Morreu aos 73 anos de idade o gênio francês das artes gráficas Jean Giraud, também conhecido pelo pseudônimo Moebius. Ele foi criador de quadrinhos clássicos, como as aventuras no Velho Oeste de “Blueberry” e as sagas futuristas “Incal” e “A Garagem Hermética”, além de ter sido responsável pela concepção visual de filmes que influenciaram gerações e tendências estéticas, caso de “Alien – O 8º Passageiro” (1979) e “Blade Runner” (1982). Ele foi vencido por um câncer depois de muito tempo lutando contra a doença.
Jean Henri Gaston Giraud nasceu nos subúrbios parisienses em maio de 1938, e cresceu desenhando cowboys e índios. Sua primeira obra publicada foi “Frank et Jeremie” para a revista Far West, em 1956, quando ele ainda não tinha sequer completado 18 anos.
Auto-retrato dos anos 1970
Sua carreira precoce foi interrompida pelas obrigações militares, que teve de cumprir na Argélia. Ao retornar para a França, tornou-se aprendiz de Jijé, um dos quadrinistas mais influentes da época, que o indicou para trabalhar na revista “Pilote”.
Foi nas páginas da revista, em 1963, que ele começou a desenvolver, em parceria com o roteirista Jean-Michel Charlier, uma história em quadrinhos de índios e soldados americanos chamada “Fort Navajo”. A história se provou tão popular que lançaria seu protagonista, o tenente da cavalaria Mike Blueberry, cujos traços eram inspirados no ator Jean Paul Belmondo (“Acossado”), à condição de protagonista de diversas outras aventuras – o último álbum de “Blueberry” foi lançado em 2005.
Blueberry
O pseudônimo Moebius nasceu pela primeira vez em 1963, na revista em quadrinhos “Hara Kiri”, que publicava trabalhos satíricos. Giraud achou melhor separar sua obra humorística das aventuras sérias que desenvolvia então na “Pilote” por meio do pseudônimo. Mas essa fase foi efêmera. Por isso, o nome Moebius é mais lembrado por ocasião de seu retorno aos quadrinhos, em 1975.
Na metade dos anos 1970, Giraud se juntou a outros quadrinhistas franceses para criar uma revista revolucionária: “Metal Hurlant”, dedicada à aventuras de fantasia e ficção científica e voltada ao público adulto. Com um visual deslumbrante, que privilegiava pinturas aos desenhos simples, além de muito apelo sexual, temáticas lisérgicas, referências ao rock e à contracultura, a geração metálica marcou época e se tornou um fenômeno mundial – graças também à tradução de seus quadrinhos nos EUA, onde a revista ganhou o título de “Heavy Metal”. Seu impacto foi tal que a publicação virou um longa animado, “Heavy Metal – Universo em Fantasia”, em 1981. Cultuadíssimo, o filme influenciou toda a animação adulta que se seguiu.
A era da Metal Hurlant
A obra do agora Moebius era um dos grandes destaques da “Metal Hurlant”, em cujas páginas nasceram criações fantásticas como “Arzach”, a “Garagem Hermética” e “The Long Tomorrow”. Sua arte detalhista, que apresentava mundos futuristas com uma riqueza de detalhes cinematográfica, logo chamou a atenção do cineasta chileno Alejandro Jodorowsky – ele próprio um visionário, responsável por obras cultuadíssimas como “El Topo” (1970) e “A Montanha Sagrada” (1973).
Jodorowsky pretendida adaptar o clássico da literatura sci-fi “Duna”, do escritor Frank Herbert, e em 1975 juntou-se com Moebius e o ilustrador suiço H.R. Giger para criarem os designs do projeto. O filme também teria trilha da banda Pink Floyd e um elenco formado pelo pintor Salvador Dali, o cineasta Orson Welles e a atriz Gloria Swanson. O entusiasmo dos envolvidos, porém, não foi suficiente para convencer investidores a bancarem a produção, que se tornou um dos mais lendários projetos nunca filmados.
The Long Tomorrow
Nem tudo foi desperdiçado, já que a amizade forjada entre Jodorowsky e Moebius rendeu uma criação muito celebrada, a série em quadrinhos do “Incal” – escrita pelo primeiro e desenhada pelo mestre recém-falecido. Os álbuns originais da parceria foram publicados entre 1981 e 1989, mas o sucesso inspirou prelúdios e posfácios, que renderam aventuras do “Jodoverso” até 2011.
Moebius também voltou a colaborar com H.R. Giger em uma nova tentativa de inspirar o cinema com sua arte. E desta vez o projeto saiu da prancheta, causando impacto ao chegar às telas.
Incal
Ridley Scott, que também era um jovem apaixonado pela ficção científica e louco de vontade de materializar imagens visionárias no final dos anos 1970, encomendou a Jean Giraud desenhos de espaçonaves e roupas espaciais para sua primeira sci-fi, “Alien – O Oitavo Passageiro” (1979), enquanto coube a Giger desenvolver o design do alienígena. A identidade visual da espaçonave, que começava clean e asséptica e terminava sombria como o calabouço de um castelo assombrado, os trajes espaciais que remetiam a escafandros e os enquadramentos claustrofóbicos vieram todos dos storyboards assinados por Moebius.
A arte de Moebius também foi a principal influência para o visual futurista do próximo filme de Scott, “Blade Runner – O Caçador de Andróides” (1982). O diretor britânico sempre fez questão de reconhecer que a concepção urbana de seu filme era baseada na história “The Long Tomorrow”, desenhada por Moebius e escrita por Dan O’Bannon (por sinal, roteirista de “Alien”) em 1976. O realismo alcançado fez toda Hollywood voltar às pranchas de desenho. A metrópolis de “Blade Runner” era palpável, real, com chuva ácida, iluminação neon e telas lcd gigantes – antes da invenção das telas lcd gigantes…
Alien – O Oitavo Passageiro
Ele teve participação ainda mais ativa nos designs revolucionários de “Tron – Uma Odisséia Eletrônica” (1982). Apesar de propagado como o primeiro longa criado em computador, todos os seus designs surgiram da mão bastante humana do artista francês.
O sucesso dos filmes concebidos a partir de seus designs lhe abriram as portas de Hollywood. Mas nem todas as experiências foram positivas. Ele experimentou uma grande decepção com Ron Howard, que dispensou o trabalhoso processo de desenvolvimento realizado para a fantasia medieval “Willow – Na Terra da Magia” (1988). Howard não aproveitou nenhum dos desenhos de produção e o filme foi um fracasso.
Tron – Uma Odisséia Eletrônica
Em compensação, Moebius foi muito bem recebido por James Cameron, para quem desenvolveu as criaturas submarinas de “O Segredo do Abismo” (1989). Ele também foi decisivo na produção de dois longa-metragens animados que conseguiram boa projeção longe de Hollywood. Em parceria com René Laloux, criou “Os Mestres do Tempo” (1982), que venceu o prêmio de Melhor Filme Infantil no Fantafestival, e, com o japonês Yutaka Fujioka, roteirizou e fez os designs do anime “O Pequeno Nemo” (1989), adaptação de “Little Nemo in Slumberland”, pioneira história em quadrinhos de Windsor McKay de 1905.
As colaborações internacionais também se estenderam aos quadrinhos. Em 1988, ele se juntou ao célebre escritor Stan Lee (criador do Homem-Aranha, X-Men, etc) para criar uma graphic novel do Surfista Prateado. A publicação – originalmente uma minissérie em duas edições – ganhou o prêmio Eisner, o Oscar dos quadrinhos americanos.
O Segredo do Abismo
Mas o habitat natural de suas criações era realmente o futuro, como bem percebeu seu compatriota Luc Besson, ao convidá-lo a criar todos os designs da ficção científica “O Quinto Elemento” (1997). Alienígenas, táxis voadores, naves espaciais e até o look sexy futurista de Milla Jovovich saiu da imaginação do artista, resultando no trabalho comissionado que melhor soube adaptar as curvas, sombras e sonhos de seus quadrinhos.
“Blueberry” não teve a mesma sorte. Foi transformado num filme B em 2005, que chegou por aqui direto em DVD. Nesse meio tempo, Moebius decidiu roteirizar ele próprio curtas baseados em suas criações, além de dar seus primeiros passos como diretor. Nesta função, ele realizou a adaptação de uma de suas criações mais celebradas, na minissérie animada “Arzak Rhapsody” (2003), e dirigiu o curta animado “La Planète Encore” (2010). Seu último trabalho foram designs para o longo animado “Strange Frame: Love & Sax”, uma sci-fi musical que tem lançamento previsto para este ano.
Diante do Major Grubert, personagem da Garagem Hermética
Seu legado é inestimável. Hayao Miyazaki, vencedor do Oscar de Melhor Animação por “A Viagem de Chihiro” (2001), disse que toda sua obra foi influenciada pela descoberta de “Arzach”, série criada por Moebius na “Metal Hurlant”, em 1975. O autor cyberpunk William Gibbons reconheceu na história “The Long Tomorrow” (1976) uma influência direta nos conceitos de seu maior sucesso, o romance de ficção científica “Neuromancer”.
Mas talvez o maior elogio feito ao artista seja o de outro gênio. “Eu o considero mais importante que o famoso ilustrador Doré. Ele é tão grande quanto Picasso ou Matisse”, disse o mestre italiano Federico Fellini.
Major Grubert encontra a estátua do criador





































