram judeus e sua preocupação com as atrocidades do nazismo fizeram com que reagissem da única forma que sabiam. Usando os punhos, os dedos, os lápis e o nanquim.
Já em 1939, Simon editou uma história em que Namor, o Príncipe Submarino, enfrentava embarcações nazistas. Mas a realidade fora dos gibis era bem diferente. Os EUA estavam divididos entre os que eram a favor da entrada do país na guerra e os contrários à participação no conflito militar.
Havia até quem simpatizasse com a ideologia nazista nos EUA, e não eram poucos, como Charles Chaplin veio a perceber, ao ser duramente criticado por seu filme “O Grande Ditador”, que ridicularizava Adolf Hitler e teve uma première fracassada em Nova York, em outubro de 1940. Simon e Kirby seguiram a deixa de Chaplin e também partiram para a ofensiva, criando um super-herói com as cores da bandeira e chamado de América para colocar o ditador alemão em seu devido lugar.
Em dezembro de 1940, “Captain America # 1” chegou nas bancas americanas, trazendo o novo super-herói em sua famosa capa, socando a cara de Hitler. Tratava-se de uma clara e ousada tomada de posição política, uma vez que os Estados Unidos só foram entrar na guerra um ano depois, após o ataque da marinha japonesa a Pearl Harbor, no Havaí, em dezembro de 1941.
“Jack e eu líamos os jornais, sabíamos o que estava acontecendo na Europa, e lá estava ele, Adolf Hitler, com seu bigode ridículo, seu discurso violento e seus seguidores idiotas. Ele era o vilão perfeito, muito melhor do que qualquer coisa que poderíamos ter criado”, comentou Simon, certa vez.
O gibi de estreia do Capitão América vendeu 1 milhão de exemplares e alavancou a Timely, que passou a produzir ainda mais revistas em quadrinhos. O aumento de trabalho forçou novas contratações e, nessa leva, chegou um garoto de 17 anos chamado Stanley Lieber, primo da esposa do diretor da companhia, Martin Goodman. Stanley, ou melhor, Stan Lee, era jovem, mas tinha experiência na área da imprensa, escrevendo obituários. Foi contratado como office boy, mas, sob a benção de Simon, passou rapidamente a escritor, assinando seu primeiro texto no terceiro número da revista do Capitão América.
Enquanto Lee crescia na empresa, Simon e Kirby estavam insatisfeitos com o salário que recebiam e passaram a trabalhar secretamente para as editoras concorrentes como freelancers. Com apenas 19 anos, Stan Lee descobriu a situação e avisou Goodman, que demitiu a dupla, concedendo o cargo de editor ao garoto. Simon guardou mágoa por muitos anos, mas em pouco tempo Kirby estaria de volta à Timely, trabalhando intimamente com o responsável por sua demissão, na criação de personagens como Quarteto Fantástico, X-Men, Hulk, Thor e muitos outros.
Para a DC Comics, Simon e Kirby criaram a Legião Jovem, reinventaram o super-herói Sandman e conceberam Boy Commandos e Manhunter. Para a Fawcett Comics, produziram o primeiro exemplar da revista solo do Capitão Marvel, após o personagem surgir na antologia “Whiz Comics”.
A dupla resistiu à demissão, mas o fim da guerra representou também o fim da Era de Ouro dos quadrinhos. As vendagens milionárias desabaram e os super-heróis saíram de moda.
Numa desastrosa estratégia de marketing, Martin Goodman liberou gratuitamente os direitos do Capitão América para o estúdio Republic realizar um seriado sobre o personagem, com a esperança de que a produção alavancasse novamente as vendas dos títulos – em vão. Simon jamais perdoou o chefe, rompendo relações.
Enquanto a Timely definhava em 1951 e passava a se chamar Atlas Comics, Simon e Kirby mantiveram a parceria criativa e chegaram a montar a própria companhia de títulos nos anos 1950, a Prize Comics e, posteriormente, a Mainline Publications, por onde publicaram gibis de western, terror, guerra e a primeira história em quadrinhos romântica, voltada para meninas, a altamente influente revista “Young Romance”, que deu início a uma nova tendência.
Os desenhos de Jack Kirby na “Young Romance” também serviram de base para diversas obras da pop art, recicladas por artistas plásticos famosos, como Roy Lichtenstein e Richard Hamilton, entre outros.
No final dos anos 1950, os amigos, que também eram vizinhos e moravam com suas famílias na mesma rua, tomaram caminhos separados. Simon fundou a revista “Sick” em 1960, que durou 20 anos e concorria com a icônica “Mad”. Foi nessa década que o editor processou a Marvel tentando resgatar os direitos do Capitão América – uma batalha judicial que se estenderia por anos. Simon também trabalhou em publicidade, como diretor de arte de grandes empresas entre 1964 e 1967.
Mas ele não abandonou os quadrinhos: em 1966 dirigiu a Harvey Comics, voltando a atuar ao lado de Kirby na criação de super-heróis. A parceria se repetiu pela última vez em 1974, numa edição especial de “The Sandman”, da DC Comics (uma década antes da reinvenção do herói, feita por Neil Gaiman).
Ao longo dos anos, Simon participou de incontáveis convenções para ser prestigiado e homenageado por seus trabalhos. Ele licenciou vários personagens sobre os quais conseguiu manter direitos, mas também procurou continuar em atividade: em 1990, escreveu com o filho Jim Simon “The Comic Book Makers”. Em junho deste ano, ele lançou sua autobiografia, “My Life in Comics”.
Em 2007, Simon teve a infelicidade de ver sua maior criação “morrer”, na saga “Capitão América: Morre Uma Lenda”. “‘Cap’ é um dos grandes ícones dos quadrinhos, e nós precisamos dele mais do que nunca para ser a nossa bússola moral”, protestou na época, se referindo à Guerra ao Terror e aos dois conflitos militares nos quais os EUA estavam envolvidos (no Afeganistão e no Iraque). Simon chegou a fazer uma versão atualizada da capa da primeira edição de Capitão América, substituindo Hitler por Osama bin Laden, porém ele jamais publicou a ilustração.
Antes de falecer, Joe Simon ainda pôde assistir a uma nova adaptação cinematográfica de seu grande personagem, em “Capitão América: O Primeiro Vingador”. E, ao contrário de tantas outras investidas decepcionantes, o longa da Marvel deixou o pai orgulhoso. “É uma grande emoção vê-lo nos cinemas finalmente como ele deveria ter sido feito o tempo todo”, declarou, emocionado.
Joe Simon faleceu na quarta-feira (14/12) aos 98 anos. Deixa dois filhos, três filhas, oito netos, além de muitos fãs e um legado incomparável.









































