MOSTRA “Uivo” é um livro chave da geração beat e a obra mais famosa de Allen Ginsberg (1926-1997). Abordando sua criação e publicação, na América dos anos 50, e reconstituindo trechos do seu julgamento por obscenidade, os cineastas americanos Rob Epstein e Jeffrey Friedman criaram um filme ambicioso, mas problemático, que tenta registrar o poeta e também a poesia.
Com este “Howl” (o título original do livro e do filme), Epstein e Friedman experimentaram pela primeira vez a dificuldade de narrar uma história com roteiro dramático e atores. De carreira até então dedicada aos documentários – são deles o famoso “Celluloid Closet”, sobre as referências gays em filmes clássicos de Hollywood -, trouxeram sua bagagem para a mesa de edição e colocaram nas telas um híbrido, que materializa uma obra de ficção num esquema de documentário, alternando entre o preto e branco e a cor, e exibindo, ao lado de reconstituições impecáveis de época, sequências animadas que servem como “interpretação” do poema.
“Howl” é um filme sobre um poema, o que em si já é uma raridade. Não se vê muitos filmes comerciais em que as principais sequências consistem de longos trechos de poesia sendo lidos para ouvintes atentos. Uma de suas cenas-chave traz justamente James Franco (“Homem-Aranha”, “Milk”) de pé, diante da platéia beatnik de San Francisco, em 1955, na pele do jovem Ginsberg lendo os versos enormes de “Uivo” pela primeira vez. E esta é uma das partes mais vibrantes do filme!
A história é apresentada de forma não linear. Em primeiro lugar, como uma “entrevista”, ao estilo do cinema verité, em que James Franco repete para a câmera trechos de entrevistas reais concedidas por Ginsberg ao longo de sua vida – falando de poesia, influências, cultura e de sua homossexualidade. Ao mesmo tempo, o ilustrador de Ginsberg, Eric Drooker tenta traduzir as palavras em imagens animadas. Na verdade, o artifício mais entedia que entretém.
“Assim como um professor de literatura diz no seu testemunho ao juiz que uma poesia não pode ser transformada em prosa, nós achamos que o pensamento literário de Ginsberg só poderia ganhar sentido numa fantasia abstrata, como nos nossos sonhos”, explicou Friedman na entrevista concedida após a sessão, justificando a opção pela animação.
Outro corte traz a recriação dramática do julgamento de 1957, que tentou banir o livro por obscenidade. É onde acontece o desfile do fabuloso elenco. David Strathaim (“Boa Noite e Boa Sorte”) interpreta o promotor enojado com o livro, que para provar seu teor torpe precisa lê-lo no tribunal. Jon Hamm (“Mad Men”) vive o advogado que irá provar o valor artístico da obra para um juiz conservador (Bob Balaban). E ainda há o testemunho de uma coleção de peritos (Jeff Daniels, Mary-Louise Parker, Treat Williams, Alessandro Nivola).
Finalmente, o filme providencia cenas que recriam momentos decisivos da vida do autor, como a leitura do poema e principalmente seu relacionamento com outros ícones do movimento beat – Jack Kerouac, Neal Cassady, Lawrence Ferlinghetti e Peter Orlovsky. Tudo acompanhado por uma trilha be-bop pulsante – assinada pelo mesmo Carter Burwell da “Saga Crepúsculo”.
Os cineastas leram o poema pela primeira vez ainda na escola e seu filme, por mais que tenha aparência de uma ousadia estilística, não deixa de guardar um respeito acadêmico pela obra. Assim, o tom de homenagem deixa de fora os aspectos sórdidos e sensacionalistas da vida de um poeta notoriamente boêmio e devasso.
Ao optar por forjar uma estrutura de documentário, paradoxalmente os diretores perderam de vista seu tema central, registrando datas, eventos, nomes, frases e versos, mas não os eventos que realmente inspiraram aquelas estrofes rudes, pornográficas e fora do padrão da literatura praticada até então.
“Howl” quer ser biografia, documentário, animação, elegia, reconstituição detalhada de época, filme gay e junkie, mas acaba apresentando uma descrição de Ginsberg de cartilha escolar para criancinhas.
Howl
(EUA, 2010)




































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