BRASÍLIA “Hoje”, de Tata Amaral, exibido no terceiro dia competitivo (29/9) do 44º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, foi o primeiro longa-metragem inédito da programação do evento, que este ano ficou com menor cobertura na média, devido à reprises de outros festivais.
Não só pelo ineditismo, mas por a paulistana ter uma filmografia de trabalhos marcantes – “Um Céu de Estrelas” (1997), “Através da Janela” (2000), “Antônia” (2006) – “Hoje” foi observado com muita atenção. Escrita por Jean Claude Bernardet, Rubens Rewald e Felipe Sholl, a trama se passa em um dia de 1998, inteiramente no interior de um apartamento paulista.
Denise Fraga vive uma ex-militante que, com a indenização pelo desaparecimento há 24 anos do marido guerrilheiro (o uruguaio Cesar Troncoso), compra um apartamento. Mas, no dia de sua mudança, ele ressurge e ela relativiza seu passado.
Como em seus primeiros longas, Tata concentra-se no diálogo de um casal enclausurado, sendo sua revolução pessoal e interna mais importante que o cenário em si. Tata sempre apresenta um exercício de virtuosismo fotográfico e de encenação. Em “Hoje”, entretanto, uma combinação de déjà vu com um ritmo intrincado parece ter encolhido sua força.
De imediato, “Hoje” remete a dois filmes de outro paulista, Toni Venturi: “Cabra Cega” (2005), todo num apartamento usado como um ‘aparelho’ de guerrilha; e “Estamos Juntos” (2011), pela inclusão do amigo imaginário da protagonista.
Durante entrevista realizada na manhã desta sexta, as aproximações entre os filmes de Venturi e este novo de Tata Amaral encontrou reflexão pertinente do roteirista, crítico e acadêmico Jean-Claude Bernardet. Sem descartar as semelhanças, ele apontou que o mais interessante é existir uma pluralidade de leituras sobre o período da ditadura. Explicou que, se por um lado o “Cabra Cega” olhava para o personagem de Leonardo Medeiros como um herói, o de Tata coloca seu guerrilheiro do passado num processo de expurgação da protagonista.
Sobre as sequências com imagens do personagem de Troncoso projetadas na parede e sobre o corpo de Denise Fraga – e dialogando com ela -, Tata disse que não conhecia o recente filme de Lúcia Murat, “Uma Longa Viagem” (que utiliza os mesmo recurso para falar da memória), mas conhecia “Superbarroco”, de Renata Pinheiro. “Lúcia foi uma consultora sobre o período da ditadura, mas ficou por aí”, afirmou.
Uma das melhores colocações da mesa foi a do ator uruguaio, Troncoso, para uma pergunta a respeito da composição de seu personagem: “Eu sou um ator, eu não penso”. Para bons entendedores, há uma precisão nessa resposta que resume muitas outras no que diz respeito ao trabalho do ator. Um trabalho essencialmente traduzível mais em ‘sentir’ e menos em ‘pensar’.































