Histórias que Só Existem quando Lembradas é um mergulho na vida

“Histórias que Só Existem quando Lembradas”, da diretora Julia Murat, começa simples, mas vai crescendo assombrosamente. Foi rodado numa pequena vila abandonada no Vale do Paraíba, no Rio, que parece contar apenas com 12 pessoas (apesar de um plano aéreo em que parece ter uma pequena comunidade estabelecida), todas velhas, que passam o tempo indo a missa, conversando, almoçando juntas e esperando alguma coisa acontecer, seja a chuva ou a morte.

O cotidiano pacato é abalado pela aparição de uma adolescente, Rita (Lisa Fávaro), que chega acidentalmente no vilarejo e pede para ficar uns dias na casa da padeira Madalena (Sônia Guedes), que segue uma rotina rígida toda manhã com Antônio (Luiz Serra): ele prepara o café, ela traz os pães, eles brigam sobre a arrumação do pão e depois vão para fora tomar café antes de ir à missa.

O único problema do filme parece ser esse início: toda a rotina é muito mecânica, muito mesmo, desde as cenas da padaria até a missa, mas o clima encontrado por Murat para descrever aquela cidade funciona perfeitamente e não fica artificial. Aos poucos, a relação entre Rita e Madalena vai ficando mais estreita e o filme caminha então para seus temas principais: o passado e como lidar com ele para construir o futuro, a velhice, as memórias e o conflito de gerações.

Madalena escreve religiosamente cartas para seu ex-marido, guardando logo em seguida. Lembra-se de seu passado, não olha no espelho, vive sem pensar muito. Perdeu o filho e o marido. A mesma coisa com Antônio, que perdeu seus filhos, e continua ali. Assim caminham os demais personagens, como o padre português, Carlos, que toda noite bate ponto para beber.

São personagens velhos, com mais de 60 anos. Mas aquela jovem, que ouve Franz Ferdinand em seu iPod, que sai tirando fotos com câmera digital novíssima, compartilha de todos os sentimentos. Está obviamente fugindo de alguma coisa, encontra uma figura materna (ou de avó?) em Madalena. Encontra um companheiro de bebida em Carlos. Fica dividida entre voltar para seu habitat natural ou permanecer naquele marasmo completo.

Nisso, o plano final é duvidoso. Apesar de aberto, não revela muito sobre o futuro dos personagens. Em alguns momentos, temos a impressão de que toda aquela cidade está morta, uma cidade literalmente fantasma, de tão à parte. Mas as pessoas não vivem assim nas cidades grandes, também? Enfiadas em seus computadores, quartos, condomínios?

A decupagem de forma geral, aliás, é incrível, criando planos mortos lindos, mas que nunca exageram na sua duração, assim como a montagem, clínica.

Como “Mergulho”, de Pedro Henrique Ferreira, que se passa também numa cidade do interior carioca (e tem propostas parecidas, em respeito à memória, apesar de executá-las de forma completamente distinta), o filme de Julia Murat precisa dos espaços para respirar em seus 90 minutos, precisa de planos longos, de uma rotina muito calejada para se aproximar do rumo de seus personagens, para só depois agitar as cenas com a chegada de Rita. Essa relação entre duração dos planos e cenas versus a personalidade e adaptação de Rita é um dos destaques da direção.

Todos os atores estão muito bons, mas é Sônia Guedes (de “A Hora da Estrela”) o grande destaque do elenco. Sua Madalena é intensa, sabe o que quer da vida, mas tem plena consciência do que perdeu, e precisa enfrentar isso todo dia em atos de sadomasoquismo cotidianos para continuar a viver. A medida que vai tendo contato com Rita, sua personagem desperta num estado de autoanálise sutil, quase imperceptível, e que humaniza o filme por meio dessa transformação.

Julia, filha da cineasta Lucia Murat (“Quase Dois Irmãos”), já havia dirigido o documentário “Dia dos Pais” (2008) e o curta “Pendular” (2009). Mas lançou este primeiro longa de ficção já no circuito dos grandes festivais – Veneza, Toronto, San Sebastián. E recebeu rasgadas críticas da imprensa internacional. Jovem ainda, aos 32 anos, é uma cineasta para se acompanhar com atenção.

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Histórias que só Existem Quando Lembradas

Imagem de Amostra do You Tube
(Brasil, 2011)

 ★★★½☆ 

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Leia também a entrevista:

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+ Mateus Nagime

Mateus Nagime é estudante de cinema na UFF e atualmente faz intercâmbio na Université Paris 8. Escreve críticas de cinema desde 2002 para jornais e sites, já fez vários blogs, mas agora vai parar em O Raio Verde (parece). É aficcionado por listas, de tudo quanto é tipo, e também por esportes, sobre o qual escreve no blog Além das Olimpíadas.

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