Foi-se a era do cinema hollywoodiano em que as mulheres eram um santuário das referências morais. O humor pueril das comédias estreladas por Claudette Colbert e Katharine Hepburn nos anos 1930 e 1940 converteu-se, nos anos recentes, em um humor mais safado e deliciosamente vulgar. E nenhuma safra deixou isso tão evidente quanto a temporada de 2011.
Depois das estreias nos cinemas brasileiros de “Professora Sem Classe”, na qual Cameron Diaz interpreta uma educadora movida à maconha, e “Quero Matar Meu Chefe”, onde Jennifer Aniston, até então um ícone da boa mocidade, solta o verbo no papel de uma ninfomaníaca, chega “Missão: Madrinha de Casamento”, com um bando de mulheres descontroladas e desbocadas – e ainda teremos até o fim do ano “What’s Your Number?”, que trará Anna Faris, da franquia “Todo Mundo Em Pânico”, como uma festeira de marca maior.
Professora sem Classe
Tem dado muito certo. As bilheterias têm sido compensatórias, e “Missão Madrinha de Casamento”, que foi lançado há alguns meses nos Estados Unidos, chegou a ultrapassar a marca dos US$ 160 milhões no país, uma quantia inédita para um filme protagonizado por mulheres – a soma ultrapassa a de outro time nada casto, o quarteto de “Sex and the City”, no primeiro filme da famosa série da HBO.
Em essência, porém, essas novas comédias com mulheres de boca grande parecem inseridos em uma tendência masculina: aquela firmada por “Se Beber, Não Case” e as comédias de Judd Apatow, como “O Virgem de 40 Anos” e “Ligeiramente Grávidos”.
Quero Matar Meu Chefe
Antes, o humor se dividia entre bom e mau gosto. Hoje, essa linha é bem mais tênue. Nos filmes em questão, mesmo as piadas escatológicas e de baixíssimo calão foram exploradas com uma inteligência e sagacidade que se julgava inexistentes nesse nicho. Com o público visivelmente interessado, só era preciso provar que as mulheres também extrairiam risadas nas mesmas situações.
O “Ligeiramente Grávidos” de Judd Apatow atirou a primeira pedra, adicionando um elemento feminino a um bando de beberrões. A premissa, envolvendo uma gravidez, era terna, mas as mulheres na trama se comunicavam com os caras de igual para igual, proferindo palavrões e bebendo cerveja no gargalo. Ao seu próprio modo, provar que um rabo de saia pode ser igualmente eficaz em um humor menos apurado foi um passo tão importante quanto a redefinição das mulheres como heroínas das fitas de ação, um legado iniciado em 1979 por Sigourney Weaver na franquia “Alien”.
What’s Your Number
Anna Faris, uma verdadeira craque na comédia – além de “Todo Mundo em Pânico”, ofereceu desempenhos impagáveis em “Encontros e Desencontros” (2003), “Apenas Amigos” (2005) e o mais recente “A Casa das Coelhinhas” (2008) – , é uma das atrizes que mais celebram esse novo alcance. “Fui para a faculdade com muitos caras que eram meio perdedores. Eles viam as mulheres como um ícone de sapatos perfeitos, emprego perfeito, filhos e marido, jamais permitidas a vacilar. Pois eu quero ver muitas mulheres vacilando”, afirmou Faris.
Segundo a atriz, interpretar “mulheres bagunceiras” é algo que muito lhe interessa. Uma declaração, aliás, que extrapola a sua profissão e envereda para a sua percepção do próprio sexo: colocar mulheres em posições que antes eram desempenhadas pelos homens implica em adaptar esses parâmetros para uma roupagem indissoluvelmente feminina, já que apenas igualar ambos os gêneros significaria desrespeitar as particularidades de cada um.
Missão Madrinha de Casamento
Kristin Wiig, comediante do “Saturday Night Live” e estrela e co-roteirista de “Missão Madrinha de Casamento”, guiou-se por essa norma. “Homens e mulheres acham que coisas diferentes são engraçadas ao se relacionar com o próprio sexo. O que queríamos era encontrar uma linguagem feminina, e o maior elogio que poderíamos receber é o fato das pessoas estarem se relacionando com algum aspecto do filme”, comentou Wiig.
Outros tantos, porém, não vêem esse novo tipo de humor com bons olhos. A comédia, mais do que arrancar risadas, também pode incidir uma luz sobre um assunto específico e propor uma reflexão – nesse caso, claramente, evoca o manifesto feminista e o papel da mulher na sociedade. De acordo com a interpretação, seguir o caminho masculino – e o caminho dos homens mais irresponsáveis, que perambulam de excesso em excesso – significaria reforçar um comportamento leviano que, implicitamente, as mulheres, mais contidas e centradas, estão acostumadas a erradicar.
Quero Matar Meu Chefe
“O ideal feminista não indica que haveria igualdade ou estupidez. Encontrar o mínimo denominador comum entre os sexos não era o motivo pelo qual as pessoas marcharam”, criticou Gina Barreca, teóloga feminista de Universidade de Connecticut. “Hoje, é uma nova dissertação dizer: ‘Sim, mulheres peidam, mulheres arrotam e mulheres se embebedam’ ou ‘Não é fabuloso ver Cameron Diaz ser uma desgraça?’”, emendou.
Ela defendeu também que essa tendência de humor rasteiro só se tornou engraçado por colocar atrizes jovens, sílfides e delicadas nesses papeis, resgatando como exemplo a comediante Roseanne Barr, protagonista da sitcom dos anos 1980 “Roseanne”. “As pessoas esperam que Roseanne arrote, peide e cuspa, pois esperamos que uma mulher corpulenta se comporte dessa maneira. Mas agora, que envolve uma garota deslumbrante e minúscula, é de alguma maneira engraçado”, ponderou Barreca.
Professora sem Classe
O ponto de vista da teóloga não está incorreto. Mas quem aprecia a nova comédia feminina tampouco está errado. O movimento feminista advoga pelos direitos das mulheres a fazer o que bem entenderem – e, de vez em quando, aloprar, tomar umas doses a mais e falar alto é exatamente o que essas mulheres precisam e pretendem. Como cantava Cyndi Lauper nos anos 1980, “Girls Just Wanna Have Fun”.
E é exatamente, também, o que o público quer: ao invés dos 80% da plateia feminina que comparece aos filmes endereçados para si, “Missão Madrinha de Casamento” obteve uma proporção de 65% mulheres e 35% homens entre os espectadores pagantes. Estatística esta que Hollywood não deixou passar em vão e já trabalha nas sequências.
Missão Madrinha de Casamento



































1 Comentário
ótimo texto!
já não era sem tempo das mulheres conquistarem território no humor anárquico e politicamente incorreto :)