O cineasta Oliver Stone transformou Hugo Chávez na segunda vinda. O presidente da Venezuela virou astro de cinema, salvador das Américas e superstar dos cadernos culturais por um dia, em 7 de setembro de 2009, quando desembarcou em Veneza, para o lançamento do documentário “Ao Sul da Fronteira” no festival de cinema mais antigo da humanidade. Em Veneza, Chávez teve tratamento de celebridade. E aproveitou as câmeras da imprensa internacional para fazer propaganda de seu governo.
Chávez disse que o filme de Oliver Stone “mostra parte da verdade sobre o renascimento” que ele acredita estar conduzindo na América Latina. “É positivo que Oliver tenha feito este filme para tornar esta verdade visível, de modo que o mundo conheça o que verdadeiramente estou fazendo: um renascimento, uma democracia, uma revolução democrática”, elogiou-se.
A relação de Oliver Stone com figuras presidenciais é antiga e tem sido marca de sua filmografia, como demonstram os filmes “Nixon”(1995), “JFK” (1991) e o recente “W” (2008). Após as biografias ficcionais de líderes da direita norte-americana, ele agora demonstra interesse nas imagens reais de mitos da esquerda sul-americana, cuja história verdadeira tem na verdade muita ficção.
O tema já rendeu “Comandante” (2003), onde Stone entrevistou o ex-ditador cubano Fidel Castro. E inspirou, no ano passado, a viagem à América do Sul, em que registrou a atuação e o pensamento político de Hugo Chávez.
A viagem também incluiu encontros com os presidentes Fernado Lugo (Paraguai), Lula da Silva (Brasil), Cristina Kirchner (Argentina), Evo Morales (Bolívia) e Raúl Castro (Cuba). Todos falaram, para as câmeras de Oliver Stone, da influência de Chávez na mudança do paradigma político sul-americano – oposição aos interesses europeus, à agenda norte-americana e às regras ditadas pelo Fundo Monetário Internacional.
“Durante muitos anos tivemos uma elite servil aos Estados Unidos”, reconhece Lula no filme.
Oliver Stone não apresenta imagens que corroborem o discurso, não revela como Chávez efetivamente mudou a Venezuela, por absoluta falta de fatos sociais relevantes. Mas contrapõe uma imagem diferente daquela que é transmitida pela mídia internacional e que muitas vezes retrata o presidente venezuelano de forma preconceituosa.
Na entrevista coletiva, o diretor assumiu que “Ao Sul da Fronteira” tinha como objetivo refutar os “ataques ridículos da imprensa (americana) contra Chávez” e mostrar que “Chávez é um grande fenômeno, protagonista de mudanças positivas em seu país”.
Exibido fora de competição em Veneza, o filme veste Chávez como herdeiro da revolução idealizada por Simón Bolívar e defensor do ideário de uma América latina unificada. Nesse sentido, é um filme de relações públicas, bastante maniqueísta e limitado em sua ambição, ainda mais pelo acesso que teve a tantos líderes da região.
Uma mulher que gritou “Chávez dittatore” (“Chávez ditador”, em italiano) foi retirada da pré-estreia, antes do início, pelos seguranças locais. O resto foram aplausos. A insatisfação com a direita europeia, especialmente na Itália de Silvio Berlusconi, fez com que “Ao Sul da Fronteira” fosse longamente aplaudido no Festival. No fundo, foi um aplauso de protesto, mas pouco importa. O presidente venezuelano saiu do evento consagrado, ungido a porta-voz da insatisfação internacional diante do modelo econômico americano, que horas antes tinha sido crucificado por Michael Moore em “Capitalismo: Uma História de Amor”. Um fenômeno dirigido por Oliver Stone.
































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