Da mesma forma que não há aventura de Spielberg sem John Williams, suspense de Hitchcock sem Bernard Herrmann e animação da Disney sem Alan Menken, não havia comédia musical de Elvis Presley sem o letrista Jerry Leiber, responsável pelas principais canções que pontuaram a migração do Rei do Rock para o cinema.
Leiber faleceu na segunda (22/8), aos 78 anos, vítima de falência cardiopulmonar. A sua morte chama atenção, a princípio, para os sucessos compostos para Elvis, juntamente com o músico e parceiro habitual Mike Stoller. Mas Leiber fez muito mais. Suas canções mais célebres foram gravadas pelos principais nomes da indústria fonográfica, como os Beatles, Rolling Stones, Edith Piaf, Barbra Streisand, Jerry Lee Lewis e Aretha Franklin, só para citar alguns.
A associação a Elvis, contudo, é inevitável: o trio se completava de tal forma que não é possível precisar qual estava em maior dívida para com o outro. Lieber e Stoller entraram no radar de Elvis com “Hound Dog”, uma das canções mais emblemáticas da discografia do Rei. A música fora escrita para a cantora de blues Big Mama Thornton em 1952, mas quando Elvis a regravou em 1956, usou tantos floreios próprios que, para todos os efeitos, tratava-se de uma versão original.
Nem Leiber nem Stoller aprovaram a interpretação que Elvis fez da canção. Em época de segregação racial em uma porcentagem considerável dos estados americanos, uma voz e um estilo indissoluvelmente negros como os de Big Mama jamais se tornariam sucesso nacional. Já Elvis, mesmo taxado de “satânico” pelas facções conservadoras (os câmeras das emissoras de TV eram orientados a filmá-lo da cintura para cima, para não focar o lascivo e tentador movimento das pernas), tinha uma interpretação mais amena aos ouvidos da população.
“Da primeira vez que ouvi a gravação de Presley para ‘Hound Dog’, joguei o vinil para o outro lado da sala”, admitiu Leiber em entrevistas posteriores. Ele, afinal, estava focado no blues, gênero que o cativou durante a adolescência em Los Angeles.
“Eu queria ser negro, porque me sentia completamente como parte daquela música”, disse. A música de Elvis embranquecia o blues com entonação caipira: era o rock’n'roll. “Mas, é claro, o disco vendeu um milhão de cópias, depois dois milhões, e eu comecei a repensar”, brincou Leiber.
Foi o início de uma parceria profissional sólida e sem maiores percalços. Para todos os efeitos, tanto Leiber como Stoller fizeram juras profundas de admiração a Presley, cujo trabalho passaram a admirar gradualmente. “Aquele cara nunca fez uma gravação ruim”, elogiou Leiber, em outra ocasião. “Cada gravação era melhor que a outra e diferente da outra. Elvis era como um campeão olímpico, alguém que poderia cantar o dia todo”, completou.
Leiber e Stoller também coincidiram com a imersão de Elvis no cinema. O filme que introduziu o astro como ator, “Ama-me Com Ternura”, foi lançado justamente em 1956, o ano em que “Hound Dog” aproximou o trio.
Em sua filmografia, após tentar emplacar como rebelde nos primeiros filmes, Presley se contentaria a interpretar uma variante de si mesmo – uma figura galante e charmosa, de preferência inserida nas cachoeiras paradisíacas do Havaí e sempre dada a cantorias. Bom para os fãs, que queriam vê-lo nesse exato papel, e melhor ainda para Leiber e Stoller, que se tornaram os compositores extra-oficiais das produções iniciais do Rei.
Eles escreveram as canções de vários dos filmes de Elvis, entre os quais “A Mulher Que Eu Amo” (1957), “O Prisioneiro do Rock” (1957) e “Balada Sangrenta” (1958), sendo os dois últimos os mais sérios e roqueiros da carreira do cantor. Levaram da experiência várias anedotas de bastidores.
Durante as filmagens de “O Prisioneiro do Rock”, por exemplo, Leiber e Stoller foram transportados a Nova York, mas passavam quase todo o tempo enfiados no primeiro clube de jazz que conseguiram encontrar. Quando o produtor lhes cobrou as canções devidas e viu o quão cru estava o trabalho, trancafiou a dupla no quarto de hotel e só lhes deixou sair cinco horas depois, com quatro músicas completas. São elas: “Jailhouse Rock”. “Treat Me Nice”, “(You’re So Square) Baby, I Don’t Care” e “I Want to be Free”.
Como tantos os que conviveram com o Rei, ambos também tiveram desentendimento com o agente do astro, “Coronel” Tom Parker, notório por ter conduzido a carreira do cantor – além do próprio Elvis – com mãos de ferro. “Ele era um homem tolo e muito ganancioso”, afirmou Leiber anos depois.
À época de “Balada Sangrenta”, Lieber e Stoller se recusaram a assinar um contrato exigido por Parker, que diminuia, em termos financeiros, a contribuição dos dois para a carreira de Presley. Ainda assim, o Rei ainda gravaria e transformaria em sucesso outras composições da dupla, como “Don’t”, “Trouble”, “Love Me”, “Bossa Nova Baby” e “Fools Fall in Love”, entre outras.
Leiber e Stoller, afinal, não compunham para o cinema, mas para quem estivesse interessado em ouvir. A eles, atribui-se o “rock” do rock’n roll americano dos anos 1950 e início dos 1960: uma energia bem-humorada que lhes rendeu glórias eternas.
Em 1985, Leiber foi adicionado ao Hall da Fama dos Compositores e, dois anos depois, ao Hall da Fama do Rock’n Roll. Na década seguinte, as canções da dupla inspiraram o musical da Broadway “Smokey Joe’s Cafe”, que cravou mais de 2000 apresentações nos palcos nova-iorquinos.
Um legado que não deixa dúvidas: se Elvis foi o Rei do Rock, Jerry Leiber foi, por extensão, um dos conselheiros mais importantes da corte.



































