James Franco deixa de ser promessa após 127 Horas

“127 Horas”, primeiro filme do cineasta Danny Boyle após a consagração de “Quem Quer Ser Um Milionário?” (2009), feito por quase integralmente a mesma equipe do anterior, retrata os cinco dias que Aron Ralston, engenheiro por formação e aventureiro por vocação, passou soterrado num cânion em Utah, durante uma de suas expedições independentes. A história é real e se baseia em livro autobiográfico.

Enquanto descia por um precipício, uma rocha de uma tonelada se deslocou e esmagou seu braço direito. Aron não avisara nenhum amigo ou familiar sobre o passeio. Não havia ninguém por perto num raio de quilômetros e ele estava alguns metros abaixo da superfície, impossibilitado de se mover. Conforme as horas avançavam, via-se cada vez mais próximo da morte por inanição.

Acidentes assim são a tese perfeita sobre como o instinto de sobrevivência modifica o ser humano em circunstâncias desesperadoras, e o tipo de história que obriga o espectador a se colocar na posição do personagem e ponderar se seria capaz de agir do mesmo modo se preciso.

O roteirista Simon Beaufoy, também premiado pelo “Milionário”, é muito feliz na colocação desses argumentos. No caso de Aron, a aflição é tão densa que por pouco não se materializa num segundo personagem.

Ele tenta mover a pedra com tanta força que seus órgãos internos parecem prestes a explodir. Quando percebe que isso é inútil, tenta esfolar as extremidades da rocha para escapar. Quando a água que raciona finalmente chega ao fim, bebe a própria urina para permanecer hidratado. Do equipamento que trazia consigo, só conseguia fazer uso da lanterna e do canivete, e mesmo este era dos mais reles, feito na China.

Gradualmente, vem a compreensão de que não é a rocha que precisa ser removida: é o braço. Mas, supondo que a ideia de automutilação fosse assimilada e não faltasse coragem para realizá-la, como fazê-lo com uma lâmina não mais afiada que uma faca de cozinha? Aron, em sua capacidade admirável de preservar a sobriedade e a racionalidade diante de opções nada agradáveis, também não sabe, mas vai aprender na prática.

A fotografia de Anthony Dod Mantle e Enrique Chediak é nunca menos que magistral ao capturar o espaço minúsculo entre as rochas por ângulos inimagináveis. É, também, a solução ideal para as invencionices visuais que Boyle tem tornado mais sugestivas a cada filme. Hiperativo demais para acomodar a câmera no tripé, ele a faz alçar voo, assenta-a em objetos cenográficos (como quando a coloca dentro da garrafa térmica e dá ao espectador uma visão privilegiada de Aron tentando absorver uma última gota d’água) e recorre a efeitos lelouchianos (de Charles Lelouch, famoso pelo uso da teleobjetiva). Incapaz de deixar cada imagem quieta em seu lugar, Boyle as combina aos montes, resgatando inclusive materiais de arquivo e, por vezes, dividindo a tela em três pólos diferentes, que o montador Jon Harris consegue harmonizar mesmo quando prevalece o excesso.

O que poderia se tornar um videoclipe bagunçado – ao que se pesa a trilha vibrante, mas demasiadamente eletrônica do compositor indiano A.R. Rahman – é, numa análise geral, necessário para contar a história como o diretor, em sua plenitude profissional, pretendia. A dramaticidade tem um desenvolvimento adequado em termos narrativos e estéticos. O público se preocupa com Aron no nível de tensão crescente que deveria.

Conta muito, para isso, a capacidade de James Franco para manter a consistência no que é, basicamente, o show de um homem só. Com a performance mais nuançada de uma carreira marcada por ousadias, Franco deixa de ser considerado uma promessa para se unir aos grandes atores americanos em atividade. Nele se vê a garra e a entrega que muitos veteranos consolidados jamais demonstraram possuir. Não é o caso de dizer que a atuação é maior que o filme em que se encontra, mas é certo que, aqui e ali, a atuação absorve o filme em si.

O maior problema de “127 Horas” advém, ironicamente, dos elementos alheios ao confinamento. Diretor e roteirista não reduzem Aron ao acidente que o tornou célebre. Sabem que ele tem um passado e uma vida a que retornar – e, sem essas peças no lugar, a luta pela sobrevivência poderia soar estéril e autocentrada. Apelam, então, para flashbacks, mas, sempre que inseridas, as intervenções comprometem a fluidez do enredo, tornando-o truncado. Tampouco explicam com naturalidade o que podem cobrir de didatismo – o auge vem na cena em que Aaron, já à beira do delírio, fala consigo mesmo como se estivesse num programa de auditório, instante que serve mais para esclarecer as eventuais dúvidas do espectador do que para atestar o estado de espírito do personagem.

Em outros momentos, recorrem às hipóteses que Aron formula em seu isolamento: “e se” ele tivesse falado no telefone com a mãe antes de partir para a aventura; “e se” houvesse uma enchente que o arrastasse para longe dali; “e se” ele ainda tivesse chances com a moça que amava. Não bastasse a fragilidade desses artifícios, eles são mostrados ocasionalmente como se estivessem acontecendo de fato, para que só depois fique claro que se tratam de fantasias – mas o público embarca no longa já conhecendo o caso real, que não é negado nem mesmo na sinopse oficial, e percebe a pegadinha que está sendo orquestrada antes que ela chegue ao seu ponto nevrálgico.

Os problemas do roteiro não chegam a comprometer o impacto de um filme que termina em nota alta e transborda positivismo no que poderia pender para o choque e o mau gosto. Garantem, no entanto, que o time vencedor de “Quem Quer Ser o Milionário?” se contente em aplaudir os concorrentes dessa vez.

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127 Horas

Imagem de Amostra do You Tube
(127 Hours, EUA, 2010)

 ★★★½☆ 

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+ Louis Vidovix

Louis Vidovix é publicitário, leitor voraz, cinéfilo incorrigível e fã das séries de TV. Expõe suas opiniões no blog Louis Tells It Like It Is

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