Convocado para interpretar um bêbado no filme “Baixio das Bestas”, o ator Irandhir Santos se viu num impasse. Abstêmio, não sabia como encarnar o personagem de maneira autêntica. Certo dia, arriscou-se a participar de uma festa típica da Zona da Mata pernambucana, na qual dançou o maracatu rural. Bastaram dez minutos de intensos remelexos para Irandhir sair de lá com outra energia. Dali em diante, sempre antes do diretor Cláudio Assis gritar “ação!” nas filmagens de “Baixio das Bestas”, Irandhir pedia alguns minutos, subia um morro e, sozinho e sem música, dançava o maracatu rural. Ao voltar para o set, conseguia encarnar o bêbado.
São de processos assim, meio fora das “regras”, que se caracteriza o trabalho de Irandhir Santos, que volta a encarnar um boêmio em “A Febre do Rato”. “Busco não apenas a arte da interpretação, mas também a tentativa de ser um coautor do projeto junto com o realizador”, afirma ele. “É uma nova postura possível ao ator numa época em que se permite maior tempo de preparação e maturação para a ‘persona’ que você constrói em cena”.
Aos 33 anos, este pernambucano criado em Limoeiro e formado em artes cênicas no Recife interpreta um poeta anarquista em “A Febre do Rato”, nova parceria com o cineasta Cláudio Assis, que lhe rendeu o prêmio de Melhor Ator no Festival de Paulínia.
Com apenas quatro anos de carreira nas telas – estreou no cinema em 2005 na sua terra natal, com “Cinema, Aspirinas e Urubus”, de Marcelo Gomes – , Irandhir já acumula trabalho com 15 cineastas e mereceu uma homenagem na 14ª Mostra de Cinema de Tiradentes – onde deu esta entrevista. Apesar disso, só foi se tornar conhecido do grande público ao protagonizar “Tropa de Elite 2″, assistido por 11 milhões de espectadores. Mas, antes de encarnar Fraga, o ativista de direitos humanos que se torna deputado, Irandhir caminhou – e segue passo a passo – numa seara de risco e autoralidade.
Tímido e de fala mansa, Irandhir tem fatores definidores para suas escolhas profissionais. “Faço algumas perguntas ao escolher um projeto: que história é aquela que se quer contar? Que diretor é esse? Que personagem é esse?”, enumera. Também é preponderante a natureza da produção. “Gosto daqueles cineastas que fazem os filmes sem dinheiro algum e, mesmo assim, vão em frente”.
Ele teve várias experiências nesse sentido, a mais forte delas em “Amigos de Risco”, do conterrâneo Daniel Bandeira e na qual Irandhir passava quase o filme inteiro sendo carregado por outros dois personagens após uma overdose de cocaína.
Vindo do teatro, ele sabe que o corpo é elemento primordial na construção cênica, indo muito além de firulas com rosto ou expressão facial – e o uso do maracatu rural em “Baixio das Bestas” deixa essa amplitude bastante clara. “O corpo é um incentivo à minha criação, mesmo quando ele é anulado, no caso de ‘Amigos de Risco’”, destaca.
Irandhir também teve experiência quase transcendental ao retirar o próprio corpo de cena em “Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo”, de Karim Aïnouz e Marcelo Gomes. No filme, ele faz um personagem fisicamente ausente. “Ali, eu perdi minha ferramenta de trabalho”, relembra Irandhir. “Por outro lado, descobri a voz como algo possível de ter pernas, braços, sentimentos e coração”.
Outra maneira de Irandhir mergulhar nas vidas de quem ele interpreta é se permitir ocupar os espaços que irá circular nas filmagens. Para “O Som ao Redor”, longa ainda em processo de montagem do pernambucano Kleber Mendonça Filho, ele mudou-se para o bairro recifense de Setúbal, onde se ambienta o enredo. Para “Febre do Rato”, o novo de Cláudio Assis, deixou-se imbuir da urbanidade que marca o filme.
Ao concluir cada projeto, Irandhir Santos não abre mão de um ritual: voltar a Limoeiro, onde cresceu, e conviver com a família. “É a forma de recarregar as energias e só depois voltar para viver alguma outra vida”.
































